A Própria Carne e a Importância do Protagonismo Negro em obras Neolovecraftianas
por Nati Haddad
O que a mitologia de HP Lovecraft e a guerra do Paraguai possuem em comum? A princípio, pode não ter –– e realmente não tem –– nada a ver, mas a trama de A Própria Carne, filme assinado e dirigido por Ian SBF, produzido por Alexandre Ottoni e Deive Pazos, e estrelado por Jorge Guerreiro, Pierre Baitelli, George Sauma, Jade Mascarenha e Luiz Carlos Persy, conseguiu juntar os dois de uma maneira sutil num terror psicológico inteligente e envolvente, construindo a tensão e o mistério até o fim, onde as cartas são postas à mesa para os espectadores.
A trama começa com três soldados, Gustavo (Jorge Guerreiro), Gabriel (Pierre Baitelli) e Anselmo (George Sauma), que acabaram de desertar da guerra do Paraguai e sonham em chegar às suas casas são e salvos, mesmo que as expectativas para que isso se concretize fossem extremamente baixas, especialmente após Gabriel e Anselmo se envolverem no assassinato de um Coronel do exército, interpretado por Camillo Borges, e Gustavo ter uma das pernas baleadas, forçando o trio a apressar a busca por um lugar para se esconderem para achar uma locomoção até a cidade mais próxima, já que o “amigo” que os ajudaria a fugirem havia sumido sem dar qualquer notícia.
No meio da fuga, acabam forçados a bater na porta de um casebre caindo aos pedaços, quase como se tivesse abandonado, em uma pequena fazenda. São atendidos por um homem de idade avançada, com barba grisalha, malcuidado e cara de poucos amigos, que vamos chamar de Fazendeiro (Persy), acompanhado por uma jovem mulher que, a primeira vista, parece normal, mas que logo podemos perceber a loucura em seus olhares, risos e palavras, que vamos chamar de Garota (Jade Mascarenhas). Já na primeira conversa, o trio já consegue perceber que aquelas pessoas não eram normais, pois o Fazendeiro exige o corte de uma das pernas de Gustavo. Entretanto, eles não demoram a perceber que aquele lugar é mais assustador, enlouquecedor e, até, se posso dizer, atrativo do que eles imaginavam.
“Eles não sabiam, mas naquele momento eles entraram em um terror muito pior do que haviam acabado de sair.” Essas foram as palavras de Deive Pazos, o Azaghal, ao falar sobre o filme no minipod apresentado por Dudu Spohr e Thiago Cabello, com o tema Halloween, no qual ele fora como convidado especial para divulgar a obra. Não sei se concordo cem por cento com isso, já que a Guerra do Paraguai mostrou um lado da nojeira humana que se iguala ao que –– tirando Gabriel, que realmente entrou em contato com o terror lovecraftiano através do personagem do Eber Inácio –– o trio passou com o Fazendeiro e a Garota.
Bem. Vamos deixar, assim como Ian, Deive e Alexandre (com uma ajudinha do mestre Leonel Caldela), a parte lovecraftiana para o final, pois nesse momento eu quero falar de outro ponto crucial na trama, que é o protagonismo negro de Gustavo, interpretado pelo excelentíssimo ator Jorge Guerreiro.
Quanto eu soube da existência desse filme, foi em uma publicação no perfil do Jorge sobre eles terem sido finalistas em 8 quesitos no FilmQuest, entre eles Melhor Ator e Melhor Ator Coadjuvante, sendo o primeiro do ator Luiz Carlos Persy, intérprete do personagem Fazendeiro, e o segundo do ator Jorge Guerreiro, intérprete do personagem Gustavo.
Eu fui ver o filme com a ideia de que o personagem do Persy seria o protagonista e o personagem do Jorge um coadjuvante que se destacaria pelo talento impecável de seu intérprete, entretanto fui completamente surpreendida com um cenário completamente diferente do que eu imaginava.
