#DBS #dbs #cap130 pero que demonios pasó todo iba bien y de la nada, nomss y después si estaban vivos freezer y número 17 Noma Noma #penultimocapitulo ohh por dios.
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Capítulo 130
Capítulo 130 - Maçã.
HUHUUUU começa hoje a semana com a qual todos os fanzups já sonharam, com posts da PQOGSPN TODOS OS DIAS! Resolvi fazer esse especial pra agradecer os mais de mil livros vendidos. Espero que vocês curtam! Lembrando que de hoje até sábado os livros da PQOGSPN estão com 20% de desconto no Clube de Autores :D AGORA CHEGA DE FALAR E VAMOS AO POST 1 DE 7:
A Layla ficou me olhando de um jeito estranho depois que parei de falar e voltei a fumar meu cigarro. Estranho não... Diferente. Parecia que ela tava me admirando, ou coisa parecida. Ou eu é que tava bêbado demais. Se fosse pra escolher, ficaria com a segunda opção. Se já não sou admirável normalmente, imagina naquela hora. De qualquer forma, eu tava muito brisado pra me importar. Ela poderia ficar me olhando a noite toda se quisesse. E de repente, num surto de ideias fruto dos comprimidos do Sick Boy, minha boca começou a se mexer sozinha. Pelo menos foi assim que eu senti.
Eu: Eu sei porque tu não fica com o Dudu. Layla: Porra... Esse assunto de novo?
Ela pareceu realmente incomodada. Até ameaçou sair dali, mas acabou desistindo. Acho que ela queria ouvir o restante, mesmo que doesse. Ela sabia que ia doer.
Eu: Porque tu é podre.
Não é todo dia que alguém te chama de "podre", e não é o tipo de adjetivo que tu ouve sem se importar. Mas foi como se ela concordasse comigo. Ela só ficou parada, me olhando falar. Não fez cara feia, não retrucou, nada. Praticamente me pediu pra continuar com aquela expressão interessada.
Eu: Tu é podre por dentro.
Ela mordeu a boca pra evitar que qualquer palavra saísse de lá.
Eu: Tá ligado uma maçã podre? Tu não percebe que ela tá estragada até ver por dentro. Por fora ela ainda tá vermelha, brilhando, não cheira ruim. Nas do supermercado usam até uns remédios pra elas parecerem melhores do que realmente são.
A Layla continuou me encarando, mas agora com um olhar desafiador. Ainda assim, ela não teve coragem de me interromper.
Eu: Quem vê de fora pensa que ele não é o bastante pra ti. Mas na real, é tu que não é boa o suficiente pra ele. E tu sabe disso.
Os olhos dela passavam pelos meus, depois pelo meu nariz e paravam na minha boca. Depois voltavam a fitar meus olhos.
Eu: E tu sabe o que acontece quando uma fruta podre fica perto de uma boa. Ela apodrece junto. É por isso que tu prefere ficar longe.
Ela até se esqueceu da cerveja que tava bebendo. Nem encostou na garrafa enquanto me ouvia falar.
Eu: E pensando por esse lado, tu é uma boa pessoa. Pelo menos tuas intenções são boas. Ou pelo menos é assim que eu prefiro pensar. Porque é por esse mesmo motivo que eu não largo tudo e vou pro sul atrás da Alícia. E foi por esse mesmo motivo que o Matt não tentou de novo com a Larissa. E o Fred... Ele combina mais com as vagabundas que tá acostumado a pegar do que com a Vicky. Tenho certeza de que o estômago dele revira só de sentir o perfume dela.
Dei o último trago no pouco que sobrou do cigarro.
Eu: Tá ligado? Medo de dar certo. Porque depois pode dar tudo errado.
Apaguei a bituca na beirada da janela, no espaço entre mim e a Layla. Ela ficou tão desnorteada com o que eu falei que pareceu ter levado um tapa na cara. E olha que nem foi a intenção. Eu só comecei a falar o que eu achava.
Eu: Tu não é a única. Eu sinto até os bichos me comendo por dentro às vezes. Layla: Não precisa amenizar. Eu concordo com tudo que tu disse.
Ela sacudiu a cabeça me pedindo pra parar de falar.
Layla: E pra fruta podre não foder com nenhuma outra, é melhor deixá-la sozinha. Eu: Ou com outras iguais a ela.
