O que o jornalismo pode aprender com os nerds
A Companhia das Letras lançou no fim de outubro Os inovadores, uma biografia da revolução digital. Trata-se de um apanhado de histórias de pessoas que contribuíram para o surgimento do computador e da internet, uma vez que é difícil apontar um único responsável pelo desenvolvimento da tecnologia da informação.
Lendo o livro dá para ver que há similaridade entre os diferentes personagens citados: são criativos, são originais e são o que hoje nós chamamos de hackers - pessoas acostumadas a buscar soluções originais para desafios.
Nos últimos anos eu tenho estado mais em contato com o mundo hacker/nerd do que com o mundo do jornalismo. O engraçado é que isso me faz aprender muito mais sobre jornalismo do que entre meus colegas de profissão.
Explico:
A cultura nerd e a cultura hacker são naturalmente experimentais. Eles são os caras que fazem um computador que tuíta toda vez que alguém vai no banheiro só pela diversão de fazer isso. Não é uma questão de ganhar dinheiro com aquilo, ou de vencer um concurso qualquer de sabe-se lá o que. É só pelo desafio. Um dia o cara diz: não seria legal a cafeteira tuitar quando acabar o café? E pronto. Bora fazer.
Daí o cara consegue fazer a cafeteira tuitar. Beleza. Mas não acaba aí. Ele pensa: e se eu puder passar café mandando um tuíte? Bora continuar o projeto.
Mas o que isso tem a ver com o jornalismo? Bom, o lance é que nós jornalistas somos muito pragmáticos. Até porque tem o deadline, no fim do dia, que temos que cumprir, no matter what. E isso mata o tempo que poderíamos investir em projetos inúteis que não dão em nada.
O problema é que a inovação surge justamente nesses experimentos meio sem função, sem sentido, mas que nos empurram na direção do tentar, arriscar, errar e, eventualmente, acertar (putz, rimei ar com ar.. Não mostrem pro Ziraldo).
Jornalismo de resultados
Este ano mergulhei muito na minha veia programadora. Mas tenho muito pouco para mostrar. Acho que só vou colher isso ano que vem.. talvez em 2016. Sei lá.
Mas o que percebi foi que aprofundei algumas reflexões sobre o jornalismo e o ambiente digital. Uma coisa que percebi é que a necessidade de entender a máquina está se impondo cada vez mais, mesmo que as pessoas resistam a isso.
O jornalista tradicional é o cara que faz os outros conseguirem dados para ele. Ele é o cara que faz fontes, que acha o técnico certo para analisar as informações que conseguiu.
O problema é que, veja bem, o volume dos dados está aumentando a cada dia. E isso cria alguns problemas: posso conseguir um hacker pra raspar dados pra mim, mas que tipo de controle tenho sobre os dados obtidos?
Pode parecer bobeira, mas pense: você produz todo um material em cima de informações raspadas, mas que, de repente, tem uma inconsistência que você não percebeu. E daí? A responsabilidade é de quem?
Mais ainda: se a matéria é inteira baseada em dados obtidos e tratados por outra pessoa, de quem é o mérito? Mesmo que o repórter registre a participação do programador, é justo isso? É honesto, do ponto de vista intelectual?
Enfim, são perguntas que vamos ter que responder muito em breve.
















