A Arquitetura do Meu Olhar
Eles se reúnem em pequenos comitês de sobrevivência. É um complô infantil, articulado por uma gente primitiva que ainda não aprendeu o alfabeto do espírito. Tentam, com suas compensações equívocas, criar um sistema de pesos e medidas para me calar. Mas como se mede o que não cabe na régua deles? Nenhum reles arranjo é capaz de conter a minha altivez visual. Eu olho para o mundo de frente, e o meu olhar é um território que eles não sabem como colonizar.
Eles fazem esse rebuliço todo, uma dança barulhenta e desajeitada, na tentativa desesperada de me enquadrar. Querem me colocar dentro de uma caixa com rótulos fáceis, porque o tamanho da minha liberdade lhes dá vertigem. Que pequenez. Que precária realidade a deles, que precisa diminuir o outro para conseguir respirar.
O que eles não entendem é que a minha jornada não se inicia agora. Eu não sou um rascunho que eles possam apagar. Eu já passei pela alfândega da dor; eu sei, com uma lucidez que às vezes me corta, o que eu quero e o que não quero. E, acima de tudo, eu sei o que sou e o que não sou. Essa certeza não é orgulho; é garras.
Isso não impede, porém, que eu me assuste.
O susto vem porque sou viva. Sou um ser humano, essa criatura desprotegida e vulnerável, e seres humanos naturalmente não lidam bem com o ódio. O ódio é uma matéria estranha ao nosso design original; nós não fomos criados para isso. O ódio nos exige uma contração que cansa a alma. Quando sou atingida por essa onda de rancor mesquinho, eu tremo. Há um tremor sagrado em continuar humana diante da barbárie.
Mas o medo neles é diferente do meu. O medo deles é o de serem descobertos em sua futilidade. O meu susto é apenas o preço de estar acordada.
Eles pensam que o susto vai me fazer recuar. Como são esquecidos. Eu olho em volta, reconheço o chão sob os meus pés e sorrio no escuro: eu já estive exatamente onde estou agora. Conheço cada curva desse abismo. Já estive aqui, com as mesmas pedras no caminho e o mesmo vento contra o rosto.
E, das outras vezes, nada me parou. Desta vez, também não.