A Layla voltou a me encarar, dessa vez um tanto ansiosa com a conversa. Ela olhou com calma cada um dos meus olhos, depois se aproximou devagar e me beijou. Acho que em todas as vezes em que a gente se pegou, eu tava muito bêbado e eufórico, por isso sempre rolaram uns amassos desesperados e atrapalhados. Naquela hora a gente se beijou com vontade, mas com calma. Como se um quisesse confortar o outro. Só no final ela cravou as unhas nas minhas costas sem camiseta e pressionou o rosto dela contra o meu, jogando minha cabeça pra trás.
Layla: Ou jogá-la no lixo.
Fiquei olhando enquanto ela ia embora. E ela foi mesmo. Saiu desviando das pessoas na cozinha e virou à esquerda no corredor, que dava pra porta de saída da república. Fiquei um tempo parado encarando o batente, como se estivesse esperando alguém específico entrar. Só não sabia quem.
Raíssa: E essa mensagem tu não respondeu POR QUÊ?
Ouvi a voz estridente da Raíssa urrando perto de mim. Na real, ela nem tava tão perto assim, mas falava tão alto que parecia estar do meu lado. Ela e o Matt tavam quase na lavanderia, do lado do galão cheio de gelo e cerveja. Eu não conseguia ouvir muito bem o que ele dizia em resposta, mas as perguntas dela eu ouvia claramente.
Raíssa: Porque tu tava ocupado respondendo ESSAZINHA! Eu sei que tava!
O Matt respondia com calma e coçava a cabeça, como ele sempre faz quando fica nervoso ou sem graça. Mais sem graça do que nervoso. É muito difícil deixá-lo nervoso de verdade.
Raíssa: Sabe, eu to cansada! Só eu que faço as coisas, só eu que te ligo, eu que te chamo pra sair, se eu não pressionar tu nem me leva nos lugares! Aposto que eu não conheceria teus amigos se eu não tivesse me apresentado!
Eita. Eu não sou de prestar atenção na conversa dos outros, mas quando me dei conta do que tava rolando, comecei a fitar o papo dos dois. Eles tavam mesmo tendo uma espécie de DR no meio de uma festa de faculdade?
Raíssa: NÃO É VERDADE, MATHEUS! Sabe, não sei com que tipo de guria tu tá acostumado, mas eu não sou assim. Eu NÃO aturo certas coisas. Não aturo palhaçada. Isso é PALHAÇADA, Matheus! Ela tira da minha cara na tua frente e tu nem liga!
Até pensei em me meter porque, não importava qual fosse o motivo, ela com certeza tava errada. E não é só porque ele é meu amigo. O Matt não faz palhaçada com ninguém, ninguém mesmo, nem com uma mosca. Mesmo quando ele faz merda ele não faz merda, porque nunca é com a intenção. Tipo, eu to ligado que às vezes eu fodo com as coisas com a clara intenção de FODER com as coisas. Ele não é assim. De qualquer jeito, não quis me meter porque sabia que, mesmo aquela treta sendo injusta, ele merecia ouvir umas merdas da Raíssa. Pelo menos pra perceber o quanto ela era chata. Não gosto de pensar isso, mas é necessário: te fode aí, Matt. Só um pouco.
Raíssa: ... E na próxima vez em que eu ver mensagem dessa Vicky no teu celular, a porra vai ficar séria.
Porra, sério? O Matt ouvia tudo aquilo sem tretar de volta. É, acabou pra eles. Se eu bem conheço o Matt, ele não vai brigar com ela e nem mandar ninguém tomar no cu. Mas no fim da conversa, ele vai dizer que acha melhor cada um seguir seu caminho, e vai ser isso. Foi bom enquanto durou a maratona de sexo. Tchau, Raíssa. Mas ah, logo ele arranja outra. Não deve ser difícil com a melhor pegada do universo. Eu que nem sou tão foda assim peguei três gurias hoje. Não comi ninguém, mas peguei. Caralho, eu sou um lixo.
Meus olhos já tavam fechando sozinhos quando reparei que o céu tava começando a clarear, e a república já não tava mais tão lotada quanto antes. Se pá a melhor coisa que eu faço agora é dormir. Quando começa a tocar reggae e os casais começam a tretar na frente de todo mundo, tá oficialmente instaurado o final da festa. O Matt tá tretando, o Fred deve estar comendo alguém, os moleques devem ter ido embora, não me resta muita opção além da minha cama. Eu tava morrendo de sono. Peguei mais duas long necks de Heineken na geladeira pra dormir bem tranquilo e parti pro meu quarto. No caminho até lá, nem olhei em volta, parecia um zumbi caminhando de volta pro cemitério. Me deitei na cama tipo uma árvore que tinha acabado de ser cortada.
