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A obrigação de ser bela: sobre o corpo feminino na sociedade de consumo
(T) Joana Novaes (I) Fernanda Silva (D) 07.12.2015
“Sabe qual é o meu maior sonho? Envelhecer para poder comer uma macarronada sem medo de ficar gorda e feia. Imagine o que é poder comer sem culpa!!!”
Érika, 18 anos, estudante universitária entrevistada em pesquisa de campo para o livro da autora Corpo para que te quero? Usos, abusos e desusos (2012) Ed. Appris.
No mundo das imagens contemporâneas existem muito mais mulheres do que homens. Nossa cultura exibe a mulher permanentemente como forma de reforçar seus arquétipos. A imagem de mulher se justapõe à de beleza e, como segundo corolário, à de saúde e juventude. As imagens refletem corpos super trabalhados, sexuados, respondendo sempre ao desejo do outro, ou corpos medicalizados, lutando contra o cansaço, contra o envelhecimento ou mesmo contra a constipação.
Para a mulher, a beleza é representada como um dever cultural. E ser bela é ser magra. Enquanto o “homem público” remete-nos ao dever social, a imagem da “mulher pública” (o termo já tem uma dupla conotação) é sempre associada à sua aparência, apresentação e atração.
Importante ressaltar que se trata aqui da “imagem da mulher na cultura”, ou das representações sobre a feminilidade, uma vez que, felizmente, muitas mulheres são capazes de fazer escolhas não determinadas pelo discurso hegemônico, bem como identificar-se em outras posições.
Acreditamos que o terrorismo contemporâneo com relação à beleza tem menos a ver com o grau de repetição das mensagens do que com a evolução da mesma, devido, inclusive, à sua democratização. O que é normativo para a mulher contemporânea não é o fato de modelos de beleza serem impostos, uma vez que isto sempre existiu, nem mesmo que seja dito que ela deve ser bela (o discurso sempre foi este), mas o fato de afirmar-se, sem cessar, que ela pode ser bela, se assim o quiser.
A partir do discurso higienista do século XIX, os fabricantes da beleza retomam o mote da possibilidade de beleza, transformando-o não apenas em uma obrigação, mas sobretudo em uma “facilidade” – apenas uma questão de escolha e de vontade. Como já sinalizava a propaganda da Lancôme, “ser bela tornou-se fácil...”. Da mesma forma, a marca de cosméticos de Helena Rubinstein preconizava no início do século passado:
"Não existe mais mulher feia… a mulher inteligente, que queira de verdade, pode tornar-se, pelo menos, bonita… Até onde ela irá depende apenas dela. (...) Nos tempos atuais, é imperdoável que a gravidez faça com que a mulher perca a sua silhueta… A mulher deve ter um belo corpo para mostrar após os filhos estarem criados."
Uma intensificação do dispositivo repressivo, em que as mulheres são objeto, por meio de seus corpos, exprime bem um mal-estar constante. O modelo de beleza proposto e a consciência corporal (identidade corporal do sentido estrito) que as mulheres têm de si, apontam para a crescente insatisfação que elas têm com seus corpos.
Se historicamente as mulheres preocupavam-se com sua beleza, hoje elas são responsáveis por ela. De dever social (se conseguir, melhor), a beleza tornou-se um dever moral (se quiser eu consigo). O fracasso não se deve mais a uma impossibilidade mais ampla, mas a uma incapacidade individual.
Enquanto nos séculos passados podíamos culpar a natureza, na contemporaneidade a negligência é a responsável e a culpa é individual. O que hoje podemos observar é a “moralização do corpo feminino”, o que indica a passagem de uma estética para uma ética do corpo feminino.
A multiplicação das técnicas corporais e a difusão cada vez maior de modelos de beleza provocaram uma pressão cada vez mais prescritiva com relação ao autocontrole.
Uma “tarde para cuidar de si” é apresentada como uma forma de liberação. Uma consciência libertadora para a mulher que nisso investe. Trata-se, na verdade, de colocar a mulher aprisionada e sempre a serviço de seu próprio corpo, seja para aperfeiçoá-lo, ultrapassá-lo, modificá-lo, e muitas vezes, mutilá-lo, pois não importa o preço a pagar.
“No pain… No gain”, frase utilizada por Benjamin Franklin em The Way to Wealth, já no século XVIII, não foi escolhida aleatoriamente para ser o slogan do vídeo de Jane Fonda.
As mulheres devem aprender a viver seus corpos durante toda sua vida, e mais ainda, devem acreditar que isso é lúdico! A lógica das práticas corporais, que associa o prazer à saúde e a vitalidade à beleza, promete eliminar a inquietude que o olhar do outro provoca, por meio do esforço, da determinação e da disciplina, apontando todo o tempo para a responsabilidade do sujeito.
