โnรฃo era sobre habilidade em encontrรก-lo. havia algo mais insistente, estrutural, caminhos que se dobravam por hรกbito e nรฃo por acaso, e corpo que aprendia antes da consciรชncia onde precisava chegar. se existia algo parecido com destino, mikkel passara a encarรก-lo menos como promessa e mais como repetiรงรฃo obstinada. era apenas um mecanismo que devolvia eric ร sua รณrbita vezes demais para que pudesse continuar fingindo surpresa. mesmo quando se obrigara ao afastamento, aqueles dois anos tinham sido um exercรญcio mal-sucedido de negaรงรฃo. eric permanecera ali, ocupando espaรงo silencioso e contรญnuo, infiltrado nos intervalos das noites longas de trabalho, na recusa quase automรกtica de se deixar envolver por quem quer que fosse, no fundo dos copos vazios de whisky que marcavam as sextas-feiras em que os pensamentos nรฃo aceitavam descanso. como poderia jamais pertencer a alguรฉm distinto se sempre seria tรฃo profundamente dele?โ
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i'm sure there's some explanation โ nos jardins com @ericbouvier
Jรก vazia alguns dias que Oliver estava tranรงa fiado dentro do seu quarto de hotel sem falar com as pessoas e sem interagir com o mundo lรก fora. Se o porguntassem o motivo, ele nรฃo saberia dizer exatamente qual foi, apenas que algo dentro de si o segurou recluso por quase uma semana. Naquele dia, entretanto, ele decidiu dar uma volta pelas dependรชncias do hotel para ver se conseguia limpar sua cabeรงa dos pensamentos negativos que haviam chegado junto com aquela chuva que nรฃo parecia ser um fim prรณximo. Estranho. Na noite anterior, assim como em. todas as outras, Oliver nรฃo conseguiu dormir antes das seis da manhรฃ quando tudo no hotel parecia voltar ao normal. Ele queria pedir ajuda para conhecidos, talvez dormir com alguรฉm especรญfico, mas nรฃo parecia ter coragem ou forรงas para fazer tal pedido. Ao andar pelo jardim com um guarda-chuva sobre si, segurando firme para que o vento nรฃo levasse embora, ele avistou a figura conhecida de Eric e se aproximou, ouvindo a frase que o amigo soltara. "Pra mim ou pra essa chuva infinita?" Disse tentando manter o bom humor mesmo que ele jรก tivesse ido embora fazia alguns dias e cos olhos claros presos das gotas aleatรณrias que caรญam do cรฉu. "Se for a primeira opรงรฃo... Sรณ estava tentando colocar minha cabeรงa no lugar. Mas nรฃo acho que tenha tido sucesso."
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โ you look like you were jealous. โ // @ericbouvier
mikkel suspirou, aquele tipo de suspiro que vem antes mesmo de um pensamento se formar direito, cansado. nรฃo diria que nรฃo, porque mentir nรฃo era algo que fizesse bem. nรฃo diria que sim, porque sequer sabia nomear o que queimava em seu peito. ele nunca fora exatamente ciumento, ou pelo menos era o que dizia a si mesmo. mas o que acontecera aliโฆ era diferente. algo pequeno, banal atรฉ, se visto de fora... o modo como eric se abaixara um pouco para ouvir o outro homem falar, o sorriso que trocou com ele, o olhar rรกpido que cruzou a mesa e encontrou o seu. e naquele olhar, mikkel teve a certeza absurda de que ele sabia. a tensรฃo subiu devagar, como um nรณ se apertando na garganta. o movimento mecรขnico de fechar o notebook, clique seco da tampa ecoando mais alto do que o barulho do bar. guardou as coisas, levantou-se. nรฃo havia raiva direcionada a eric, nรฃo de fato... era uma raiva difusa, sutil, dirigida a si mesmo, por ser incapaz de fazer o mesmo. de permitir-se, em pรบblico, algo tรฃo simples quanto um flerte. รฉrebo, em algum canto dele, se revirava de impaciรชncia. sumiu, deixando o restaurante para trรกs, entrando em elevador... as portas quase se fechando atรฉ serem interrompidas por uma mรฃo. o sorriso de eric, meio inclinado, preguiรงoso, o atingiu como soco leve. mikkel desviou o olhar primeiro, depois o recuperou, firme. โera esse seu objetivo?โ a voz saiu calma, mas havia algo por trรกs, corrente subterrรขnea, tremor no ar. um riso seco, breve. โnรฃo tenho nada a sentir, eric. vocรช faz o que preferir.โ mas o maxilar cerrava quando dizia aquilo. o corpo nรฃo acompanhava a fala. cada passo dado em direรงรฃo a ele diminuรญa o espaรงo, um roubo silencioso de territรณrio que o prรณprio mikkel fingia nรฃo notar. o som do elevador soou entre eles, metรกlico, frio, lembrete. e ali que se fez รณbvio, o incรดmodo, o silรชncio, o sair repentino da rotina silenciosa dos รบltimos dias, de observรก-lo trabalhar enquanto fazia o mesmo. ficava transparente atรฉ na forma como deixava o elevador. sim, estava com ciรบmes.
