O Espelho Desfeito
A angústia que ele me devolve não é a da simples recusa. Se fosse apenas o não, haveria o repouso do limite. Mas é pior: é a deturpação. Ele acusa a minha recusa, inventa uma intenção que nunca foi minha, veste-me com uma atmosfera que me asfixia porque não me pertence. É de uma desolação sem nome perceber que o olhar que ele me direciona não me colhe, não me compõe. É um olhar que me erra.
Mas quem sou eu para querer ser o canalizador de qualquer coisa? Eu sou o que sou. Uma matéria viva, tateando no escuro. Se o meu fogo interno — essa coisa incômoda que queima sem pedir licença — servisse ao menos para acender a vela dele, já teria sido o bastante. Teria justificado o cansaço. Mas o meu fogo não lhe basta. Falta-lhe a fome que eu tenho.
Então eu recolho o que é meu. Recolho esse ouro com uma dor que me corta as vísceras, mas com a lucidez fria de quem sabe que esta é a única coisa que resta a ser feita. Há uma dignidade feroz em retirar-se.
E a iridescência? Aquela luz faiscante, quase divina, que eu tinha certeza que ele portava... Deus meu, que revelação mansa e terrível. Descubro agora que a luz nunca esteve nele. A iridescência era minha. Fui eu quem o cobriu com o meu próprio brilho, pasteurizando a sua opacidade para que ele suportasse o peso do meu amor. Ele era apenas o vidro; eu era o sol.











