tanto tempo
foi essa semana —
ou a passada?
não sei mais.
o tempo se dissolve,
feito comprimido na língua,
sem gosto, sem lembrança.
já não sinto o rosto molhado,
nem o coração em disparada,
nem as mãos trêmulas,
que antes denunciavam o medo.
faz tanto tempo
que ninguém me olha com ternura,
apenas com sentenças:
“você não passa fome,
não está doente,
só precisa de Deus
e de um antidepressivo.”
D E U S.
nome que ecoa
onde não encontro eco —
não me toca,
não o vejo,
só ouço falarem dele,
da sua bondade,
da sua justiça,
da sua luz.
mas se fosse generoso,
meu corpo estaria quieto,
vestido de silêncio,
deitado entre flores,
e não escrevendo versos
para sobreviver.
Xiovann













