Tirinha 135

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Tirinha 135

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Capítulo 135

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Capítulo 135 - Sempre.
Quando me dei conta da escrotice que tinha acabado de fazer e ouvi os passos da Larissa esmagando folhas secas no chão, me levantei com pressa e corri na direção oposta. Ia ser muito difícil explicar pra ela o que eu tava fazendo ali sem parecer um maluco psicótico vouyer que fica assistindo a intimidade dos outros. Tava tudo muito escuro por causa da falta de luz atrás da casa, mas consegui correr até um portãozinho de metal enferrujado que não ficava muito longe. Por sorte, ele tava destrancado. Abri e corri por um corredor estreito, escuro e úmido, cuja escada terminava dentro da casa. Olhei pra trás, não vi ninguém e cheguei a conclusão de que tinha conseguido fugir da Larissa. Quando pisei no último degrau da escada e consegui enxergar a luz do alpendre, senti um cheiro doce de maconha. Não sabia se eu tava alucinando de vontade de fumar ou se era mesmo verdade. Só tive certeza quando vi um grupo de moleques do meu lado, na parte mal iluminada da escada, passando de mão em mão um cigarro com a ponta brilhante. Aquela porra reluzia mais que um diamante contra a luz. Nem pensei duas vezes:
Eu: Ei, posso dar um pega?
Os cinco caras da roda me olharam de uma só vez, não parecendo muito felizes com o pedido. Insisti.
Eu: Eu to passando por uma situação muito difícil.
A situação difícil, no caso, era meu melhor amigo miguelando maconha pra mim.
Moleque: Ih, óh o cara.
Eles não pareceram convencidos com o meu pedido de mendigo de metrô. Pelas roupas e a falta de pêlos no rosto, saquei que eles não tinham mais do que 16 anos, e meu raciocínio de bêbado achou que seria uma boa ideia me aproveitar do momento.
Eu: Me quebrem essa e eu pago vocês depois. Tenho da boa. Moleque2: E por que tu não tá fumando da tua boa então? Eu: É uma longa história. Mas deixo meu telefone, meu nome, até meu RG com vocês, e vocês podem me ligar amanhã mesmo pra cobrar.
Eles trocaram olhares confiados.
Eu: Arranjo mais que maconha até.
Mais olhares. Porra, o pior era que eu tava falando a verdade. O cheiro quase enjoativo da erva entrava no meu nariz e eu queria aspirar a fumaça que tava em volta de tanta vontade de fumar.
Moleque: Ah, beleza, vai. O cara só tá pedindo um pega.
O mais alto deles, que tava segurando o beck, deu de ombros e me passou a parada. Sem brincadeira, eu fumei como se fosse o último da minha vida. Até levei uma bronca por ter "casado", mas depois de alguns minutos e tragadas eu já tava amigos dos caras e falando sobre umas meninas da festa. O que o álcool não faz?
Agradeci pelo beck, deixei meu número de celular com eles (mesmo) e terminei de subir a escada em direção à casa. Já no alpendre, eu não sabia exatamente o que eu tava fazendo e tava meio zonzo, mas muito feliz pelo THC no sangue. Eu tava fugindo de quem mesmo? Do Fred? Sei lá. Ah. Acho que era da Larissa. Só não lembrava muito bem o motivo... E não sei dizer exatamente o que tinha acontecido, mas parecia que, de uma hora pra outra, todas as pessoas da festa tinham ficado extremamente bêbadas. Eu não lembrava de ter visto tanta gente louca antes de descer pra parte de trás da piscina.
Eu tava andando sem rumo pela casa quando percebi que estava sendo puxado por uma mão. Uma mão bem macia e menor que a minha. Com esmalte vermelho. Senti o perfume do cabelo da Bruna e reconheci. A Bruna me puxando? Pra onde?
Eu: Bruna?
Acho que só fiz essa pergunta muito tempo depois de ela ter me puxado. Depois, ela soltou minha mão, se virou pra mim e falou com a boca mais vermelha do que nunca, em meio a um sorriso:
Bruna: Tu disse pra eu te chamar quando quisesse me divertir.