apรณs tantos encontros falhos, o prรณprio mikkel podia assumir que nรฃo havia mais centelha de forรงa que mantivesse aquilo em um terreno amigรกvel. jรก havia beijado outros homens, atรฉ pior, mas nunca fora o primeiro a atravessar o limite. ele era o tipo de pessoa que precisava de um empurrรฃo para permitir que o instinto rompesse o que o raciocรญnio bloqueava. um reflexo da figura que ainda nรฃo compreendia muito bem seu querer, como se houvesse dentro dele uma trava moral antiga, coisa herdada de uma criaรงรฃo complexa demais. esperava que alguรฉm mais decidido resolvesse o que ele nรฃo conseguia formular em si mesmo. e, sob a face do primeiro beijo, o alemรฃo finalmente cedeu. cedeu ao impulso que vinha crescendo ร revelia do bom senso, fermentando silencioso nos รบltimos dias. o toque foi calmo, uma lentidรฃo ensaiada, talvez, mas havia algo de incontido ali. um gesto simples que condensava duas semanas de tensรฃo nรฃo dita, de olhares desviados rรกpido demais, de conversas interrompidas antes que o ar mudasse de temperatura. por um instante, nada mais existia. a percepรงรฃo se estreitou atรฉ o toque, atรฉ o cheiro dele, atรฉ o som contido da respiraรงรฃo. parecia mesmo um universo ร parte, pequeno, privado, como se ambos estivessem suspensos em um tempo que nรฃo obedecia ร cronologia, ou regras morais, comuns. e mikkel, tรฃo acostumado a controlar, sentiu-se estranho em nรฃo querer que aquilo parasse. eric era, inegavelmente, alguรฉm que o perturbava. nรฃo pela ousadia, mas pela a naturalidade com que o fazia sentir algo que, em outro contexto, teria negado de imediato.
