Dia 50: A fronteira do silêncio
São cinquenta páginas escritas no escuro, despejando o que sobrou de mim nesse confessionário. Se lá no começo me dissessem que eu passaria todas essas manhãs acordando com o lado direito da cama frio e todas essas tardes sentindo o nó na garganta apertar quando o sol começa a baixar, eu teria dito que o meu coração não aguentaria a pressão. Mas aguentou.
A gente tem uma capacidade meio assustadora de se acostumar com a falta de ar. Esse momento não me trouxe a cura — e quem diz que o tempo resolve tudo em menos de dois meses nunca amou de verdade. O casamento dela continua agendado, a vida dela continua andando e o meu compasso continua desregulado. A diferença é que hoje eu já não choro mais pedindo pra realidade ser diferente. Eu só aceito que ela é o que é.
Chegar até aqui me mostra que eu sou mais duro na queda do que eu imaginava. Eu não morri de saudade, embora tenha chegado perto. Eu continuo aqui, firme no balcão, batendo o cartão na minha própria dor, mas com os olhos um pouquinho mais limpos do que estavam lá atrás. É uma teimosia de continuar vivo quando tudo parecia ter desabado.
Desce a melhor que tu tiver aí, meu. Hoje a gente não comemora a alegria, a gente só respeita a caminhada. Olhar pro retrovisor e ver o tamanho do deserto que ficou para trás dá um cansaço danado, mas pelo menos a poeira da cara já saiu.