Sonhei com pessoas falando sem parar na minha cabeça. Parecia que eu tava num manicômio ou alguma porra assim, com um monte de internados malucos me batendo e berrando. Nem dava pra chamar aquilo de sonho, foi tipo um pesadelo. Acordei na hora em que os médicos me colocaram dentro de um forno e ligaram a temperatura no máximo. Um forno? Abri os olhos.
Fred: AÍ OTÁRIO!
Vi um chão de cimento na minha frente e senti minhas costelas fritarem e doerem ao mesmo tempo. Onde CARALHOS eu tô?!
Fred: EU TE AVISEI!
Caralho, eu to no chão! Na rua! Na porra do CHÃO DA RUA! E já tá um puta sol do inferno. Esfreguei os olhos pra ter certeza de que aquilo tava acontecendo e olhei pra cima, na direção da voz do Fred. Consegui vê-lo na janela do primeiro andar do prédio.
Fred: SEM MINA, SEM CASA!
Mano, não é possível. Eu fiquei tão em choque que demorei pra raciocinar e xingar de volta. O retardado do Fred tinha me falado que eu tava proibido de dormir em casa se ele não me visse com guria nenhuma. E eu obviamente tinha dormido sem mina nenhuma. Fiquei olhando em volta e vendo as pessoas passando do meu lado na rua, e eu sentado na calçada em frente ao portão do prédio.
Eu: SEU MALUCO FILHO DA PUTA!
Me levantei de uma vez e comecei a chacoalhar o portão.
Eu: ABRE AQUI, PORRA! - berrei pro porteiro.
Quando eu entrasse, eu ia socar tanto o Fred que ele ia parar no hospital. Aquele pai lorde inglês dele ia ter que desembolsar metade da fortuna pra comprar um novo rosto pra ele.
Porteiro: Posso abrir não, moço. Eu: Como assim não pode abrir?! Eu moro aqui!
O porteiro só respondeu com um sinal de negativo com a cabeça.
Fred: MORA NÃO, CARA! MORA NÃO! Eu: MANO, PORRA! MORO SIM! Não ouve ele, na moral! - falei com o porteiro apontando pro Fred. Porteiro: O morador não me autorizou abrir. Não posso abrir. Eu: CARALHO, EU SOU O MORADOR!!! Fred: TU TÁ BÊBADO, CARA! VAI PRA CASA! HAHAHAHAHA!
O Fred só faltou morrer de tanto rir. Por fim, ele mostrou o dedo do meio pra mim e fechou a janela. Mano. Filho. De. Uma. Puta. Sentei na sarjeta ofegante e até achei bom o porteiro não abrir pra mim, porque se eu pegasse o Fred naquela hora, eu matava ele. Tipo, de verdade, eu ia na cozinha pegar uma faca e matar ele. Eu ia matar mesmo. Fechei os olhos pra me acalmar e fiquei quieto. Senão eu ia matar mesmo.
Ouvi o barulho do portão se abrindo atrás de mim. Olhei pra trás e vi que era o Gab saindo do prédio com um sorriso no rosto.
Gab: E aí. Hahaha. Eu: Eu vou matar ele. Gab: Hahahaha!
Ele se sentou do meu lado na sarjeta.
Gab: Vim te dar um apoio moral. Eu: Nem vou entrar contigo agora, senão vai rolar um homicídio lá dentro.
Ele ficou rindo a sacudindo a cabeça.
Gab: Vocês são malucos. Eu: Como ele me trouxe aqui pra fora? Gab: Te carregando. Normal. Eu: Só ele? Gab: Sim. Eu: Mano, que doente. Ele teve um puta trabalho do caralho pra me tirar da cama, me arrastar até aqui pela escada, só pra rir da minha cara depois. Como pode? Tem que internar essa porra. Gab: Hahahaha. Foi muito engraçado.
Fiquei quieto pensando, depois comecei a rir.
Eu: Mano, é muito filho da puta. Hahahaha. Gab: Hahahahahahaha!
Eu ainda não tava conseguindo acreditar, mas pelo menos tava vendo alguma graça. E minha risada foi cortada assim que vi um carro bem conhecido parando em frente ao prédio. Pela cara branca do Gabriel, ele também reconheceu. O motorista, meu pai, baixou o vidro, e a Lídia saiu do carro pelo lado do passageiro. Ela passou pela frente do carro, abriu a porta de trás e falou firme:
Lídia: Gabriel. Já pro carro. Gab: Como assim já pr...? Lídia: JÁ pro carro.
O "já" dela saiu tão alto que a gente até tremeu de susto. Eu e o Gab nos levantamos.
