O ar do vazio
A muito tempo a poesia se faz em minha mente e não a coloco pra fora.
Converso sempre contigo à noite.
Lhe conto meus dias e anseios, como também as ansiedades.
Lhe vejo sentada ao meu lado e sopro no vento o que o coração grita e a boca não fala.
Às vezes até ouço sua resposta, vejo seu rosto de mãe a me fitar.
Uma face que diz eu entendo e vejo mais longe de um lugar que você ainda não consegue enxergar.
Tenho guardado no peito tudo que sinto sem conseguir expressar o que me atormenta, o que me acalenta.
Sigo haste fina com uma persistência que desconheço de onde vem.
As palavras que vem de dentro amargam minha boca, um ar sufoca meu peito e trava.
A poesia será que me salva?
Tenho desacreditado até da luz que me guia.
Será que ela me perdoa?
Não tenho rezado, não tenho pedido para viver.
Tenho pedido apenas para ir ao homem de branco que impõe a espada.
Me corta em pedaços a minha existência, não me cabe, não me aguento, mas sobrevivo.
O riso se tornou desconhecido e uma frieza toma conta de mim.
Onde foi que deixei aquela menina que sorria?
Será que ainda conversa e brinca com o vento ?
Quando o vento sopra é uma brisa fresca, ela entra pelas minhas fissuras e me resgata de lá do fundo, eu olho pra cima e não vejo, não vejo a luz no fim do túnel.
Será que a poesia dessa vez me salva?
Quando era pequena eu respirava em palavras e seguia em frente, encontrava nos braços dos amigos o amor que eu não conhecia.
Ao redor de mim, o vento.
O vazio e tudo que tem dentro dele.
Olhares raivosos, palavras ofensivas, chutes, jogam coisas em mim.
Será que só me vê com os olhos da raiva?
Será que sou vítima de mim mesma?
Será que sou assim tão sofrida?
Será coisa de minha cabeça?
O ar em meu peito sufoca.
Sigo pela responsabilidade de seguir.
Para sobreviver, escrevo.
Para escrever eu sinto.
E transbordo, porque sobro, pois não caibo.
Não existe lugar pra mim, quis sair de todos que entrei.
E sigo aqui sentada defecando enquanto escrevo palavras em poesia, entre a merda e a sutileza, talvez esse seja meu lugar.
Kalunga, será que haveria descanso?
Eu que sempre falava do mar, estou na seca.
Será o sertão que vive em mim?
Ou eu vivo no sertão?
Ser tão poesia me falta chão, ou será que me sobra?
Agora respiro o ar do vazio.
-feitopoeta-