Ela passou os braços em volta do meu pescoço e finalmente eu me dei conta do que tava rolando. Caralho, eu tinha falando zuando, mas vou acabar pegando a Bruna mesmo! Lembro de ter falado pro Fred que não pegaria ela nunca mais, mas as coisas mudam depois que tu bebe e é a guria que vem pra cima. Ela tava tão gata que eu seria muito idiota se recusasse. Mas quando segurei a cintura dela com firmeza, ela arregalou os olhos verdes, escancarou a boca e fez o sorriso sumir em meio segundo:
Bruna: AAAAAHHHHHHH! ME SOLTA, GAROTO! SEU MALUCO!!!
Num só gesto ela me empurrou pra longe com uma expressão de medo. Eu berrei alguma coisa de volta, mas nem lembro o que foi. E antes dela parar pra assistir o circo que tinha acabado de armar, ela se aproximou:
Bruna: Então, to me divertindo.
Ela sorriu, mas só eu pude ver. Todo o resto da festa só se ligava na expressão de pânico dela sendo atacada pelo ex namorado bêbado. Quando me toquei da porra que aquela retardada tava fazendo e vi a cara de ódio do Vinão na porta da casa, com os olhos em chamas, comecei a rir.
Eu: Tu... É foda. Hahaha. - apontei pra ela. - Foda.
Em choque pelo grito da Bruna, o Fred não demorou pra entender o que tava prestes a acontecer, largou a mina que ele tava pegando e me puxou pela manga do blazer com um certo desespero, antes que fosse tarde.
Fred: Hora de vazar!
Fui arrastado pra dentro da casa e pra longe do Vinão e do grupo de amigos dele. Nem da pra chamar aquilo de grupo de amigos. Tão mais pra uma gangue.
Fred: Cadê a porra do Jorginho?!
Ele saiu me puxando pela casa e olhando em cada canto atrás do nosso carona, enquanto eu ria de tudo aquilo. Eu tava dopado demais pra me importar.
Fred: Tu viu ele?? Eu: Ahn... Fred: HEIN, THOMMO? Eu: Não. Fred: Tu não tava procurando ele aquela hora? Eu: Acho que eu esqueci no meio.
O Fred se preocupava em andar abaixado no meio das pessoas pra ficar mais difícil pro Vinão nos encontrar. Eu fazia o mesmo mas nem sabia direito por quê. Quando ele decidiu abrir a porta do banheiro, que ficava do lado da caixa de som, encontramos o Jorginho: bêbado, todo vomitado e dormindo do lado da privada.
Fred: Olha, vou te falar uma parada muito séria. Agora fodeu.
Até eu que tava chapado ao quadrado tive um lapso de preocupação quando vi a situação do Jorginho. A gente não iria embora daquele lugar tão cedo.
Vinão: EI, SEU PORRA FOLGADO DO CARALHO!
O Vinão apontou pra mim assim que entrou na sala e me viu a poucos metros de distância, ainda em frente à porta do banheiro.
Fred: QUE FOI, Ô, GORDO ESCROTO?!
O Fred não consegue se segurar, por mais medo que ele tenha na hora. E de certa forma, aquela resposta dele me deu uma certa coragem. Coragem até demais. É, por que eu tenho que ficar fugindo desse gordo idiota? Eu sou foda, não preciso ter medo dele. Soltei a mão do Fred da manga da minha roupa e berrei de volta pro Vinão.
Eu: TÁ ME PROCURANDO, É? - apontei pra mim mesmo com as duas mãos. Fred: Que porra tu tá fazendo? - ele me perguntou baixo, parecendo mais branco do que nunca. Eu: Ele quer treta? Então beleza. Vamo tretar. - falei pro Fred.
Saí andando na direção do Vinão e o Fred veio atrás de mim.
Fred: É... É isso aí. - ele pareceu convencido com a minha autoconfiança. - Pode crer, Thommo. QUER TRETA, SEU CUZÃO? - berrou pro Vinão.