Lídia: Agora. Gab: Eu não vou pra lugar nenhum. Não fiz nada de errado. Lídia: A-GO-RA. Eu: Calma, cara. Tá tudo bem. Ele dormiu em casa e... Lídia: Agora não, Thomaz.
Ela nem me olhou pra dizer aquilo.
Lídia: Gabriel, eu liguei pro Heth, pro Fabrício, pra TODOS os teus amigos, pra polícia... E tu passou a noite INTEIRA sem atender o celular. Eu: Mano, relaxa, ele tá vivo! Olha aí! Pai: THOMAZ!!!
Senti meu sangue borbulhando e passando pelas minhas veias. Quem porra tava falando com ele?
----------- CONTINUAÇÃO DO POST A PARTIR DAQUI -------------
Lídia: Gabriel, por favor.
Meu pai não tirava os olhos de mim, e eu não tirava os olhos dele. Parecia que a gente tava num duelo armado no Velho Oeste.
Lídia: Entra no carro. Em casa a gente conversa.
O Gabriel me olhou de canto, parecendo meio envergonhado. Mas na boa, ele não precisava ter vergonha de mim. Ele fez merda, a mãe descobriu e agora ela quer que ele volte pra casa. Acontece. A Lídia tava tratando ele com respeito, inclusive. Diferente do meu pai que já chegou berrando meu nome e praticamente me mandando calar a boca. Por fim, o Gab suspirou e estendeu a mão pra me dar um high five de despedida. O cumprimentei de volta.
Pai: Se despede mesmo porque vocês não vão se ver TÃO cedo.
O Gab tava entrando no carro quando meu pai soltou aquela frase, e recuou.
Gab: O Thom não teve nada a ver com isso. - ele avisou com os olhos arregalados. - Ele nem sabia que eu ia dormir, não sabia de nada, ele só... Pai: Ele só deixou um menor de idade passar a noite TODA numa festa cheia de marginais. Gab: Marginais? Haha... - ele soltou uma risada nervosa. Lídia: Mauro, por favor...
Não vou falar nada. Não vou falar nada. Não vou falar nada.
Gab: Ele não teve nada a ver com isso. Eu vim com as minhas próprias pernas e eu fiquei sem atender meu próprio celular. Lídia: Entra no carro, Gabriel. Eu: Relaxa, Gab. Pode ir. Pai: "PODE IR"?! TU FALA COMO SE NÃO FOSSE NADA.
O Gab me olhou e eu assenti com a cabeça pra dizer que ele podia ir. Meu pai era um imbecil, mas a mãe dele não parecia ser igual, e ele realmente tinha feito merda de sair escondido. O melhor que ele fazia pra evitar mais problemas era entrar naquele carro e ir embora. E eu ia me segurar pra não mandar meu pai pro inferno e não estragar as coisas também.
Pai: ENTRA, GABRIEL!
O Gab entrou no carro e fechou a porta. Enquanto a Lídia caminhava em direção à porta do passageiro, meu pai apontou pra mim e desembestou a falar.
Pai: TU é um IRRESPONSÁVEL! SEMPRE FOI! Mas o mínimo que deveria fazer era tomar conta de alguém mais novo que tu!
Não movi nem um músculo ouvindo-o falar.
Pai: Ele tem QUATORZE anos, pelo amor de Deus! Tu é um SEM NOÇÃO! Gab: Eu já disse que o Thomaz não... - ele falou do banco de trás. Pai: GABRIEL, DEPOIS.
Ele ficava mais e mais vermelho a cada frase.
Pai: Tu é um perdido na vida, e eu não vou deixar o Gabriel seguir o mesmo caminho. Tu tá me ouvindo? TÁ ME OUVINDO?
Continuei parado. Só mexia as pálpebras pra piscar.
Pai: Eu sabia que uma hora tu ia dar um jeito de fazer merda. Então antes tarde do que nunca: fica LONGE do Gabriel. - ele voltou a me apontar.
Eu ia ficar quieto, mas aquilo me deixou tão puto que a raiva foi mais forte do que eu.
Gabriel: HAN? Eu: Beleza. Pai: Não quero que ele venha aqui, não quero que tu vá na casa dele, nem que vocês se encontrem por aí. Eu: Fez um filho errado e vai tentar consertar o outro.
Ele arregalou tanto os olhos que eu cheguei a me lembrar do Fred. Por aquela ele não esperava.
Pai: Do que tu tá falando?
Cruzei os braços e fiquei olhando pra ele, esperando uma resposta que não saía. Até a Lídia ficou branca com o que eu disse.
Pai: Fica LONGE dele.