Apesar de, agora que revisitando o filme, a direção realmente deu mais tempo de tela ao Persy, o enredo inteiro foi plano, sem uma linha narrativa que causasse uma mudança no personagem e justificasse o protagonismo, além de objetivos não claramente explicitados e a ausência do ponto de vista. A ausência de um nome também contribuiu para a dissociação e dificuldade de criar empatia pelo personagem, que funcionou muito mais na posição de antagonista, do conceito narrativo de “vilão”, do que de um “herói”.
O protagonismo do roteiro estava totalmente centralizado nos três desertores e, principalmente, em Gustavo. Analisando friamente, o personagem de Jorge Guerreiro foi o personagem que mais seguiu uma linha narrativa onde ele começa de uma forma e termina de outra, passando por vários momentos que culminaram na parte em que ele parava de fugir e se libertava das correntes que o prendiam, que não eram apenas físicas, mas psicológicas. Ele era um prisioneiro em fuga, e virou um homem livre em luta.
Além disso, podemos argumentar que o ponto de vista frequentemente estava em Gustavo, inclusive nós temos uma visão dos pensamentos e das mudanças psicológicas do personagem muito mais do que dos outros, tornando-se muito mais fácil adquirir empatia por ele do que pelos outros personagens, principalmente o tal que foi tratado nos festivais como protagonista.
Isso sem falar da atuação ímpar de Jorge Guerreiro, que colocou no personagem toda a carga emocional que ele demandava, e com seu brilho natural conseguiu iluminar a cena de uma forma que, mesmo se não fosse tudo o que eu disse anteriormente, ganha o protagonismo para si de uma maneira indiscutível.
Por que o protagonismo de Gustavo é tão importante para tornar A Própria Carne a história fantástica que ela é? Para falarmos disso temos que voltar ao tema Cthulhu e HP. Lovecraft. É, gente, no final, eu tive que acabar voltando aos contos lovecraftianos antes do que eu esperava.
Mas quem é HP Lovecraft e por que precisamos falar dele? Bem, deixa eu explicar. Howard Philips Lovecraft foi um escritor que viveu entre 20 de agosto de 1890 e 15 de março de 1937. Howard foi e ainda é, hoje em dia, famoso pelos seus contos de terror cósmico, e por ter “criado” toda uma mitologia para o mundo deles, panteão que, após entrada em domínio público, vários autores resolveram tomar para criar suas próprias histórias.
Qual a problemática de HP Lovecraft, Nati? Deixa a tia explicar. Quem conhece o autor, já sabe, mas se você não o conhece, outra coisa pelo qual Howard era famoso era por ser extremamente xenofóbico e racista, colocando esse teor em suas próprias obras, usando os cultistas e as próprias entidades cósmicas como alegorias ao estrangeiro, ao diferente, ao exótico e obscuro.
Inclusive, podemos ver o racismo no próprio panteão lovecraftiano. Pensem bem. Um grupo de deidades, os Anciãos, que vivem em um plano a parte, liderados por um sumo sacerdote, e um deus mais antigo e perigoso que eles, adormecido em um plano acima, que é vigiado por um deles para que nunca acorde, pois no momento do seu despertar, será o fim de tudo. A estrutura do panteão não lembra alguma coisa? E o fato desses Anciões serem escritos como seres obscuros de natureza caótica e maligna...
Os autores que pegam sua mitologia para construir suas obras tem a pretensão –– como dito pelo mestre Caldela em uma entrevista –– de deturpar esse teor xenofóbico, muitas vezes mudando a identidade dos cultistas para grupos opressores, como os nazistas no caso do NerdcastRPG e dos romances derivados dele. Tenho minhas ressalvas, mas admiro o esforço desses autores na tentativa, assim como em A Própria Carne.
E é aí que entra a importância do protagonismo de um homem negro como Gustavo nessa obra, impacto esse que não se daria com nenhum outro personagem como protagonista. Em uma narrativa que se busca usar da mitologia cthulhesca e deturpar, quebrar o racismo e xenofobia intrínseca a criação de Lovecraft, ter um personagem de uma minoria étnica e, principalmente, um negro, que ele certamente odiaria, é de uma ironia e sagacidade deliciosa, mesmo que, infelizmente, não tenha sido o real objetivo de quem idealizou a obra.