O Vinão nem respondia nada, só cerrava os punhos enquanto assistia os dois magricelas andando na direção dele. Precisaria de 2 Thomaz e 1 Fred pra chegar no tamanho dele. Continuamos andando até chegar no lado de fora da casa. Todo mundo assistia como se estivéssemos interpretando uma peça de teatro. Ou melhor, um filme de faroeste. O Vinão de um lado, eu do outro, e uma roda gigante de pessoas ao nosso redor, berrando coisas do tipo "quebra ele!", "moleque folgado!" e "eu aposto no magrelo!". A Bruna tava logo atrás dele com os braços cruzados e um sorriso de satisfação impagável.
Quando fiquei bem na frente do Vinão e a treta tava armada, o Fred apoiou as mãos nos meus ombros e me deu as coordenadas:
Fred: Ele é mais forte que tu. Mas tipo, bem mais forte. Só que tu pode ser mais rápido, porque ele é imenso, então o importante é dar o primeiro soco. Beleza??
Eu tava achando tudo aquilo muito engraçado, nem parecia real. Parecia que eu tava num filme, assistindo a minha própria vida do lado de fora. Talvez por isso eu não estivesse com um pingo de medo.
Fred: Tu ouviu o que eu falei, cacete?! Dá o primeiro soco! Desvia dele e dá o primeiro bem no nariz.
Concordei com a cabeça e o Fred se distanciou pra ficar junto com a plateia a nossa volta. Dar o primeiro soco, dar o primeiro soco, dar o primeiro soco. Encarei o Vinão na minha frente, parecendo um lutador de sumô misturado com MMA. Cheguei a imaginá-lo usando um shortinhos apertado e comecei a rir. Meu deboche só deixou ele ainda mais puto. Pude ver pela veia que quase explodiu na testa dele.
!: VAI, CARALHOOO!
A galera tava ansiosa pra ver sangue. Eu e o Vinão começamos a andar em círculos, vez ou outra ameaçando bater, mas ninguém fazia nada. Eu tava me sentindo o cara mais foda do mundo. Finalmente esse dia tinha chegado, o dia em que eu enfiaria a mão na cara do Vinão. Eu rosnava parecendo um cachorro de briga treinado, e ele forçava o maxilar como se a cabeça estivesse prestes a explodir.
E ele veio pra cima pra dar o primeiro soco. E eu desviei.
EU DESVIEI.
Eu: SPIDERRRRR MAN! HAHAHAH!
Eu fiquei tão eufórico com aquilo que comecei a rir como uma hiena. Foi tão deprimente aquela cena, aquele corpo gordo apontando um soco na minha direção e acertando o ar. Puta que pariu. Eu sou muito foda, coordenação motora foda do caralho, eu vou dar um salve tão salve nesse gordo que ele vai...
Ouvi um estouro dentro da minha cabeça. Escuro. Grama molhada. Alguém me arrastando pelo chão. Quando abri os olhos, vi o rosto do Fred tão próximo de mim que parecia que a gente ia se beijar. Os olhos dele pareciam saltar das órbitas.
Fred: CORRE!!!
Acho que ele não poderia ter sido mais claro. Ele me puxou pelo blazer, me colocou de pé como se eu fosse um boneco e me obrigou a correr como se o mundo fosse acabar. Eu fiz o que ele mandou, mesmo sem entender porra nenhuma.
Eu: Por que a gente tá correndo?! - berrei pra ele, que tava um pouco na minha frente, correndo igual louco. Fred: Porque eu chutei a cara do Vinão! CORRE, CARALHO!!!
Olhei pra trás e vi uma multidão de moleques ensandecidos correndo atrás de nós, querendo nos matar. Parecia o Walking Dead. Olhei pra frente de novo e me concentrei em correr o máximo que eu conseguia depois de tanto beber. Senti uma parte do meu rosto arder com o vento frio batendo.
!: NÃO DEIXA ELES IREM PRO PORTÃO!
O Fred tava claramente correndo até o portão de saída, mas mudou de direção quando ouviu a ordem de um dos caras de bloquear a passagem. Sem muitas opções, o Fred começou a correr pro estacionamento, e eu fui atrás. Quando chegamos perto do último carro do estacionamento, que terminava numa parede de grama, ele berrou:
Fred: Sobe no carro! Eu: Quê?? - eu tava tão ofegante que mal conseguia falar. Fred: SOBE NA PORRA DO CARRO, CARALHO!