sabia, no fundo, que depois daquele dia seria quase impossรญvel manter a cordialidade. havia cruzado uma linha invisรญvel e, por mais que tentasse racionalizar, parte dele gostava de saber disso. o beijo se partiu com o som abrupto da campainha; uma daquelas pequenas ironias do destino que pareciam ter prazer em testar sua paciรชncia. um suspiro, um ajuste breve na gola da camisa, e ele se ergueu, jรก recobrando o ar de controle que sempre vinha depois de um desvio. as bebidas haviam chegado. e, junto delas, o lembrete do presente que deixara separado. caminhou atรฉ o quarto, a mente ainda tentando processar o que acabara de acontecer, o corpo pulsando em um compasso que ele nรฃo queria admitir. quando retornou, trazia a caixinha nas mรฃos. โvocรช disse que era seu aniversรกrio, nรฃo? naquele dia.โ
havia um sorriso discreto nos lรกbios, a satisfaรงรฃo silenciosa de quem, apesar de tudo, havia conseguido ser atencioso. nรฃo era homem de presentes; nรฃo porque nรฃo gostasse, mas porque nunca sabia o que dar. mas dessa vez, havia prestado atenรงรฃo. lembrava-se de eric comentar que o caderno jรก nรฃo aguentava mais uma anotaรงรฃo. e lรก estava um novo, elegante, funcional. as pรกginas imantadas, o papel de gramatura alta, o toque de metal polido no marcador que trazia o nome gravado. era o tipo de presente discreto, mas pessoal. a reaรงรฃo veio imediata, risos, surpresa, uma animaรงรฃo sincera que o desarmou por completo. e quando o beijo voltou, mais intenso, ele nรฃo hesitou. dessa vez nรฃo havia pensamento racional o suficiente para barrar o gesto. os dedos deslizando da nuca atรฉ os botรตes, o corpo reagindo sem cรกlculo. e entรฃo... o telefone vibrou. o som cortou o ar com uma precisรฃo irritante. ele suspirou, o muxoxo escapando antes que pudesse disfarรงar. mas, ao ver o nome na tela, o dever se impรดs. era victor. e, como um reflexo antigo, tudo o que havia de impulso se dissolveu. mikkel nunca negava uma ligaรงรฃo dele. o maxilar se contraiu, o olhar desviou, e em um segundo todo o calor do instante anterior pareceu se recolher sob a pele; substituรญdo por aquele tipo de silรชncio tenso que antecede o cumprimento de um papel inevitรกvel. a voz, quando atendeu, soou estรกvel, controlada. como se o homem que atendera o telefone fosse outro.
nรฃo haviam passado muitos dias desde a รบltima vez que o vira. talvez nem chegassem a ser dias... horas, se muito. mas tempo o bastante para corroer mikkel com aquele vรญcio recente que jรก o dominava sem cerimรดnia. o tipo de inquietude que nรฃo se disfarรงa com trabalho, nem com as longas planilhas. havia tentado seguir a rotina, claro, mas em cada tentativa, o pensamento recaรญa sempre no mesmo ponto, o riso fรกcil, a forma como eric o olhava sem pudor, e o silรชncio carregado depois de cada toque. foi isso, o pretexto leve, o jantar em conjunto, que o fez dirigir atรฉ lรก. nรฃo havia plano algum, apenas uma desculpa conveniente. ele levaria o whisky; eric, o jantar. a cozinha estava quente. o vapor se misturava com o cheiro do tempero, e havia algo de รญntimo em assistir eric cozinhar, a atenรงรฃo com que mexia os ingredientes, a habilidade no gesto, e cada movimento carregava uma provocaรงรฃo sutil que existia apenas em pensamento do alemรฃo. mikkel se recostou na bancada, o copo de whisky entre os dedos, observando. fingia ouvir com atenรงรฃo as histรณrias sobre o trabalho, as viagens, mas parte dele jรก nรฃo estava mais ali. as palavras do francรชs se tornavam ruรญdo agradรกvel, e o que o distraรญa era o modo como a luz da cozinha caรญa sobre a curva do pescoรงo, sobre o tecido leve da blusa. havia algo de perigoso em olhar demais, mas tambรฉm algo impossรญvel de evitar. e em um lapso que parecia inevitรกvel, ele se moveu.
abandonou o copo em algum canto da bancada e, com a naturalidade de quem jรก cruzara esse limite antes, aproximou-se o suficiente para que o calor da respiraรงรฃo denunciasse a distรขncia. os lรกbios tocaram devagar a pele exposta da nuca, a urgรชncia de quem jรก vinha lutando contra o impulso hรก tempo demais. o toque durou pouco, o suficiente para que eric parasse de mexer a colher. um riso baixo escapou dele... aquele riso que sempre vinha antes da confusรฃo. e a mรฃo que antes segurava o copo agora deslizava pelo tecido da blusa do outro, explorando o terreno, experimentando atรฉ onde poderia ir antes de ser repreendido. o som do fogo sendo desligado veio antes que o raciocรญnio voltasse. eric se virou, e por um instante o ar pareceu mudar. havia provocaรงรฃo nos olhos, um reflexo claro de que entendia o jogo e estava disposto a jogรก-lo. as risadas se misturaram por alguns segundos, e em meio ร quela tensรฃo elรฉtrica, o que era brincadeira virou algo mais. o beijo que veio depois foi uma continuaรงรฃo inevitรกvel da noite anterior... urgente, carregado, desajeitado atรฉ, como se ambos tivessem pressa demais para se preocupar com sutileza.