Àquela altura ele já tinha se tocado que eu sabia de toda a treta. E pior, que eu nem fiquei sabendo por ele. O Gab surtou no banco de trás do carro com aquela ideia de proibir a gente de se encontrar, mas não consegui ouvir muito bem o que ele disse, porque meu pai saiu com o carro a mil por hora. Será que sou eu a má influência pro Gabriel? Será que sou eu que ele tem que evitar?
Até o carro virar a esquina, continuei com a mesma pose de quem paga de foda. Mas assim que o carro sumiu do meu campo de visão, soltei todo o ar dos meus pulmões e senti meu estômago doer. Que filho da puta. Não tem nem a decência de sentar pra conversar comigo sobre a maior merda que ele fez na vida - depois de mim. Não que eu me considere uma merda, mas ele com certeza considera. Se ele tava precisando de uma desculpa pra me escarrar de vez da vida dele e recomeçar a família perfeita com a Lídia e o Gabriel, conseguiu. Tudo doía só de pensar que eu tava proibido de encontrar a única pessoa que eu considerava família no mundo. Mas proibições escrotas nunca me impediram de fazer nada.
Depois de passar alguns segundos respirando fundo pra evitar que a dor do fundo dos meus olhos escorresse pelo meu rosto, eu levantei a cabeça pra encarar o dia que tava começando. Já deviam ser 6h da manhã. E logo que eu ergui a cabeça, vi o carro do Z Club estacionado do outro lado da rua, servindo de apoio pro Gunz, que tava me olhando. Porra. Há quanto tempo ele tava lá?
Olhei pros dois lados antes de atravessar. A rua tava tava vazia. Caminhei na direção dele, que me cumprimentou com a cabeça.
Gunz: Tem coisas que nunca mudam.
Dei de ombros. Ele com certeza tava falando do meu pai e da cena toda.
Gunz: Teu irmão? Eu: Tu tem um cigarro?
Ele ficou alguns segundos me olhando antes de colocar a mão no bolso e tirar um maço de cigarros de lá. Me estendeu. Eu acendi em silêncio.
Vicky: Thom?
Meu coração tremeu quando ouvi a voz da Vicky do outro lado da rua. Olhei pra trás. Ela tava saindo do prédio da república, fechando o portão e se protegendo com um casaco preto. Eu devia estar muito bêbado ainda pra não sentir aquele frio todo.
Vicky: Tudo bem?
Ela perguntou, me olhando com uma cara estranha. Fiz que "sim" com a cabeça. Não preciso me preocupar com o Gunz, ela nem sabe quem ele é.
Vicky: Quer entrar? - ela apontou pro portão. Eu: Relaxa.
Ela continuou olhando pra mim e pro Gunz por um tempo antes de ir embora. Parecia estar estranhando a situação. Depois, saiu andando.
Gunz: É da faculdade?
O encarei com impaciência e não respondi. Ele percebeu e soltou uma risada baixa.
Gunz: Entra no carro.
Apaguei o cigarro pisando-o no chão, e nós entramos no carro. Ele no banco do motorista e eu, no banco de trás. Aquele banco de couro parecia o céu pras minhas costas doloridas de quem dormiu na rua. Me ajeitei da forma mais relaxada possível.
Eu: Que horas são? Gunz: Dá tempo de tu dormir antes da aula. Eu: Demorou. Gunz: Venderam muito? Eu: O Felipe eu não sei. Eu não vendi. Gunz: Nada? - ele me olhou pelo retrovisor. Eu: Não. Gunz: Mas essa festa aconteceu justamente pra aumentarem as vendas. Foi isso me que me passaram. Eu: A ideia não foi minha.
Ele se ajeitou no banco, parecendo incomodado com o que eu disse.
Eu: Todos os meus amigos tavam aí. Não era o público pra vender. Gunz: Jovens universitários com dinheiro e numa festa? Com certeza não era o público... Eu: Cara, não sei o que te falaram, mas até onde eu sei, eu sou o cara que vende, e tu é o cara que dirige.
Ele mordeu a boca, ficou pensando, depois deu risada da minha insolência.
Gunz: Tu não quer problemas comigo, Thomaz. Eu: Não. E eu vou dar meu jeito de vender mais nos próximos dias, relaxa. Mas nessa festa eu não ia vender. Gunz: Então tá. Vamo esperar teu plano B. Eu: Não é plano B. E pra tu saber, tem um moleque esperando que eu leve Crystal pra ele amanhã. Eu ia dar hoje, mas acabei me perdendo dele.
Não sei por que falei aquilo, eu não devia explicações pro Gunz, mas achei que me sentiria superior se falasse.