Vendo que eu não ia fazer nada por causa do meu raciocínio lento e emaconhado, ele apoiou um pé no capô e saltou pra parte de cima do carro. Achei aquilo meio de retardado, mas fui atrás. Não consegui subir com a mesma agilidade que ele. Pelo contrário: meus pés molhados ficaram sambando no capô e sujando tudo de terra, enquanto eu me agarrava com força na porta. O Fred, já em pé, pulou num só impulso e agarrou um galho de árvore que tava próximo, depois se jogou em cima do barranco que demarcava o estacionamento como um macaco. Vendo que eu nunca conseguiria fazer aquilo sozinho, ele estendeu a mão e me puxou pro barraco também. Eu me debati e fiquei pendurado na parede de grama e terra, até conseguir força do além pra conseguir subir. Fizemos toda essa missão ouvindo os moleques xingarem todas as gerações da nossa família lá embaixo. Quando vimos que eles também tavam subindo no carro pra irem atrás de nós, voltamos a correr, mas não demos muitos passos. O Fred pisou em falso e, por ter se segurado em mim pra não cair, nós dois acabamos rolando morro a baixo. Sem exageros, pareceu que nós escorregamos por mais de 1 km. Engoli terra, mato, bicho, tudo, ralei as mãos e as costas inteiras. Só paramos de descer quando chegamos num ponto do terreno que formava uma espécie de "U", e ficamos sentados em meio a uma montanha de folhas secas. O Fred chegou a cuspir uma pedra.
Ficamos alguns segundos em silêncio, tentando pensar no que tinha acontecido. Olhei em volta e vi que estávamos no meio de um monte de árvores. Tava tudo tão escuro que nem dava pra enxergar direito. A única iluminação era a da lua.
Fred: Ca-ra... Eu: Lho.
Tirei uma das mãos de baixo do amontoado de folhas e vi que a palma tava cheia de riscos marrons de terra. Olhei pro Fred, e vi que a cara dele não tava muito diferente da minha mão. Senti meu rosto pulsar de tanta de dor, bem do lado do meu olho direito.
Eu: Minha cara tá doendo. Fred: Sério? Deixa eu ver.
Me inclinei, ele se aproximou com cuidado, e me deu um tapa ardido na cara.
Eu: AAHHHHH, CARALHO! - segurei meu próprio rosto com as mãos. Fred: SEU BURRO!!! RETARDADO! Eu: QUE FOI, PORRA?!?! Fred: ONDE TU TAVA COM A CABEÇA PRA TRETAR COM O VINÃO?! TU TEM PROBLEMA? Eu: MANO! TU TAVA JUNTO! - eu apontei pro nada. Fred: EU TO BÊBADO, SEU IMBECIL! Eu: PODE CRER! EU TO SÓBRIO PRA CARALHO! FILHO DA PUTA!
Meu rosto tava ardendo tanto com o tapa do Fred que eu fui pra cima dele pra revidar. Cheguei a acertar um soco ou outro, ou não, nem sei dizer. Só paramos de nos bater quando ouvimos a voz do Matt bem longe.
Matt: THOM? FRED?
O Fred largou meu pescoço e olhou pro Matt, que tava bem no topo do barranco.
Fred: Matt? MATT! A GENTE TÁ AQUI EMBAIXO! Matt: ONDE? Fred: AQUI EMBAIXO! CUIDADO PRA NÃO CAIR!
Acho que antes de ele terminar a frase, o Matt já tava rolando morro a baixo.
---------- PRÓXIMO POST A PARTIR DAQUI --------
Ele foi caindo em câmera lenta enquanto assistíamos àquela cena ridícula, e só parou quando chegou no pedaço menos inclinado do terreno, onde estávamos eu e o Fred sentados em meio a milhares de folhas secas. E ao invés de recebermos nosso amigo com empatia e solidariedade, já que estávamos todos igualmente fodidos, o Fred olhou pra ele com a pior cara de bosta da face de Terra, e eu só enfiei minha cabeça entre os joelhos. Se o Matt que é sempre nossa última esperança tava ali com a cara toda suja de barro, sem um pé do tênis e com a calça rasgada, era sinal de que a gente tava ferrado mesmo.