era quase cรดmico o quรฃo rรกpido perderam o rumo da cozinha. as blusas foram arrancadas antes mesmo de darem dois passos. as fivelas, meio abertas, jรก denunciavam o caminho que tomariam. o corpo de mikkel reagia como se hรก muito esperasse por aquilo, cada toque incendiando a compostura que ele levava tanto tempo para construir. e entรฃo, claro, o som da porta. e lรก estava ela, a irmรฃ de eric... entrando carregada de sacolas, falando algo sobre compras, sem sequer perceber o que interrompia. mikkel teve apenas tempo o suficiente para ajeitar a camisa, virar o rosto, esconder o sorriso incrรฉdulo que ameaรงava escapar. o coraรงรฃo ainda batendo em ritmo descompassado, o sangue ainda quente demais. o francรชs respondeu alguma coisa, tentou parecer natural. mikkel, por outro lado, tentou disfarรงar o riso, ajeitou o cabelo, e em poucos segundos jรก era novamente o homem que nรฃo perdia o eixo, que sabia como sair de uma situaรงรฃo com dignidade. mas por dentro, ardia... desejo puro, inacabado, o tipo que gruda na pele e demora a dissipar. e enquanto ouvia a conversa banal se desenrolar entre os dois, sรณ conseguia pensar no desfecho que teriam se ela nรฃo houvesse chegado.
aquela noite nรฃo era para encontrar com eric. tinha, na verdade, um evento a atender, um daqueles compromissos sociais que exigiam presenรงa, sorriso, postura. o terno caรญa impecรกvel sobre o corpo, as linhas rรญgidas. mikkel nunca deixava margem para lapsos, improvisos... e ainda assim, o pensamento insistia em desviar. voltava ร noite de dois dias antes, ao toque breve, ao olhar que lhe escapara por mais tempo do que deveria. achou graรงa quando, ao se aproximar do local, viu figura alta, morena, avanรงando em direรงรฃo ร entrada de funcionรกrios. por um instante, duvidou da prรณpria visรฃo; talvez fosse o desejo, ou a memรณria, pregando peรงas. e o riso curto, contido entre os dentes, saiu em lufada de ar antes que ajeitasse o sobretudo e seguisse o caminho. o evento em si fora o de sempre, normal, entediante. copos trocados, promessas veladas, o jogo elegante da elite tentando parecer espontรขneo. fazia parte do papel manter o nome dos bouchard circulando nas conversas certas. conseguiu, atรฉ. trรชs novos clientes, contatos selados em taรงas de champanhe... atรฉ que o mundo pareceu parar por um instante.
porque ali, entre os convidados e o som abafado da orquestra, ele o viu. o francรชs, agora em uniforme, movendo-se com calma irritante, bandeja em mรฃos, postura educada. a leveza dos gestos, o modo como falava com os outros garรงons; aquele humor breve, uma observaรงรฃo qualquer que arrancava sorrisos. e mikkel sentiu o corpo reagir de forma imediata, involuntรกria. o olhar fixo, o sangue quente. tentou se manter na conversa, mas as palavras dos outros tornaram-se ruรญdo. e quando o viu receber a aproximaรงรฃo de outro homem, alguรฉm que se inclinou demais, que empurrou algo discretamente em seu bolso, algo em si se contraiu. nรฃo ciรบme, jamais admitiria. mas uma chama seca de irritaรงรฃo, de posse, de lembranรงa. foi entรฃo que decidiu se fazer perceber. levantou-se com calma, pediu licenรงa com um sorriso ensaiado, e atravessou o salรฃo. a trajetรณria milimetricamente calculada, o suficiente para cruzar perto, para ser notado, para deixar no ar o vestรญgio da presenรงa. e seguiu, direto, atรฉ o corredor lateral. no banheiro, o som distante da festa se diluรญa. ele checou o relรณgio, ajeitou o cabelo, endireitou as vestes. e ouviu a portas.
