Nas profundezas do coração do fundo do copo.
A cidade cerra os dentes enquanto ela dorme, o dinheiro acaba, as pessoas somem e o que resta é você e um monte de palavras pra queimar e espantar o inverno, nenhuma chance de dar certo. O rapaz ali já foi legal, já foi esperto, hoje é apenas alguém mais velho do que deveria tentando gostar de coisas que não foram feitas pra ele e desviar os olhos de quem o estrangula não vai adiantar. Eu prendo o folego eu esqueço que eu deixei a luz acessa pra ver se deus faz a sua parte, mas se eu não faço ninguém faz. Mesmo assim eu caminho por ai me ajoelho e rezo por mais um round, mas se a sua fé não é o bastante pra mudar, eu digo ok, ok, mas isso não significa que eu não presto, significa que eu presto pouco pra você.
Ainda tenho seu telefone guardado no bolso de trás, senhorita, eu me pergunta pra quê? Pra lembrar enquanto o mundo lá fora se desfaz, se desfaça logo, não me importo, por favor, acabe logo de um vez. E acabou quando ela perguntou “posso ser sua amiga?” respondi “É CLARO QUE NÃO!”. E esse não não mudou nada não tinha sido a primeira vez em que desejava voltar ao dia em que eu cheguei e ela me esperava com um sorriso e um bolo. Não deu certo nem uma, nem duas, nem da terceira vez, não deu, meu bem, esquece, esquece, não vou continuar (e nem nunca mais compartilhar do mesmo chão que você).
“Nas profundezas do coração do fundo do copo” é minha música favorita entre todas as cento e poucas que fiz na vida e para mim ela continua com a mesma energia, a mesma sensação toda vez que a ouço, é o meu clássico perdido num EP de uma banda que não existe mais. Eu não sei, acho que são os erros da gravação, o texto derramando pelos cantos, a falta de métrica, as desafinadas, tudo nela me soa como a verdade mais plena da minha juventude, é como uma fotografia musical de como eu me lembro de ser. Como consequência eu nunca mais fui tão explicito, nunca mais fui tão referente, tão insensato, tão puro. Escrevi de uma só vez andando por Curitiba no longínquo ano de 2009, a canção narra um reencontro num café com uma garota por quem eu fui, digamos assim, completamente louco de amor. Era um amor impossível como os que acontecem nas comedias românticas (sério) e o personagem revisita todo ano, por toda sua vida, um tipo de Adam Sandler paranaense. Quando a conheci eu estava tão mal, tão duro, tão sem emprego, dormindo no sofá dos outros e não havia a menor chance de dar certo. Definitivamente eu não era uma aposta para o futuro e mesmo assim ela entrou na minha vida. E por causa dela eu quis ser uma pessoa melhor, nem que fosse só pra estar por perto dos seus dentes, enquanto ela estivesse sorrindo para alguém. E foi o que aconteceu. A canção acontece depois de algum tempo depois de tudo isso, nos encontramos, conversamos, nos despedimos, seguimos nossa vida, pois você sabe que nas comédias românticas tudo termina bem.