Depois de alguns segundos em silêncio, os três olhando pro nada e refletindo sobre a nossa situação, o Fred abriu a boca.
Fred: O que aconteceu com o teu tênis?
A voz dele saiu suave e calma como a de uma professora da pré escola. Nem parecia que a gente tava no meio de um mato sem saída. O Matt olhou para o pé sem sapato, só com uma meia suja, e também respondeu com calma:
Matt: Alguém que tava correndo atrás de mim puxou meu pé enquanto eu tentava escalar o barranco.
Ficamos quietos de novo. Não dava pra acreditar naquilo. Eu tava com tanta raiva de ser eu mesmo que nem conseguia raciocinar direito. Como a gente consegue chegar a esse ponto? Há meio minuto atrás eu tava numa festa bebendo de graça, pegando uma mina, e tinha acabado de dar um esculacho na Bruna. Agora eu to... Aqui. O Fred foi o primeiro a falar de novo depois de mais alguns minutos de silêncio. A gente não tinha coragem nem de levantar do lugar.
Fred: Alguém tem alguma ideia? Eu: Eu tenho.
Silêncio novamente. O Matt teve um espasmo de susto quando uma cigarra começou a cantar.
Eu: Vamos nos matar. - falei com calma. Fred: É, TU DEVERIA MESMO! - e o Fred respondeu com o contrário do que chamamos de calma. - ME FAZ ESSE FAVOR ANTES QUE EU TE MATE! Eu: Não começa, Fred...
Não quis dar corda para a treta dele. De que iria adiantar? A gente não ficaria menos fodido se eu começasse a xingar a mãe dele. É melhor eu me acalmar pra tentar pensar num jeito de a gente sair daqui.
Fred: SEU ANIMAL! TU PASSA 23 HORAS DO TEU DIA ME CHAMANDO DE SEM NOÇÃO E FAZ O BAGULHO MAIS SEM NOÇÃO DO ANO! Eu: FOI TU QUE ME INCENTIVOU, SEU BOSTA HIPÓCRITA DO CARALHO!
Beleza, minha calma não dura muito.
Fred: TU PENSOU O QUÊ? QUE IA DESMAIAR AQUELE GORDO NA PORRADA, CARALHO? TÁ CHAPANDO? Eu: TU QUE FALOU PRA EU SOCAR ELE PRIMEIRO, VELHO! Fred: E DESDE QUANDO TU ME OUVE? PUTA MERDA!
O Fred foi uma criança tão mimada que não consegue assumir nem quando tem 50% da culpa numa parada. Eu sei, eu fui muito burro, nunca na vida eu ganharia do Vinão numa treta de braço, e eu deveria ter noção disso. Mas o Fred também não ajudou muito.
Eu: VAI TOMAR NO SEU CU, SEU ARROMBADO! Fred: MANO, EU QUE TE SALVEI DAQUELA TRETA, Ô, SEU INGRATO DE MERDA! Eu: AH É? ENTÃO ME SALVA DESSA AGORA! LIGA PRO TEU PAI BUSCAR A GENTE DE HELICÓPTERO. SEU PLAYBOY MIMADO DO CARALHO!
Eu sou assim. Quando to tretando com alguém, lanço uns papos que nem tem nada a ver com a assunto com a única intenção de ofender. E eu to ligado que o Fred fica mais puto quando chamam ele de rico do que quando xingam alguém da família dele. Aquilo foi o suficiente pra ele fechar o punho e me acertar um soco no queixo. Eu tava tão bêbado que nem senti direito, e ele também não tava em perfeitas condições pra conseguir me bater com força. Tanto que ele nem desviou quando eu também acertei um soco na cara dele. Ele se levantou de uma vez e ficou em posição de ataque, com os joelhos flexionados e os punhos cerrados.
