𝕋ℍ𝔼 𝕃𝔸𝕊𝕋 ℙ𝕀ℝ𝔸𝕋𝔼.
Novembro de 1720. Ilha de Nassau, Bahamas.
Nassau, uma ilha conhecida como o paraíso do crime, ali era praticado todo tipo de mal que você pode imaginar em pleno dia ao ar livre, afinal, se não fosse assim não chamaria tanta atenção dos piratas que se aglomeravam aos montes naquele local. Em mais um dia comum por ali, após um grande saque, uma tripulação estava comemorando o feito, afinal, não era comum ter saques tão produtivos, entre eles, um homem mais velho, parecia estar anos naquela vida de fora da lei, apesar de seu olho cego, voz grave e arrastada, era extremamente carismático, até mesmo para as outras tripulações que também se acabavam em rum naquele largado botequim. Suas histórias eram cheias de fantasia, e um tanto duvidosas, alguns ali presentes que prestavam atenção algumas vezes levantavam a voz para desmentir o misticismo daquele velho homem, foi então que ele começou a mencionar o rei do rio. — Foi uma das criaturas mais horrendas que eu tive o desprazer de conhecer, eu tava em um bote com meus companheiros de copo atravessando um pântano para poder comer algumas “frutinhas” daquela cidade, se é que vocês me entendem! — Nessa pausa cômica, todos começaram a rir com a comparação. — Então, senti uma presença estranha sondando aquele lugar, mas como sempre fui muito paranoico, ninguém me deu ouvidos. Enquanto a gente voltava pro navio, no meio da neblina eu vi, olhos cintilantes amarelos, e uma boca tão grande que era até mesmo capaz de engolir um galeão espanhol em duas mordidas, quando me deparei com aquela criatura, eu tinha certeza, era o que todos chamam de rei do rio, ele tentou se pronunciar mas em desespero, começamos a remar, e graças a deus ele fez descaso em nos perseguir... Mas foi uma experiência bizarra... — O clima no bar ficou um tanto tenso, naquela época, história assim se alastravam e conquistava a razão com muita facilidade, todos ficavam imaginando como era uma criatura tão diabólica, até então um homem próximo ao velho que tinha sido conquistado pelas histórias anteriores, soando frio levantou sua voz, gritando que tudo isso era uma grande mentira, que deus não permitiria uma existência tão nefasta. Com a agressividade em sua voz e as ideias divergindo entre os demais ali, começou uma discussão digna de piratas, quando estava ficando um clima mais violento, já quase partindo para a agressão, um barulho de um disparo de uma flintock se alastrou pelo local e calou a confusão, além de deixar os demais paralisados, quem havia disparado? Quando se viraram até a origem do som, no canto do bar, havia um homem incrivelmente magro sentando, cabelos loiros, exalando um odor de álcool, fumo e suor misturados, parecia estar largado ali a alguns dias. Enquanto armava novamente sua pistola, se dirigia ao primeiro que havia gritado que era mentira, ditando entre soluços e uma voz arrastada por conta de sua embriaguês. — Se for homem suficiente, repita o que falou, rato de convés... — O homem se sentindo ameaçado, se calou, e então o magrelo colocou sua arma de fogo novamente em sua cintura, e se sentou com os demais ali. — O rei do rio existe... E seu nome é Tahm Kench... — Todos se calaram, voltando atenção àquele homem, até mesmo o velho que não calava a boca por um minuto, desta vez a curiosidade engoliu suas palavras. — Em uma excursão com minha antiga tripulação, navegávamos em direção às Indias, queríamos saquear o máximo de navios cargueiros espanhóis que achássemos no caminho, porém, infelizmente acabamos sendo engolidos por uma tempestade e perdemos totalmente o curso de onde navegávamos... O navio teve danos medianos mas nada que fosse lhe fazer afundar, porém o pior aconteceu, depois da tempestade, não tinha nenhuma vento, e nossos homens totalmente exaustos por conta do trabalho para manter o barco a salvo na tempestade, não tinham vigor suficiente para remar, nosso estoque de água e comida era o suficiente nem para uma pequena família se alimentar direito, então o desespero bateu... Estávamos condenados a morte, até que o capitão, clamou por deus, pedindo sua ajuda, fazendo várias promessas que... Pessoalmente, eu sabia que ele não cumpriria, foi então que em meio àquele mar tão calmo e imóvel, repentinamente surgiu uma besta com a maior boca que eu já vi, e seus olhos, como o velhote falou, cintilavam em um amarelo que soava horripilante mesmo sendo uma cor tão convidativa. Depois de ter a atenção de todos ali, pasmem... A criatura falava, e então finalmente se pronunciou: “Prazer em conhecê-los, divergindo de sua divindade, eu atendi a sua súplica, e estou disposto a ajudar, de fato seria uma lástima uma tripulação tão viril vir a falecer por conta de um momento importuno...” Enquanto a besta falava, todos ficavam encantados com tamanha educação e linguajar rebuscado, sua voz, além de muito grave soava muito amigável, até mesmo eu fiquei cativado... Sua proposta era simples, ele poderia fazer a correnteza puxar o barco novamente, mas pra isso, todos teriam que apertar sua mão em um acordo, de começo achei estranho, mas não via maldade em um simples aperto de mão, assim como todos da tripulação, o fiz, e assim como o prometido, pegamos uma veloz rota para fora dali para reabastecer, e depois disso, tivemos mais ou menos uma semana de prosperidade, tendo os saques mais maravilhosos e abundantes de nossas vidas, tive dinheiro suficiente até mesmo pra comer a dona do bordel! — Todos ficavam impressionados com tamanha fortuna. — Porém, depois dessa semana... Fomos cercados por três galeões fortemente armados, nenhum navio sobreviveria a isso, e assim como o esperado, minha tripulação foi trucidada em poucos segundos, apenas eu sobrevivi, enquanto boiava junto dos destroços , segurava o choro e ficava me perguntando se aquilo poderia ser verdade, o que tínhamos feito de tão grave para sermos cercados com tamanha força bélica? Foi então que eu ouvi, uma risada alta e levemente contagiante aos longes, e da água do mar muito além dos destroços enxerguei um volume saindo de baixo da água, quando reparei melhor, me deparei com o seu olhar amarelo cintilante, era Tahm Kench, assistindo tudo de camarote, como se soubesse que aquilo ia acontecer, foi então que entendi, ele realmente era um demônio, e vendemos nossas almas e ele me deixou vivo apenas por um capricho, pois sabe que no final das contas minha alma será dele... Nos últimos dias, venho seriamente pensando em acabar com essa agonia, mas agora decidi que não vou dar esse gostinho a ele... Então já sabem... — Seu olhar cabisbaixo e um tanto evasivo repentinamente se voltou com certa revolta para os demais da mesa. — Se um dia tiverem os desprazer de conhecer o Rei do Rio em um momento de vida ou morte, se matem, ele vai te dar tudo, mas vai tirar da mesma forma que deu, em um piscar de olhos... — Com o terminar de sua fala, deu o último gole em sua caneca de rum, e bateu a caneca com força na mesa, saindo do bar cambaleando, enquanto os outros piratas, permaneciam calados e reflexivos, com um pequeno desespero interno só de imaginar que poderiam ser as próximas vítimas do demônio.
