o instante foi breve, o olhar que reconhece, o sorriso contido, a ironia silenciosa. uma troca curta de palavras, o tipo de conversa que mais servia para encobrir o inevitรกvel do que para significar algo. e inevitรกvel foi. o sorriso dele se desfez em provocaรงรฃo, o ar tenso se partiu em gesto. o beijo veio carregado, e o som da porta sendo trancada ecoou pelo azulejo frio. as mรฃos se encontraram com urgรชncia, a precisรฃo se transformando em pressa. o terno, o tecido, o calor, tudo se misturava, indistinto. nรฃo havia controle, apenas o desejo reprimido encontrando uma brecha para escapar. o som das respiraรงรตes, o atrito, o quase. atรฉ que veio a batida. uma, duas, trรชs. a primeira ignorada, a segunda suportada, a terceira, violenta, irritante, partiu o transe. o corpo ainda pulsava, mas o tempo havia voltado a existir. mikkel fechou os olhos, respirou fundo, o maxilar travado de frustraรงรฃo. ele nรฃo dizia nada, mas o olhar bastava. a tensรฃo percorria o rosto, o pescoรงo, o queixo. uma irritaรงรฃo que misturava raiva e desejo, sem fronteiras.
recompuseram-se depressa. os dedos รกgeis, o tecido alinhado, o reflexo no espelho sendo devolvido ร forma anterior... como se pudessem apagar o que havia acontecido. eric o olhou de soslaio antes de se esconder em uma das cabines, o riso preso entre os dentes. mikkel esperou o tempo certo, o suficiente para recuperar o tom neutro. abriu a porta. o corredor estava vazio. ninguรฉm o esperava, ninguรฉm suspeitava. e ao voltar para o salรฃo, o mundo retomou seu brilho falso. taรงas, risos, mรบsica. nada fora do lugar. exceto ele. que ainda sentia, sob o tecido caro do terno, o toque de eric faiscando em sua mente.
mikkel havia planejado cada detalhe da noite com a precisรฃo de quem tenta, de alguma forma, dominar o que sente. o jantar estava no forno, a mesa posta como se esperasse uma ocasiรฃo formal, guardanapos dobrados em triรขngulo, os talheres alinhados por รขngulo, o vinho respirando hรก exatos trinta minutos. as luzes haviam sido ajustadas em tom ameno, o suficiente para que parecesse casual, mas nรฃo impessoal. ele atรฉ deixara a janela entreaberta, para permitir que o ar frio entrasse. as mensagens de trabalho tinham sido silenciadas, e os compromissos do dia, cuidadosamente redistribuรญdos para que ninguรฉm o incomodasse. vou resolver umas questรตes pessoais, como tinha avisado. se ao menos alguรฉm soubesse o quanto de energia havia investido em uma questรฃo pessoal que ele mesmo mal compreendia. tudo parecia perfeito. ou, ao menos, controlado. e por alguns minutos, acreditou que, dessa vez, seria diferente. que o plano nรฃo seria frustrado por imprevistos, ou hesitaรงรตes, ou por aquela estranha forรงa que sempre parecia puxรก-los de volta antes do limite.
atรฉ que o celular vibrou.
๐ฉ ๐น๐ ๐๐ ๐๐๐๐ ๐๐ ๐๐๐๐๐๐: mon coeur, vou precisar desmarcar hoje. minha mรฃe nรฃo estรก se sentindo bem. podemos remarcar para outro dia?
ele ficou imรณvel por alguns segundos, olhando a tela. suspirou fundo, deixou o corpo cair de costas no sofรก, e por um instante, apenas ficou ali, ouvindo o barulho abafado do forno ainda ligado. algo nele queria rir da coincidรชncia, outra parte queria jogar tudo pela janela. levantou-se devagar, desligou o forno, pegou uma das garrafas de cerveja na geladeira. o som do metal abrindo pela cozinha silenciosa, e o primeiro gole. o peso de perceber o quanto havia esperado por algo que, racionalmente, dizia a si mesmo nรฃo querer. o quanto vinha se deixando arrastar para um tipo de vulnerabilidade que ele nรฃo sabia administrar. e antes que pudesse medir as palavras, jรก estava digitando.