Fred: Tu quer treta então? TU VAI TER TRETA!
Também me levantei com uma rapidez que eu não sei de onde tirei. Cambaleei um pouco pra esquerda antes de me posicionar na frente dele, mas no fim consegui ficar em pé. O Fred correu na minha direção tipo um touro numa tourada, e eu tentei segurar os ombros dele pra me defender, mas por fim nós dois caímos no chão. Eu acertei uns chutes nele, consegui me levantar, e a gente ficou se batendo, um mais descoordenado e chapado que o outro. O Matt desistiu antes mesmo de tentar fazer alguma coisa pra apartar a briga, deitou as costas no chão e ficou olhando pro céu estrelado.
Quando eu e o Fred já estávamos sem ar de tretar, ele me deu um soco tão forte no nariz que eu caí pra trás. Quando viu meu estado, ele parou e se sentou no chão, ofegante. E ficamos os três ali: eu deitado gemendo e segurando meu nariz, o Fred sentado recuperando o fôlego e o Matt deitado brisando. Tive certeza de que meu nariz tava sangrando quando senti um gosto de sangue escorrendo na boca. Na real, nem tive vontade de xingar o Fred depois daquilo. A gente tava se batendo mais pela raiva da situação do que raiva um do outro, e nós dois sabíamos disso.
Depois de mais algum tempo em silêncio, dessa vez pra gente recuperar o ar e ver se o mundo parava de girar um pouco, eu dei a ideia:
Eu: Fred, liga pra alguém buscar a gente. - minha voz saiu abafada por causa das minhas mão tapando o nariz machucado e a boca. Fred: Meu celular tá em algum buraco desse matagal. Ele saiu voando quando eu caí. Eu: Tu não sabe o celular de ninguém de cabeça? Fred: Sei.
Ainda bem. Talvez ele soubesse do Tomate, do Felipe, ou de algum outro cara com carro que pudesse nos ajudar. Sei lá, o Fred conhece o mundo inteiro, com certeza deve saber de alguém.
Fred: Da tua mãe. Eu: Porra, filho da put... Fred: HAHAHAH!
O Fred na mesma hora que me dá um soco no nariz de tanta raiva começa a fazer piadinha de situações críticas. Resolvi me sentar pra clarear as ideias.
Tirei o celular do meu bolso já sabendo que não poderia ligar pra ninguém. Eu tinha ganhado aquele aparelho do Z Club e só tinha o número do Gunz e de alguns clientes na agenda. Ninguém que pudesse nos buscar num mato no meio do nada. Notei que a tela do celular tinha rachado e meu dedo tava sujo de sangue.
Eu: Matt? Matt: Hm? - ele respondeu ainda deitado e olhando pro céu. Eu: Tem alguém pra quem tu possa ligar? Matt: Ninguém que tenha carro. Fred: Porra, a Raíssa tem carro! Liga pra ela. Matt: Eu acho melhor não. Fred: Como não, velho? É só a gente subir essa ladeira e ir pra estrada de terra, ela pode pegar a gente no... Matt: Eu vou terminar com ela amanhã. Fred: Foda-se, mano. Aproveita essa carona enquanto pode então. Eu: Calma aí. - espalmei a mão na direção do Fred, gentilmente pedindo pra ele calar a boca. - Tu vai terminar? Matt: Na verdade não vou terminar, porque a gente não tá namorando. Mas vou parar de sair com ela.
Porra, finalmente uma notícia boa nesse dia de merda.
Eu: Ouviu essa, Fred? - abri um sorriso sem pensar. Fred: Eu só quero saber como a gente vai sair daqui. Eu: A erva já queimou todos os teus neurônios ou o quê? Foi pra isso que a gente veio pra cá!
Bêbados não tem filtro. Falei do Matt como se ele não estivesse lá.
Matt: É. Vocês são muito sem noção. Fred: Mas espera, tu pegou a mina? Matt: Que mina?
O Matt se faz de maluco pra fugir do assunto quando fica com vergonha de falar alguma coisa. Mas nem sempre funciona.
