Dia vinte e dois de abril de dois mil e doze
Capitulo 3
Acordei com um frio na barriga. A PatrĂcia, tia da Suellen tinha nos convidado para ir a uma apresentação de teatro que ela faria na Zona Leste. Chamamos alguns amigos, inclusive o Rafael que estava me deixando ansiosa. Como no dia anterior tudo caminhou para ficarmos juntos e uma coisinha de nada impediu, no dia seguinte nĂŁo ia ser diferente. Eu tomei um dos banhos mais rápidos, porque eu ainda tinha que dar um trato no meu cabelo, no meu esmalte, nas minhas olheiras, comer, arrumar um pouco a casa, carregar meu celular, ver a roupa que eu ia me vestir, opinar na roupa da minha prima, colocar água pra cachorrinha, falar com a minha mĂŁe, pegar documento, bolsa, carteira, dinheiro e... Relaxar. É, relaxar. Consegui tudo, menos relaxar.
- Prima, o Rafa mandou mensagem dizendo que tá chegando no ponto aqui embaixo. Vamos descendo? – a Suellen me disse isso totalmente apressada.
- Espera prima, to procurando um perfume que eu possa usar aqui.
- Pra que, menina? Se você ficar espirrando na cara do Rafa ele não vai querer mais te beijar – brincou.
NĂŁo respondi, sĂł refleti e concordei. Peguei minhas coisas, me despedi dos meus pais e descemos a rua em passos grandes.
- É o Rafa e o Neno vindo ali? – perguntei com a voz tremula.
- É. – disse rindo - Tenta relaxa pri, o Rafa vai perceber sua tensão.
Quem disse que eu conseguia ficar calma? Eu soube disfarçar, mas teve uma hora que eu até suei. E o pior, eu não sabia o real motivo de tudo isso até que nos beijamos. Foi na estação da Sé, fazendo a baldeação sentido Corinthians – Itaquera, na terceira plataforma do lado esquerdo esperando o metrô chegar. Não parece ser muito romântico, eu sei. Mas foi. Eu estava gostando dele, eu o queria e eu estava ficando totalmente assustada com isso.
Depois do beijo, entramos no trem. Eu estava envergonhada, não fazia ideia de como tinha que ser o pós primeiro beijo. Se eu o beijava de novo, se eu fingia que nada aconteceu, se eu perguntava se estava tudo bem, se ele tinha gostado... ahhhhh! Não sabia, não sabia e não sabia. Eu queria ficar ao lado dele, mas também queria fugir. Eu já percebi que um dos meus maiores defeitos é ser transparente. Se eu estou apaixonada, eu sou apaixonada, se eu estou triste, eu sou triste, se eu estou feliz, eu sou feliz, se eu estou com medo, eu sou medrosa e por assim vai. Eu estava com medo. Medo de ser só aquilo, ou de me apaixonar mais ainda e continuar sendo só aquilo. Eu queria me auto defender e da forma errada.
Ele ficou praticamente atĂ© a estação Artur Alvim – que era a qual Ăamos descer - olhando pra janela do trem. Eu sabia o que o Rafael estava pensando, sĂł fantasiei pra pior. Achava que ele estava tendo um arrependimento imediato de ter ficado comigo, mas nĂŁo era e eu sabia disso.
Chegamos ao nosso primeiro teatro e eu não prestei atenção em metade da peça. Várias vezes eu me desencostava do banco tentando olhar pro lado pra ver pra onde ele olhava, o que estava fazendo e quais eram suas expressões. Coisa boba, eu sei, mas era inevitável.
Resumidamente, após isso, como ainda estava cedo, a Suellen deu a ideia de irmos ao supermercado, comprarmos pães, frios e refrigerante pra comermos em seu apartamento antes de ir embora. Um dos nossos amigos ficou carregado de fazer os lanches, outro de ficar no notebook, outro de ligar a televisão e eu e o Rafa de ficarmos nos beijando. Eu sei que eu estava na cozinha dizendo como eu queria meu pão, quando ele chegou me empurrando na parede pra me beijar. Depois no sofá. Em sequencia cama da Su - só no beijo, claro - embora ele tenha me deitado em cima dele.
No fim, ele percebeu uma grande quietude em mim nessa hora e no caminho de casa dentro do metrĂ´. Eu nĂŁo queria falar pra ele, eu já estava imaginando muito mais do que aquele dia, eu sĂł achava que nĂŁo iria ser recĂproco. Eu estava pensativa e apressada descendo a escada do metro ao encontro do meu pai quando de repente escuto:
- PRI! – Era a voz dele logo atrás de mim, me chamando pra mais uma despedida. – Espera rapidinho. – Não deu tempo nem de responder quando ele me deu mais um beijo. – Tchau – disse sorrindo e finalizando a despedida.
- Tchau...
Me virei e fui embora totalmente sem graça e com cara de boba alegre.
                     É, e eu me perdia e tentava fugir...Â
— CleanDream (sterlisboa)Â