๐ฉ ๐น๐ ๐๐ ๐๐๐๐๐๐ ๐๐ ๐๐๐๐: quer que eu vรก aรญ?
nรฃo era insinuaรงรฃo, mas reflexo; tentativa silenciosa de estar presente, mesmo quando tudo dizia para nรฃo se envolver. nรฃo era o desejo de tรช-lo, mas o impulso de cuidar. e isso, para ele, era muito pior. ficou olhando o prรณprio reflexo na janela, o apartamento agora mergulhado em meia-luz.
era estranho que tivesse chamado eric tรฃo tarde. nรฃo era o tipo de coisa que fazia, em receio de permear os dois com mensagens erradas. mas havia algo naquela noite, uma inquietude que nรฃo se dissipava, mesmo apรณs horas de trabalho, mesmo depois dos relatรณrios e das reuniรตes que deveriam exaurir-lhe o raciocรญnio. a mente, entretanto, parecia ter encontrado outro foco, outro tipo de exaustรฃo que nรฃo se curava com o descanso. e assim, no trajeto atรฉ o apartamento, deixou-se entre pensamentos; a racionalizaรงรฃo que tentava construir para justificar aquele convite tardio, e a expectativa que o desmentia. o carro cortava o trรขnsito lento, e o reflexo nas janelas dos prรฉdios o fazia parecer duas pessoas. a versรฃo calculista, sรณbria, e a outra, que se permitia imaginar o francรชs jรก ร sua espera, com aquele jeito relaxado que sempre quebrava o ar controlado de suas noites. a ideia o fez sorrir, ainda que brevemente. no entanto, quando finalmente chegou ao edifรญcio, quase quarenta minutos depois do combinado, o relรณgio denunciava o atraso com crueldade. ele cumprimentou o porteiro com o aceno habitual, jรก ciente de que eric teria entrado. conhecia a senha da porta, o caminho, o apartamento. subir ao andar foi quase automรกtico; passos longos, uma mรฃo afrouxando a gravata, a outra ajustando a manga do paletรณ. o corpo cansado, mas a mente em combustรฃo lenta, antecipando a cena que, em sua imaginaรงรฃo, havia ganhado contornos perigosamente รญntimos.
mas o que encontrou foi completamente diferente.
o francรชs estava deitado em sua cama. nรฃo o esperava acordado, nem em provocaรงรฃo. dormia. mikkel parou na soleira, imรณvel, observando por alguns instantes. os olhos pesados, o rosto tranquilo, o corpo descoberto como se o sono tivesse vindo como acidente. havia algo em ver aquela presenรงa tรฃo simples que o desarmou de forma quase brutal. nรฃo sentiu frustraรงรฃo, mas algo mais profundo, uma satisfaรงรฃo calma, morna, que lhe tomou o peito de maneira desconfortรกvel. aquele quarto, sempre sรณbrio, de tons neutros e linhas rรญgidas, parecia diferente. como se a presenรงa adormecida ali o tornasse habitรกvel. sem querer interromper o descanso, ele afastou-se em silรชncio, retirando o casaco e a gravata. passou pelo banheiro, banho rรกpido, e quando voltou ao quarto, as luzes jรก estavam baixas. sentou-se na beira da cama, com cuidado, e olhou-o por alguns segundos, uma vontade estranha de memorizar. a respiraรงรฃo de eric era calma, o peito subia e descia num ritmo que parecia quase contagiar o prรณprio coraรงรฃo do alemรฃo. mikkel hesitou antes de deitar-se ao lado dele. nรฃo queria acordรก-lo, e ao mesmo tempo, nรฃo queria sair dali. e, quando finalmente se permitiu, deitou perto o bastante para sentir o calor que emanava do corpo do outro. ficou assim por um tempo, acordado, sentindo o peso da exaustรฃo comeรงar a dissolver-se em uma calma desconhecida. o som da respiraรงรฃo alheia parecia preencher o quarto de um modo diferente; o silรชncio de algo completo. e antes que percebesse, o corpo se rendeu. o sono veio sem luta, sem raciocรญnio, sem controle.