Gunz: Dar? Eu: Ele me fez uns favores. Vai ser tipo amostra grátis. Gunz: Opa. Já tá fazendo marketing. Eu: É, tu tá ligado que uma vez nunca é suficiente com Crystal. Gunz: Boa. Quem é o cara? Eu: Era da minha sala de finanças. O namorado dele parece interessado também. Gunz: Dois novos clientes então? Tu tá melhor do que eu esperava. Vamo ver se o investimento vai valer a pena. Eu: Vai valer.
Ele riu de novo e começou a mexer no celular. E eu aproveitei o silêncio pra dormir um pouco antes da aula. Eu tava sem camisa e não sabia como ia pra faculdade daquele jeito, mas quando a Vicky perguntou se eu não queria entrar, achei melhor não arriscar. Era perigoso eu matar o Fred dormindo e ir pra cadeia. Aí sim eu não veria o Gabriel nunca mais. Acordei com uma mensagem do Matt no meu celular: "Onde tu tá?"
-------- CONTINUAÇÃO DO POST A PARTIR DAQUI ------
Caralho, que horas são? Devo estar atrasado pra caralho.
Eu: Porra, me fodi. Que horas são?
Gunz: 10h30.
Eu: CARALHO! Perdi a aula inteira!
Gunz: Que aula? Tu tem aula de sábado?
Respirei aliviado com a pergunta do Gunz. Puta merda, toralando tanto nessa porra que nem lembrava que a faculdade também tinha seus dias de folga.
Eu: Nossa, to ficando maluco... - cocei minha cabeça.
O Gunz sacudiu a cabeça e aumentou o volume do rádio, que tava tocando uma música desconhecida. É muito ruim acordar num lugar estranho, tu fica se perguntando o que aconteceu de verdade e o que foi sonho nas últimas horas. E o pior era que a cena do meu pai e as palavras dele me proibindo de ver o Gabriel tinham sido reais. Era tão absurdo que parecia mentira.
Gunz: Tem alguma coisa pra fazer agora de manhã?
Eu: Tirando a aula que eu pensei que fosse hoje, não.
Gunz: Então tu pode aproveitar esse tempo pra me contar por que não me chamou pra festinha.
O Gunz brincou que certas coisas não mudavam quando me viu tretando com meu pai. Outra coisa que não mudava era a capacidade dele de tirar a fala das pessoas só com uma frase, e ainda fazer isso na maior naturalidade. Era como se estivesse dizendo algo qualquer, e não te dando um fight.
Eu: Ah... Eu...
Ele virou o corpo todo pra trás pra me olhar e arqueou as sobrancelhas, me esperando responder. Eu poderia dizer que não tinha visto a mensagem, ou que tinha esquecido, mas ele não é burro.
Eu: Cara, eu não to pronto pra isso ainda.
Ele bufou.
Gunz: Thomaz, Thomaz...
Eu: Tu sabe como as coisas terminaram, foi uma puta de uma bad. Não consigo nem imaginar a cara que os moleques vão fazer quando te virem.
Gunz: Se a gente tem um acordo, a gente tem um acordo, Thomaz.
Eu: Dá pra tu parar de me chamar de "Thomaz"?
Falei sem pensar. Talvez eu ainda estivesse meio bêbado e, consequentemente, sem filtro. O Gunz parou de falar e ficou me olhando. Senti que pairou uma tensão no ar, mesmo que por segundos. Depois ele abriu um sorriso amarelo numa tentativa de disfarçar a vontade dele de me matar.
Gunz: Quem sabe se eu tivesse ido tu não teria zerado nas vendas.
Eu: Mais um motivo pra eu não ter te chamado. Eu não quero Crystal perto dos meus amigos. Isso é sério.
Gunz: Tu já disse.
Eu: Eu sei o que acontece com quem curte essa porra. Não quero isso pra eles.
Ele respirou fundo, depois soltou o ar dos pulmões devagar, pensando no que eu disse. Como eu queria saber o que se passava na cabeça dele...
Gunz: Pra tu ver como eu respeito a nossa amizade: eu sabia onde tu morava e sabia que a festa ia ser lá. Poderia ter entrado se quisesse. Mas não entrei, porque tu não me respondeu dizendo que eu podia ir.
Amizade? Eu não sou teu amigo, cara. Pensei em falar isso, mas continuei em silêncio esperando ele falar.
Gunz: Mas eu te respeito. E eu preciso que aconteça o mesmo do teu lado.
Eu: To ligado. Mas tu precisa ter paciência também.