O prazer é irreversivelmente associado ao esforço, o sucesso à determinação, e a intensidade do esforço é claramente proporcional à angústia provocada pelo olhar do outro. Nada aqui é gratuito – tudo é obtido em um sistema de regulação de trocas, seja ele dentro da lógica capitalista ou inserido no pensamento do sacrifício cristão.
Na chamada religião do culto ao corpo na sociedade de consumo, o caráter prescritivo das disciplinas corporais é compreendido como uma herança do puritanismo e da cultura do “faça o melhor de si mesmo”, numa clara inspiração puritana, configurando, dessa forma, uma das molas mestras do body building, com a crença de que a moralidade não é apenas uma questão só de piedade religiosa, mas também de forma e disciplina muscular.
Por reviravolta completa, o corpo transforma-se em objeto ameaçador que é preciso vigiar, reduzir, mortificar para fins “estéticos”, com os olhos fixos nos modelos emagrecidos da Vogue, onde é possível decifrar toda a agressividade inversa de uma sociedade da abundância em relação ao próprio corpo e toda a recusa veemente dos próprios princípios. Trocando em miúdos: uma sociedade bulímica, - na qual a comida tornou-se uma facilidade, para então exigir do consumidor métodos compensatórios para se livrar das doses de prazer as quais se teve acesso amplo e irrestrito.
Se a identificação com tais modelos vislumbra a potência e o narcisismo perdido, a constatação de sua impossibilidade transforma esse objeto em persecutório. Assim, a imagem esplendorosa da mulher “malhada”, jovem e perfeita volta-se como um duplo contra ela, diante da qual se sente permanentemente consumida e diminuída.
Não é à toa que tratam de seu corpo com profunda tirania, privando-o de alimentos, mortificando-o nas inúmeras cirurgias ou submetendo-o a exercícios físicos torturantes. O termo malhar também não é usado aleatoriamente. Malha-se como se malha com o ferro quente...
Ao elevar a exigência de beleza como uma imagem para encobrir a própria morte, esta passa a ter o efeito oposto: acaba por declarar uma promessa de morte para o ego. Isto se dá porque o nível cada vez mais elevado de exigência estética elege como ideais o inatingível, o sobre-humano, muito distante para serem minimamente apropriados pelo sujeito. A este cabem apenas duas escolhas: ou encarna o corpo da moda e não pode mais conviver com o seu corpo mortal, ou desenvolve uma relação de ódio a esse ideal inacessível e a si próprio.
A beleza moderna, longe de prometer uma compensação narcísica à mulher, agudiza sua frustração e sua impotência face à potência da imagem. A mulher passa a ser mais algoz de si mesma em relação à beleza – prosaicas “Mouras-Tortas”,– desenvolvendo uma relação persecutória do ego com o corpo, em que cada ruga ou cada grama a mais as leva ao desespero.
A construção de uma bela imagem feminina inclui dois aspectos, respectivamente: o esforço inerente à sua modelagem, e o dispêndio financeiro e de tempo, ambos inerentes ao consumo dos tratamentos voltados para essa área. Nas mulheres, a beleza vem na forma de trabalho sobre o corpo – ser bela cansa e dói. Portanto, mais importante que ganhar dinheiro é estar em forma: seca, sarada, definida.
Não é difícil perceber por que a feiúra adquire um peso dramático na estética feminina, uma vez que o seu antagônico é fruto de constante obstinação e perseverança. A beleza da mulher deve ser apreciada nos detalhes; um mero descuido, um simples desleixo é o suficiente para a feiúra nela aparecer. Um reles descascado no esmalte, uma maquiagem fora do tom, uma depilação por fazer, o uso de uma roupa fora das últimas tendências da moda ou uma raiz mal feita, são aspectos suficientes para fazerem surgir duras críticas à sua imagem.
Objeto de maior regulação social, o corpo feminino é, por conseguinte, contido ao máximo em suas ações. Como fruto disso, espera-se que toda essa contenção resulte, simultaneamente, em uma corporalidade delicada, um comportamento polido e em um gestual estudado minuciosamente em seus movimentos.
Embora não possamos desconsiderar a existência de um mercado crescente voltado para a incorporação da população masculina nas práticas ditas de embelezamento corporal, ainda é reinante no imaginário popular uma visão preconceituosa, que encara os cuidados excessivos com a aparência como uma prática gay.
Nota-se que fenômenos diametralmente opostos ocorrem entre os dois gêneros. Enquanto para os homens os cuidados com a estética corporal não devem ser demonstrados em excesso, a fim de que não haja qualquer confusão nos códigos da imagem que deseja emitir, nas mulheres os qualitativos estéticos estão intimamente ligados à identidade sexual.
