Buzinas ao longe, os pássaros cantando, uma furadeira, aquela playlist para fazer faxina, mais um episódio do podcast, maratonar aquela série, algum vídeo no Youtube, mensagens de áudio, Reels no Instagram, feed infinito... Os estímulos são muitos! São muitos e estamos o tempo todo rodeados deles, por escolha ou não.
Sempre que estou em casa sozinha tenho a opção de não ver ou ouvir nada no celular. Eu poderia apenas ouvir o silêncio (e todos os sons da vizinhança). Inclusive não tenho TV justamente para ter esse ambiente mais silencioso, livre desse estímulo. Mas eu consigo? Não. Tem que ter um podcast pra lavar louça, um pra cozinhar, uma playlist pra limpar a casa, um vídeo ou série pra ver enquanto almoço...
E assim a cabeça não para! Bem, ela não para de todo modo. Mas desse jeito ela tá o tempo todo sendo estimulada. Tem sempre um novo assunto pra pensar: uma fofoca de um desconhecido, uma piada, um assunto sério, a letra de uma música, a pronúncia de uma palavra, comerciais, as escolhas de figurinos ou de locação daquela série, esse enquadramento, comerciais, episódio novo, vídeo novo, novo post, publicidade...
Eu tô cansada só de lembrar! E assim nós vivemos: cansados. Por achar que estamos usufruindo o tempo livre, estamos nos entupindo de estímulos e ficando ainda mais cansados. O que aconteceu com almoçar apreciando a comida e nada mais? Semana passada eu mordi a parte interna da boca umas dez vezes enquanto mastigava algum alimento. E toda vez eu pensava "deve ser um lembrete pra eu prestar atenção na mastigação..."
Há quem acorde com o celular na mão passando feed e stories. Nem assiste, só deixa rolando. Que interações são essas? É isso que a gente quer? Quando vê já passou um tempão ali e não fez nada que pusesse algum sentido no dia... Eu estou viciada também, sei bem como é. Mas a não ser em raras exceções no fim de semana, eu só pego no celular após levantar e tomar café. Ao menos esses minutos de paz pela manhã eu preciso.
E pensar que antes nós tínhamos "a hora de acessar a internet". Os que vieram antes de mim realmente tinham um horário exato porque o custo era alto. Mas falo da minha geração que não tinha acesso em casa. Que precisava ir a uma lan house e pagar pelo tempo em que poderia acessar. E ali aprendi a ser objetiva. Tinha que ser rápido! Se eu fizesse a pesquisa rápido, quem sabe sobrasse tempo pra ver meu Orkut...
Hoje a gente começa e termina o dia com a internet ligada (há quem durma com o wifi ligado e notificações! Pra mim já é demais!). Tá sempre disponível, sempre online e se não tá, é cobrado por não responder logo. Criamos um monstro! E não, não estou demonizando a internet, a era digital, etc. Apenas problematizando o uso que fazemos dela e desse aparelhinho que praticamente faz parte do nosso corpo (há quem diga que ficar sem o smartphone é mesmo que ficar sem um braço).
Criamos a tecnologia para facilitar a nossa vida, reduzir distâncias, mas estamos sendo escravizados por ela? Nos deixamos ser controlados por ela ao invés de controlá-la? Quem dita as regras? Quem liga e desliga o wifi ou os dados móveis? Quem ativa ou desativa as notificações? Quem define o melhor horário para responder mensagens e emails? Quem escolhe quando e o quê postar? E essa compra, eu realmente preciso disso agora? Se eu desligar aqui, isso ainda será um problema?
A gente vive reclamando de cansaço e às vezes o que a gente precisa é reduzir tantos estímulos. É se permitir ficar em silêncio sozinha em casa (e ouvir os próprios pensamentos). É colocar toda a atenção para o que estamos fazendo naquele momento. Concentrar-se. Como é difícil se concentrar nos dias de hoje! A criatividade surge aí nesse espaço de concentração, atenção e silêncio. Esse texto saiu assim, me ouvindo, em silêncio.
Eu percebi que preciso de mais momentos assim, sem estímulos externos, pra me ouvir e refletir sobre coisas que fazem ou não sentido pra mim. Inclusive reflexões que ajudam a tomar decisões. Criar. Explorar a própria imaginação e não apenas ficar reproduzindo o que vejo por aí... A terapia funciona assim não é? Quando a gente fala com o outro e ouve a si próprio a gente reflete sobre o que tá pensando e chega a algumas conclusões. Na falta dela, se ouvir no silêncio tem um poder similar.