Gunz: Sabe qual o problema de ter paciência? Ninguém te diz até quando a tua precisa durar.
Eu sempre fico meio burro nos dias de ressaca, então não consegui entender o que ele disse até a explicação vir depois.
Gunz: Se tu me dissesse que eu precisaria ter paciência até amanhã, que seria quando tu diria pra todo mundo que voltamos a ser amigos, beleza. Mas quem me garante? Aí amanhã tu arrega de novo e me pede mais paciência. Depois mais, e mais... E paciência não é um bem físico que tu guarda num pote e pode mostrar depois tipo "olha só, só tem mais 3 gramas de paciência aqui". Tu vai ter a eternidade pra me enrolar. E eu não gosto disso.
Eu: Essa filosofia toda foi só pra dizer que tu não é um cara paciente?
Gunz: Tipo isso.
Silêncio de novo no carro. No mesmo minuto em que ele se mostra meu brother, ele solta uma intimada dessas. Nunca sei o que esperar desse cara, e é isso que me preocupa.
Gunz: E não sei o que te faz pensar que tu tá em vantagem. Eu só to esperando o teu tempo pra fazer as coisas porque eu quero. Mas quando eu não quiser mais, é só eu bater na tua porta e falar "e aí, Matt".
Eu: Tu não f...
Gunz: Só não faço isso porque, como eu te falei, eu te respeito. Mas tu me conhece, Thomaz. Não precisamos de joguinhos aqui.
Pela primeira vez desde que nos reencontramos ele tava parecendo sincero de verdade comigo.
Gunz: Quando não for mais vantajoso te respeitar, pode crer que eu esqueço disso num minuto.
Pode crer que sim.
Gunz: Então quando eu te mandar uma mensagem, tu me responde. Nem se for pra me dizer pra não ir.
Disse isso e ficou uns segundos me encarando pra ter certeza de que eu tava prestando atenção. Depois, virou-se pra frente.
Gunz: Isso pode parecer bobagem, mas é com pequenas coisas que a gente constrói a confiança.
E ele sabe bem do que tá falando. Conquistou a confiança de todos nós um tempo atrás, um por um. A ponto de a gente se meter em muita merda por causa dele.
Gunz: Ou reconstrói.
Que bom que ele sabe. Eu não confio nele depois de tudo o que aconteceu. Só to nessa porque não quero ter problemas com ele. Pelo contrário, acho que o Gunz pode ser muito útil quando ele tá do teu lado. O cara é inteligente, frio e calculista. Já que não consigo ser assim, é bom ter alguém desse tipo no meu time. Ou eu jogo o jogo dele ou finjo que to jogando. Ir contra não seria nada esperto da minha parte agora que ele já deu um jeito de entrar na minha vida de novo. Ainda mais nesse contexto, puta merda... Logo no Z Club. Preciso focar no quanto posso vender trabalhando com ele, senão fico maluco.
Gunz: Então fica tranquilo. Não vou correr atrás do Fred na rua pra dizer que eu voltei e que tu já tá sabendo disso. Vou esperar que tu faça isso. Mas não vou esperar muito.
Eu: Relaxa, não vai demorar. É que ontem realmente não era o dia.
Gunz: E também não vai ser hoje. Eu tô de folga. Preciso devolver o carro.
Eu: De folga? Eu pretendia levar umas paradas pra uns clientes hoje.
Gunz: Ou tu faz isso sozinho hoje, ou espera até amanhã.
Eu: É, acho que vou ter que esperar.
Minha ideia era encontrar o Iago e a Natacha hoje, mas os dois são ricos pra caralho e com certeza vão querer bastante coisa. Não posso sair na rua carregando uma caralhada de Crystal na mochila como se não fosse nada.
Eu: Hoje é tua folga então? O que tu vai fazer?
Gunz: Acho que não é da tua conta.
Uou. Certas coisas não mudam mesmo.
Eu: É, acho que não.
Gunz: Acho que nós dois precisamos de um descanso antes de enfrentar a porrada que vem aí.
E que porrada. Consigo sentir o soco na boca que vou levar de metade dos meus amigos quando eles me virem com o Gunz por aí. Como vou explicar? Caralho...
Gunz: Bom sábado.
Assenti com a cabeça e abri a porta do carro pra sair.
Eu: Bom sábado.
Bati a porta atrás de mim e atravessei a rua até a república. Ele saiu com o carro e dobrou a esquina em segundos.
Quando cheguei no portão do prédio, o porteiro destravou a fechadura sem nem perguntar meu nome. Obviamente o maluco que não tinha me deixado entrar de manhã já tinha trocado de turno. O Fred deve ter dado uns 100 reais pra ele fazer aquilo comigo. Filho da mãe.
