Sindicato de Ladrões
Este seria mais voltado para os companheiros de trabalho daqui, mas como acho que eles certamente não vão querer saber disto, até para ficarem longe de encrencas, dirijo-me a você no Brasil e em outros lugares que queira ter uma ideia de como é a minha vida de operário de fábrica aqui no Japão, o ambiente, as dificuldades e principalmente as explorações e injustiças.
Um dia, se estiver vivo e com forças, irei detalhar tudo em um livro com base em meus diários (hábito de antropólogo que cultivo religiosamente). Por hora, e isso vale por uma prévia, sugiro que assistam ou revejam o clássico On the Waterfront (Sindicato de Ladrões), dirigido por Elia Kazan em 1954, que levou 8 das 12 estatuetas daquele ano, incluindo o de melhor filme, diretor, roteiro e ator (para Marlon Brando).
Embora o contexto seja completamente diferente (o sindicatos dos estivadores na zona portuária de Nova Iorque), bem como as características particulares dos personagens, que mesmo assim se conectam conosco em seus dramas e dilemas, está tudo lá, mais atual do que nunca: os maus-tratos e a implacabilidade da máfia que controla e explora os trabalhadores (polivalentes e “paus para toda a obra”), chantageados e roubados em seus direitos, etc. etc. (não posso falar mais aqui, portanto vejam o filme).
Lá é um sindicato de ladrões, e aqui uma fábrica e uma empreiteira que ousam não cumprir as leis trabalhistas e embolsar o dinheiro a que teríamos direito, ambas viciosas organizações entregues à máfia e à corrupção. A luta nas docas, e que deveria ser também a nossa luta, é para que os estivadores não recebam apenas ordens de trabalho - e não sejam controlados até no dia em que podem e não podem trabalhar - e a administração do sindicato não lucre com desvio de arrecadação, cobranças indevidas e assassinato dos que ousam questionar este modelo vigente.
Diante disso, a nossa luta deveria ser para conseguir “fazer a coisa certa”, mesmo quando as condições externas e internas não nos são favoráveis, pois “fazer a coisa certa” é o que se deve fazer quando se pensa em justiça e liberdade.
Chega de pensarmos apenas em nós mesmos. Por uma visão comunitária e solidária de uma unidade de trabalho a que todos possam ter acesso e que dela possam viver sem medo, receios e com dignidade.











