Dúvida
Vou escrever seu nome com todas as letras, André. Você não é nada como antes, graças a Deus. Você nunca quis me mudar, você sempre abraçou tudo o que eu sou, mesmo quando eu fui confusão, quando eu me afastei por medo de me enrolar mais nessa história. Tua honestidade foi o que me fez andar no teu caminho pelo último ano. Ainda é novo pra mim esse lugar, mas eu agradeço por ser com você. A nossa dinâmica foi diferente de tudo. Sempre foi simples e visceral. E quem começou como um escape pro meu luto, se tornou pra mim a pessoa mais legal. Você é tanta bondade, meu bichinho, que eu não resisti. Quando eu vi, meu coração tava na tua mão. Eu cedi.
Se eu pudesse eu ficava mais tempo deitada do seu lado, ouvindo sua respiração e pensando em como é bom jogar minha perna por cima das suas ou até mesmo repousar minha cabeça no teu braço. Como é bom não ter que conversar e ficar ali, naquele silêncio confortável. Andar na rua com tua mão entrelaçada na minha. É como eu te disse, eu gosto até de fazer nada com você. Sua presença me alegra, me acalma e me desalinha. Você não dança, não toca, nem é expansivo. Você é quase minha face oposta e eu aprendi a gostar disso. Por isso me demoro aqui, insistente. No embalar da rotina, me acostumei com a gente. De um jeito que diante da tua ausência a casa ficou vazia. Faltou você atravessando a minha porta e alisando nossa gata como você fazia. Eu senti cada centímetro do meu corpo doer (tive até alergia). Eu chorei muito até perceber: tudo o que eu queria era estar com você. Mesmo você sendo essa coisinha arredia, o teu sorriso na semana me concedera forças pra enfrentar os dias.
Você sempre fez questão de ficar na minha vida, se preocupa com o meu bem estar e se revela pra mim nas sutilezas. Eu não vou esquecer do meu aniversário, meu dia de realeza. De você quase me beijando na frente da minha família e eu perdida com a situação por que não havia me preparado. Você sentado na mesa com os meus amigos, ficando até o final, mesmo se sentindo meio deslocado. Na hora da foto você se colocou do meu lado, mas meus amigos foram se acomodando e você foi pra trás. Mas eu senti você ali perto e, por Deus, parecia certo demais. Eu cheguei em casa flutuando. Na outra semana me despedi dizendo que eu merecia mais do que o que você podia me oferecer. Mas eu não fui bem sucedida em te esquecer…
Talvez daqui a um ano eu confesse que eu te amo, por que a paixão já vai ter passado (dizem que é esse o tempo máximo de duração). E eu sei que fazer planos com você é arriscado, mas é um risco que eu tô disposta a correr, meu coração. As coisas andam diferentes entre a gente e isso me atordoa. Funcionava bem como era, não é? Era coisa boa! O alarme despertando e você nunca ficando por mais do que o tempo da playlist que eu criei só pra ti. Com você esquentando sua marmita fit no meu microondas, conversando e me fazendo rir… Mas foram tantos encontros no último ano que eu perdi as contas e você o juízo. Você sempre foi preciso. E agora deslize. Você sempre me beijou com vontade, mas nunca demoradamente assim. Nunca desse jeito, como quem sentiu saudade de mim.
Será que eu tô perdendo a cabeça ou nosso sentimento anda se encontrando? Você sabe que eu tenho medo e eu sei que você não se sente pronto. Mas tudo o que eu queria de você era clareza, era que você colocasse as cartas na mesa se mudou de intenção… (E pra você lendo isso, não, não virou uma coisa ruim, não. Pelo contrário. O que me assusta é esse semiamor guardado entreaberto no armário, que eu posso ver, mas não sei se quer sair dali).
O alarme já foi ignorado. Você se estendeu no tempo com meu corpo colado. Minha cadela dorme no teu colo, você sabe que isso não é pouco. E você anda me amando de um jeito ainda mais louco. Você tá se mostrando mais pra mim, sem proteção. E eu me sinto vista, desejada e feliz com nossa relação. Mas o que você não diz me desespera, senhor. Eu não quero entrar em contradição. Muito menos contar com algo que não existe. Sabe... Eu não quero alimentar esperanças, então porque você insiste? Em ficar. E ficar comigo aqui… Homem, me explica o que eu perdi?! Que tuas mãos deslizam no meu rosto, que você me olha com gosto, que eu tô completamente assustada. Minha cabeça fica dizendo: não se engane, isso não é nada. Mas o meu coração teimoso diz que o seu tá abrindo espaço.
André, eu não quero te trazer cansaço. Eu não vou te perguntar o que tá acontecendo, eu vou seguir, vivendo… Essa coisa doida que só a gente entende e tem. Se quiser vir, por favor, vem. Mas vem transparente, cintilante e diz que eu também sou apaixonante e que mudou de ideia sobre o que quer… Ou volta pra como era antes, como o certo é. Por que a dúvida me consome as entranhas, me devora integralmente. Então ou volta atrás e para de me tratar como se eu fosse – finalmente – o suficiente. Eu me recuso a acreditar que você sabendo como eu me sinto, ia tomar as atitudes que anda tomando só pra me manter vindo. Você não é isso, meu bichim. Você sabe que tem tudo de mim. A sensação que eu tenho é que você tá se abrindo aos poucos, pra ver se é isso o que deseja. E que pede pra que eu deixe que o que for pra ser, seja. Mas e se não for, meu amor, esse momento o meu pedacinho de céu… Então vai ser triste e absolutamente cruel.
Eu torço pra essa relação funcionar, é a que por mais tempo eu cultivei. E tuas dores e medos, eu compreendo, eu sei. Eu também tenho e só quero ser cuidada, estar no lugar de receber. Eu só quero que a dúvida suma e sobre apenas eu e você. Se for pra confessar, faça logo isso. Eu nunca escondi que fui sua desde o início. Que não quero mais ninguém, que pra mim é só você, senhor... O meu amigo e o meu amor.