Fred: Porra, como assim "QUE MINA"? Matt: Ah... Tipo, peguei. Meio que peguei. Fred: PEGOU ou NÃO PEGOU? Matt: Depende. De quem tu tá falando? Fred: NINGUÉM "MEIO QUE" PEGA NINGUÉM.
A voz do Fred ecoava na floresta como se estivéssemos num filme de terror de segunda linha.
Eu: Pegou sim. Matt: Não, tipo, a gente... Não quer dizer nada. Eu: Eu vi. Tipo, vi mais ou menos. Fred: Vocês tão cheios de fazer as coisas pela metade. Matt: Como assim tu viu? Eu: Eu vi vocês falando da Mirella, depois... Fred: TU PEGOU A MIRELLA? Matt: QUEM? Fred: CARALHO, MATT! Eu: Não, ele falou da Mirella! Fred: Ah.
Caralho, bêbado é foda. Toda essa confusão pra chegar numa única pergunta que importava:
Eu: Matt, tu pegou a Larissa ou não? Matt: Peguei. Foda-se. - ele respondeu nossa curiosidade excessiva com impaciência. Fred: PEGOU MEMO? - ele abriu um sorrisão. Matt: Não, Fred. Não desse jeito. Fred: Porra, bela bosta. Matt: Tu queria o quê?! Que eu comesse a mina no meio do mato? Fred: Claro. Matt: Tsc. Eu: Velho, o que importa é que tu vai terminar com aquela mina chata. Ela é chata pra caralho, Matt. Preciso aproveitar pra te falar isso agora que eu to bêbado. Matt: Tu me falaria isso sóbrio também. Eu: É. Pode crer. Matt: Mas porra, tudo isso pra me fazer terminar com ela? Não era mais fácil vocês me falarem pra fazer isso?
Eu e o Fred olhamos em volta, analisando nossa situação e tudo que nos levou até ali.
Fred: É. Se pá. Eu: Não, cara. Tu nunca ia ouvir a gente. Ia falar que era implicância nossa com ela. Matt: Não deixa de ser. Mas eu não vou terminar com ela só por causa disso, nem pra voltar com a Larissa. Isso não vai acontecer, a gente só se pegou, não quer dizer nada. Eu e a Raíssa que não estamos dando muito certo mesmo. Eu: Ainda bem que tu percebeu isso sozinho. Matt: Percebi isso conversando com a Larissa hoje, tá ligado? Lembrei do quanto a gente era de boa no namoro, nunca brigava, por isso deu tão certo. Mas com a Raíssa agora tá rolando treta direto. Eu não gosto de brigar, vocês sabem, e ela é o contrário. Tudo é motivo pra ficar brava. Fred: Pode crer. Com tanta mina nova pra tu conhecer naquela faculdade, tu não pode usar teu pau com uma só. Isso é desperdício de pau.
Acho que o Fred nem ouviu nada do que o Matt disse.
Fred: Ele não vai funcionar bem a vida inteira. Tem que usar pra caralho enquanto pode. Eu: E aí, alguém já tem ideia de como a gente vai embora daqui? Fred: Tu tem que usar teu caralho pra caralho. Hahaha. Tá ligado? Eu: Hein, Matt? Matt: To pensando pra quem eu posso ligar. Fred: Pra Raíssa. Matt: Mano, o que eu acabei de falar? Não vou ser cuzão de fazer a mina me buscar numa festa de madrugada pra terminar com ela no dia seguinte. Fred: Isso não é ser cuzão. É só tu fingir que não sabe que vai terminar com ela amanhã. Matt: ISSO é ser cuzão. Fred: Ser cuzão é deixar teus amigos se fodendo nesse frio do caralho no meio do nada. Matt: Nem adianta discutir isso agora, meu celular tá sem sinal aqui. A gente tem que ir pra um lugar mais próximo da civilização.
Caralho. O jeito era subir aquela ladeira até a estrada de terra e ir andando na direção oposta em que a gente veio, rezando pra não encontrar nenhum daqueles malucos amigos do Vinão no caminho. Muito menos o Vinão. Uma hora o celular do Matt vai pegar o sinal pra ligarmos pra alguém.
Próximo capítulo: 20/04!