A difícil tarefa de ser sempre exceptional
Há muito tempo eu passei a usar minhas habilidades para impressionar as pessoas ao meu redor e tentar afirmar o valor que eu possuo nas mais diversas relações sociais. Eu sou o professor que também desenha, o aluno que fez intercâmbio e tira as melhores notas, o amigo que conta todo tipo de história, o gay que já participou da militância e tem toda uma vida política, e assim sucessivamente. Estas facetas de personagem me custaram muito da minha saúde mental e um atrofiamento pautado em ego da minha visão, porque na prática foi o tipo que me prendeu em rótulos terríveis desde a infância.
Pois após a solterice existir e muita terapia, passei a me livrar destes rótulos e buscar ter uma vida mais espontânea, sem necessariamente ser um provedor nas relações, mas uma pessoa que tá vivendo também de acordo com os próprios interesses de uma forma saudável. Claro que eu também usava minhas habilidades e rótulos para conseguir o que queria, mas isso também me aprisionava, como eu disse. Depois passei a ser mais direto: digo o que quero, explicitamente, e se der certo, dá boa, mas se não dá, vida que segue.
O que não mudou tanto, foi a percepção de velhos amigos e conhecidos sobre quem eu sou. Eu preciso atender às expectativas se não, nossa! Eu já não sou mais o mesmo. Muito das relações vem do que permitimos que as pessoas façam conosco, do lugar que nós nos colocamos, e eu tenho lutado para sair do personagem de "amigo conselheiro", "amigo inteligente", "amigo ouvinte", "amigo que já viajou para fora e vai me dar dicas e presentes" e por aí vai. Reparei que as pessoas se irritam quando eu não dou o que querem, e pior, se rebelam e me cobram como se não tivesse o direito de mudar.
E as pessoas novas... puxa. Ainda tenho o vício de apresentar um caminhão de coisas quando conheço alguém. "OLHA TODO O CIRCO QUE EU SEI FAZER, EU VALHO A PENA, SEJA MEU AMIGO E VEJA COMO EU TENHO O POTE DE OURO NO FIM DO ARCO-ÍRIS". Qual é Brendo, você não precisa disso. Quando mais eu exponho menos eu tenho, e por vezes é jogar pérolas aos porcos. Eu também não sou especial, o que é um alívio, porque o fardo de ter que ser sempre o melhor, contar a melhor história, estar sempre acima da média, etc etc, é irracional e insuportável.
Vi no Roda Viva uma escritora preta, Grada Quilomba se não me engano, falando que quando nós tentamos sempre ser perfeitos, perdemos nosso conexão com nosso lado humano - ser humano é ter fraquezas, ser imperfeito, sofrer, perder, chorar. E para criar e reconectar, e curar nossas chagas emocionais, precisamos aceitar a falha, o erro, a tristeza e a negatividade como parte inexorável da nossa existência. Achei sábio e reflexivo. O movimento de não tentar impressionar, de deixar ir, de não correr atrás, é um exercício que se contrapõe a ideias de "garra", "lutar pelo que se quer" e tantos outros discursos que ouvi ao longo da vida. Mas espero que meus amigos ao menos, me cobrem menos e sejam mais generosos com o Brendo de verdade. Sou capaz de ser muito bacana sendo só eu mesmo, mas se isso não for suficiente, então acho que é melhor parar por aqui. Não serei mais um recurso, um capital humano, um degrau para arrivistas. Vou ser só eu, é pouco e é o que tem para hoje.