Ebo Taylor, o highlife e o afrobeat ganês
Se anteriormente tratamos acerca do papel que Fela Kuti cumpriu para a música nigeriana e para a gênese do afrobeat, tratearemos, hoje, de um de seus principais amigos e aliados musicais: Ebo Taylor. Este fora um músico de origem ganesa que se constituiu, ao longo dos anos, como um dos maiores artistas da República da Gana e de toda a costa oeste do continente africano. Isso, certamente, em detrimento de sua vastíssima carreira, que teve início nos idos de 1950 e se estende até os dias de hoje, sendo que, mesmo que com seus avançados 84 anos, Taylor continua produzindo músicas, álbuns e subindo nos palcos, sem falarmos na participação indireta que ele vem tendo com os samples de suas músicas clássicas no cenário nascente do rap e do hip hop africano.
Segundo nos conta o seu próprio testemunho, Ebo teve seus primeiros passos no mundo da música na década de 50, quando tinha apenas 19 anos e foi contratado como guitarrista no grupo musical Havana Dance Band que performava, sobretudo, em Accra. É certo que foi nesse contexto, em que Gana se tornava uma verdadeira pioneira no movimento independentista, contando com a substancial ação política de Kwame Nkrumah e de seu movimento pan-africanista, que o músico ganês se viu, pela primeira vez, totalmente imerso no gênero que predominava nos ouvidos de seus compatriotas desde os anos 1920: o Highlife. Esse fora um gênero que mesclava um conjunto de formas importadas da América, como o jazz, o foxtrote e o calypso, com aspectos típicos da musicalidade acã, em um ritmo que tomou o gosto de grande parte das elites de Gana e Nigéria – as duas regiões em que o highlife foi predominante.
Anos mais tarde, quando já estava estabelecido como um dos mais fundamentais músicos da cultura ganesa, Taylor viajou para Londres, a fim de aprimorar seus conhecimentos musicais e foi, precisamente ali, que sua carreira veio a ter um verdadeiro ponto de viragem. E isso, principalmente, graças às influências às quais esteve submetido nesse fértil terreno, sobretudo, por conta do contato que teve com Fela Kuti. Juntos, tomaram gosto pelos padrões sonoros do jazz, blues e funk e vieram a ser, ao regressar aos seus respectivos países, os responsáveis pela criação do afrobeat. No entanto, se hoje lembramos mais de Kuti como o fundador do gênero do que Taylor, é por que a industrial musical ganesa sofreu um progressivo declínio após a independência com relação à Grã-Bretanha, de onde vinham seus principais e mais fundamentais fomentos. Toda essa conjuntura, acrescida dos profundos problemas políticos acarretados pelo governo militar que tomava conta do país, agravou-se entre os anos 1970 e 1980 e acabou contribuindo em muito para a derrocada do highlife e das próprias produções do nosso músico ganês.
Nesse sentido, um oportuno caso que gostaríamos de chamar a atenção, aqui, e que contribuí para tal análise diz respeito ao seu disco My Love and Music. Em uma entrevista dada ao The Vinyl Factory, Taylor revelou que, surpreendentemente, não se recordava de ter efetivamente escrito as composições desse álbum estreado em 1975. Esse dado, se associado ao fato de que as vendas desse disco não ultrapassaram as quinhentas cópias, mostra-nos que, de fato, este fora um cenário de dificuldades paras os artistas ganeses e, em especial, para aqueles que vinham daquela tradição do highlife que, naquela altura, vinha caindo em descrédito e perdendo a euforia do público geral.
Apesar disso, é curioso notar que com a idade, Taylor ganhou um verdadeiro vigor musical, sendo que, após um longo hiato, ele veio a ressurgir como produtor musical, investindo muito nos artistas emergentes no hip-hop e no rap de Gana, bem como voltou a lançar suas músicas em 2008, numa escalada que só vem crescendo. Para finalizar nossas reflexões, então, assinalamos para o seu último lançamento, que é intitulado Palaver e que veio ao público nos idos finais de 2019, trazendo à tona faixas que celebram todo o seu estilo típico que marcou a história da música ganesa, em uma tentativa de repetir o sucesso de Yen Ara, que animou muito dos entusiastas da música africana como um todo e, de certo, é uma ótima forma de percebemos a evolução e a solidificação da carreira de um grande e notório artista.
1- https://open.spotify.com/album/2gdtgeYm3JCSFzgxuqN1u0?si=4Oa31ZdNRceac4Z1Jjw5QA
2- https://open.spotify.com/album/3jJF7GDeEm98CO8rhS1rSJ?si=A3Z1w0DJTO2SZettga7JFQ
3- https://books.google.com.br/books?id=P9ORpnGJh_IC&q=Highlife+music&pg=PA525&redir_esc=y#v=snippet&q=Highlife%20music&f=false
4- https://helda.helsinki.fi/bitstream/handle/10138/25804/006_06_collins.pdf?sequence=1
5- https://radiolaurbana.blogosfera.uol.com.br/2019/08/01/pode-festejar-vem-ai-um-disco-inedito-do-ganes-ebo-taylor-de-1980/
6- http://www.sopedradamusical.com/lenda-da-musica-de-gana-ebo-taylor-lanca-novo-album-aos-82-anos-yen-ara/
7- https://thevinylfactory.com/features/introduction-ghanaian-afrobeat-ebo-taylor/
8- https://www.huffpost.com/entry/love-and-death-the-new-al_b_764735
9- https://kofimusings.com/2012/09/19/tales-from-a-troski-his-name-is-ebo-taylor/
10- https://aventurasnahistoria.uol.com.br/noticias/reportagem/63-anos-da-independencia-de-gana-primeira-na-africa-subsaariana.phtml
11- https://www.theguardian.com/music/2015/jul/07/the-playlist-world-and-folk-music-caetano-veloso-moriarty-shirley-collins-ebo-taylor-and-more
12- https://youtu.be/cMiPIq0dfmo