Subi as escadas até o apartamento pensando em todas as doideiras que tinham acontecido comigo nas últimas 12 horas. Parecia que haviam se passado meses. Eu queria dormir até segunda-feira pra evitar mais merdas. Acho que dormir é o único jeito de me manter longe de problemas. Mas se eu ficasse na cama até segunda, perderia meus únicos dois dias sem faculdade da semana. Que dilema.
Quando entrei em casa, primeiro reparei na zona do caralho da cozinha. Achei melhor nem entrar lá. Fui até a sala, que também tava bagunçada pra cacete, cheia de lixo no chão, e dei de cara com o Fred sentado no chão, próximo ao sofá, queimando um pedaço de papel com o isqueiro. Achei melhor nem falar com ele pra não matá-lo. O mais seguro era passar reto até o meu quarto.
Fred: Teu quarto tá ocupado.
Parei no corredor.
Eu: Como assim?
Fred: O Dudu tá lá com a Layla.
A Layla? Porra, quando eu falo que a mina é podre, eu não to brincando. Eu sou um bêbado, mas um bêbado com razão.
Eu: E o teu quarto?
Fred: Tá ocupado também.
Eu: O Matt tá lá com a Larissa?
Fred: Não. Tem uma mina.
Parei um pouco pra pensar antes de falar pra ver se eu não tinha entendido coisa errada.
Eu: Uma mina?
Fred: É.
Eu: E por que tu não tá lá?
Fred: Porque eu cansei já, queria que ela vazasse.
Esse é o Fred. Quanto menos tu entender, mais Fred.
Fred: Acordei, dei umazinha, pronto, pode ir pra casa. Aí ela se ajeitou pra dormir de conchinha. Tipo, porra...
Pelo jeito como ele tava falando, dava pra perceber que ele ainda tava meio bêbado. Nós dois estávamos.
Fred: Tá ligado quando tu só quer que a mina vire uma pizza de manhã?
E como. Ele sempre fala isso.
Fred: Queria que ela virasse uma vassoura robô e saísse limpando essa zona do caralho.
Eu: Tem um beck aí?
Fred: Tá ligado a empregada dos Jetsons? - ele ficou parado pensando. - Nem tenho.
Eu: Cadê o Matt?
Acabei de lembrar que ele mandou mensagem e eu esqueci de responder. Putz.
Fred: Aqui ele não dormiu.
Eu: Eu vi ele tretando meio feio com a mina dele ontem.
Fred: É, foda-se. Mano, sabe quem eu acho que dormiu aqui? - ele falou mais baixo. - Aquela guria irmã do Brunão da Atlética.
Se liga na minha cara de quem sabe nome de integrante da Atlética. Nem respondi.
Fred: Tá ligado? - ele gesticou mostrando dois peitos gigantes imaginários na frente dele.
Eu: Ahn...
Fred: No quarto do Felipe. Filho da puta. Não se contenta com uma gostosa, arruma logo duas. Ao mesmo tempo. Essa porra de TV não tá com nada, Thommo. O negócio é ser da Atlética.
E aí eu me lembro porque ainda não matei o Fred, apesar de todas as merdas que ele já fez comigo. Eu to fodido até o último fio de cabelo, passo por um perrengue atrás do outro, do meu pai até o Gunz, e quando volto pra casa ele tá aí viajando sobre gurias que viram pizza, vassouras robô e a ideia de que ser da Atlética é mais vantajoso do que da TV por motivos de pegar mulher.
Fred: Caralho, tu dormiu na rua, né?
Fiz que "sim" com a cabeça.
Fred: HAHAHAHA! QUE OTÁRIO!
Eu: Quem vai limpar essa bagunça pós festa?
Fred: Eu vou pra minha casa. Tá a fim?
Dei de ombros.
Eu: Fazer o que lá?
Fred: Fugir de limpar essa porra toda. O Felipe que tá comendo duas que fique com alguma coisa ruim pra fazer hoje. É justo.
Felipe: Isso aconteceria se o mundo fosse um lugar justo, mas ele não é.
Ih, caralho. O cara apareceu do nada.
Fred: Porra, Felipe...
Felipe: Hahahaha!
Ele passou pela sala e foi até a cozinha rindo e bebendo uma garrafa d'água no bico sem camisa e com calças de pijama.
Felipe: Vamos fazer uma aposta. Quem perder, limpa a casa. - ele falou lá da cozinha.
Eu: Acho melhor nã...
Fred: DEMOROU!
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