A falta de esforço e de cuidados com a aparência leva à perda dessa identidade. A ética da disciplina corpórea apresenta-se como um aspecto fundamental de coação social, na medida em que define não só as insígnias de cada gênero, como também engendra a distinção entre identidade sexual e sexo biológico. O impacto que a feiúra tem sobre a imagem de uma mulher é justificado pelo discurso que diz que a feia é menos feminina.
Mais ainda, se para os homens a produção da boa aparência refere-se a elementos de ordem objetiva, como o mérito envolvido no papel social que ocupam frente à sociedade, no caso das mulheres os atrativos da sua aparência têm relação direta com um mundo de conquistas subjetivas.
Dentro dessa lógica, entende-se que os qualitativos estéticos têm uma função preponderante na felicidade amorosa, familiar e sexual. Não basta ser uma boa mãe, uma esposa dedicada e uma profissional competente, é preciso estar enxuta para que cada um desses papéis seja mais valorizado socialmente.
Estar magra é positivado em qualquer contexto, discurso ou meio de sociabilidade. Estar magra é o melhor capital, portanto, a melhor forma de inclusão social, e por fim, a moeda de troca mais eficaz. Ser magra, nos dias atuais, é um adjetivo da beleza. Esta, por sua vez, reforça e condiciona a feminilidade.
Batalhar para ser bela põe uma mulher em pé de igualdade com as outras, fazendo-a sentir-se em condições de competir, aumenta sua autoestima e seu poder de sedução. Uma vez segura de sua beleza e de seus dotes, está preparada para eliminar a concorrência!
Entretanto, o corpo ideal não diz respeito somente ao controle do peso e das medidas, revela também funções psicológicas e morais. A feiúra caracteriza, em um só tempo, uma ruptura estética e psíquica, da qual decorre a perda da auto-estima. Vale lembrar que a dimensão ética é também rompida, pois deixar-se feia é interpretado como má conduta pessoal, podendo resultar na exclusão do grupo social. Portanto, mudar seu corpo é mudar sua vida, e as intervenções estéticas decorrentes desse processo traduzem-se em gratificações sociais.
Na modernidade, a estética encontra-se vinculada a diversas formas de sociabilidade, impondo sua ordem como uma instância reguladora que abarca um número cada vez maior de contextos e formas sociais.
Visto assim, o terror que se abate sobre a feiúra traz uma série de prejuízos sociais, físicos e psicológicos, produzindo um conjunto de inquietações que se manifestam com relação ao sujeito e ao seu próprio corpo. Em função dos cânones estéticos, o feio vive uma tensão constante entre o constrangimento psicológico e as exigências simbólicas, tendo a própria anatomia como seu pior algoz.
A distância entre a modelo da revista e o reflexo no espelho também contribui para a dificuldade de integração. Não se trata apenas de conciliar senso de realidade e aspirações narcisistas. O que propõem as fotografias são corpos imaginários, abstratos e inatingíveis e, por assim dizer, eternos. Não são submetidos à dor, nem ao envelhecimento, ainda menos à morte...
É em uma sociedade globalizada, dividida entre ganhadores e perdedores e sem ideais, que os sujeitos entregam-se às compulsões. Nessa urgência, qualquer espera equivale ao desespero, causado por uma enorme intolerância com aquilo que o atrapalhe em sua busca pela perfeição.
E nada mais distante da perfeição, na sociedade atual, do que a feiúra.
Joana Novaes
Professora do Programa de Mestrado Profissional e Doutorado em Psicanálise, Saúde e Sociedade (UVA). Tenho pós-doutorado em psicologia médica (UERJ) e em psicologia social (UERJ). Atuo como coordenadora do Núcleo de Doenças da Beleza (PUC-Rio), pesquisadora e psicoterapeuta do LIPIS (PUC-Rio) e pesquisadora correspondente do Centre de Recherches Psychanalyse et Médecine - Université Denis-Diderot Paris 7. Faço parte do conselho consultivo da Fundação Dove para Auto-estima. Sou autora dos Livros: O Intolerável peso da feiura. Garamond (2006). / Com que corpo eu vou? Sociabilidade e usos do corpo nas camadas altas e populares Pallas. (2010). / Corpo para que te quero? Usos abusos e desusos. (orgs Vilhena, J & Novaes, J.V.) Appris 2012. www.joanadevilhenanovaes.com.br
Fernanda Silva
Ilustradora de São Paulo. Me formei em Design Gráfico, mas nunca deixei de lado o meu maior afeto, a ilustração. Adepta a utilização de materiais palpáveis em meus trabalhos, me inspiro no movimento Pop Surrealista, em acontecimentos do cotidiano, na cor magenta, no humor ácido e na cidade. www.fffernanda.prosite.com