Capítulo 4. Cinza
Quarta-feira cinza e seu carro prata estacionado na praça em frente de casa, Madrugada a dentro em conversas infinitas que nunca levam a nada, Você disse que eu podia me abrir e prometeu jamais me ferir, Eu te contei dos meus medos e traumas sobre o amor,
Te avisei para não tentar, da confusão que habita em mim, Mas você falou que não temia minha dor, Que beijaria cada cicatriz, Se eu soubesse que chegaríamos aqui, jamais iria confiar, Mapeou minhas vulnerabilidades para saber onde machucar, Seu abraço era meu refúgio para fugir das coisas que sempre li sobre mim, Crescer com essa exposição foi uma questão de sobreviver, É mais fácil apedrejar sem saber o caminho de alguém, sem um lar pra voltar, você era meu lar, dói aceitar que alguém pode respirar com a consciência de ser tão ruim, Eu jamais conseguiria ser assim, só consigo me culpar por acreditar, Nunca escondi o pior de mim, mas você continuou mesmo assim,
Mesmo quando seu teatro começou a cair, eu permaneci, Naquele carnaval eu te disse que você não precisava mentir, Que não trocaria teu calor por nada que exista nessa cidade, Todos que você dorme, depois vem me contar o que você fala sobre mim, Eu arriscaria tudo que construí por ti, mas você jamais arriscaria me assumir, Por que você ainda está aqui? Por que você mudou pra minha rua? Por que me perseguir? Usar um sentimento de verdade por vaidade.
Eu fugi daquele manicômio quando me proibiram de te amar, De todos abusos que sofri o pior é saber que vivo sempre na mira, e se eu me abrir, vão atirar, ainda dói, vai doer, Ninguém vai me perdoar, me esperam errar, Se você nunca acreditou, porque brincou de amar?
Eu fui contra todos pra te perdoar, pra você ficar, Porque no fundo eu sempre quis acreditar na sua ilusão, Fiquei sozinho e aqueles que chamei de amigo sussurram que enlouqueci, Não consigo mais sorrir, mas eles riem de mim, dizem que eu caí ou sou o vilão, Mas como eles se sentiriam se vivessem o que eu vivi?
Eu queria escrever sobre ser feliz, mas eu não consigo mais mentir, não importa minha reputação, Deus sabe o quanto eu pedi, esconder essa depressão com fantasia sempre me sufocou, Você chorou enquanto a água do chuveiro caia sobre mim,
Disse que em outra vida talvez as coisas não tenham sido assim, Você sempre ganha no xadrez e todos acreditam no que você diz, Alimentando rumores sobre mim, que nossa relação foi só uma ficção, Eles sabem que todas às vezes que você me traiu e mentiu, como um tolo te defendi,| Te amar foi uma guerra eterna entre a razão e o coração, e no fim eu perdi, | Você ressurge das cinzas toda vez que consigo fugir, Vemos nossas fotos escondidas dos últimos dez anos, deitados por horas na sua cama,
Algo em mim me faz pensar que talvez essa quarta-feira não seja tão cinza assim, E se dessa vez você mudou? Eu sempre passo por cima de mim cada vez que você me manipulou, Mas você sempre negou nosso amor para ir em busca de fama, Iludindo garotas e dormindo com garotos enquanto pensa em mim.
Você devia ganhar o oscar de melhor ator, mas a vida real não é uma encenação. Perco a razão mais uma vez quando eu sinto teu cheiro no moletom, fecho os olhos e por alguns segundos esqueço toda dor que você me causou, você me mostrou que não há limite para ser ruim, mesmo assim eu só queria você aqui, Eu sei que a culpa é minha, eu quis me enganar, mas talvez isso seja amar, ser capaz de perdoar e ver além dos teus erros, na esperança de você ficar e de tudo que possamos ser e construir, ou talvez eu esteja romantizando essa síndrome de Estocolmo, a realidade dói a ponto de não poder mais fantasiar, porque o carnaval sempre vai passar, você vai estacionar seu carro em cada casa que eu morar, você pode até voltar e me ligar arrependido, a quarta-feira de cinzas vai chegar, Mas a única certeza que eu tenho é que você nunca vai ficar.
Você sempre criticou tanto meu mundo ser colorido e agora só restou a dor, teu cheiro no moletom cinza e essa poesia sobre não saber lidar com um amor reprimido.
por Erick Mafra
Trecho do livro ‘’A Queda do Anjo’’ 2024