a manhรฃ seguinte infiltrava-se pelas frestas da cortina como um sussurro lento, tรญmido, espalhando pela penumbra o dourado brando de um sol que ainda nรฃo se decidira entre nascer ou apenas tocar. mikkel demorou a entender onde terminava o sonho e comeรงava o real. havia o peso leve de um corpo contra o seu, o cheiro reconhecรญvel de pele misturada ao tecido dos lenรงรณis, a respiraรงรฃo calma que roรงava em seu pescoรงo como lembranรงa viva da noite que nรฃo fora feita de palavras, mas de gestos. era incomum ter alguรฉm ali. nunca levava ninguรฉm para seu apartamento. e, ainda assim, naquele instante, o impossรญvel parecia natural. a maneira como o corpo de eric se ajustava ao seu, o encaixe perfeito de um hรกbito que nunca haviam ensaiado. o alemรฃo apenas respirou, demorando-se no toque inconsciente que ainda o envolvia pela cintura, o braรงo alheio que o prendia num cativeiro brando, de onde nรฃo queria escapar. a manhรฃ se estendia, preguiรงosa, e eles com ela. nรฃo havia pressa, nรฃo havia motivo. apenas aquele despertar compartilhado, em que a lucidez era uma dรกdiva adiada. e no breve intervalo entre abrir os olhos e lembrar o mundo, veio o beijo; tรญmido, ainda em meio riso abafado, como se o contato fosse mais uma brincadeira que um desejo. mas o riso morreu depressa.
o beijo seguinte jรก nรฃo pedia permissรฃo. era mais firme, mais cheio de um querer desesperado. e quando o francรชs respondeu, nรฃo havia mais linha que os separasse. o calor dos corpos dissolvia qualquer raciocรญnio; o tempo parecia recolher-se num ponto mudo. mรฃos procuravam, reconheciam, exploravam, com aquela curiosidade mansa. as roupas foram desaparecendo com o mesmo descuido com que os pensamentos se esvaรญam. um som qualquer de tecido caindo no chรฃo, um murmรบrio preso entre dentes, e o resto se perdeu em movimentos que nรฃo precisavam ser explicados. a cama tornou-se um territรณrio sem fronteiras, onde os lenรงรณis se torciam como marรฉ e o ar se tornava cada vez mais espesso. o toque era sรบplica e resposta, a respiraรงรฃo entrecortada era o รบnico idioma que fazia sentido. ali, entre o desespero e a ternura, havia algo que beirava o castigo e a absolviรงรฃo. mikkel se sentia como se estivesse despindo tambรฉm a prรณpria cautela. com eric, havia a entrega que nรฃo podia controlar, o mergulho no escuro onde ele deixava de existir como o homem meticuloso, e voltava a ser apenas um corpo, uma alma, uma vontade.
e o tempoโฆ o tempo perdeu forma. podia ter sido uma hora, ou uma eternidade. a manhรฃ se derramava, lenta, sobre eles, enquanto o sol insinuava suas linhas por entre o tecido das cortinas. quando enfim o silรชncio voltou, nรฃo era o mesmo de antes. havia outra coisa ali, uma serenidade estranha, quase culpada, mas doce. o corpo de mikkel ainda se movia em respiraรงรฃo compassada, o peito subindo e descendo sob o peso do cansaรงo bom, e o braรงo novamente, envolvia eric num gesto automรกtico, como se fosse o ponto final de algo que ainda nรฃo sabiam nomear. lรก fora, a cidade comeรงava o dia. ali dentro, o tempo ainda parava. e, por um instante que duraria mais do que o razoรกvel, o alemรฃo permitiu-se acreditar que era isso o que significava pertencer.
Mas Mikkel era uma exceรงรฃo. Eric via agora que ele sempre era; o que ficou por mais tempo, o que partiu sem explicaรงรฃo, o que permaneceu em seus pensamentos, o que voltou para seus lenรงรณis, o que ainda fazia seu coraรงรฃo bater forte no peito.