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Viegas tinha um clima tão leve, tão sereno, tão ensolarado, tão Matthew. O berço praieiro do meu amor tinha aquela coisa de querer te fazer mudar, largar a vidinha mal vivida e morar pacatamente em uma daquelas casas com cerquinhas ao invés de muros. Mas esse era só um pensamento remoto, porque sei que não conseguiria ficar pra sempre naquele marasmo. Talvez quando estivesse bem adulta e com fome de sossego. Ou nem assim.
Agora, crescidos, íamos à praia. Matthew planejava pegar umas ondas e eu planejava ficar bem quietinha, na areia, só observando através do ray ban as manobras que eu nem sabia, mas me encheriam de orgulho mesmo assim. Ouvíamos a playlist dele no som do carro e nada no mundo parecia mais prazeroso que a nossa harmonia cantando "I'm Yours" e gargalhando do nosso embaraço com a letra da música.
"My breath fogged up the past..."
Tudo errado. Foda-se. Eu amava aquela música e amava aquele ser de outro mundo tão feliz ao meu lado. O sol batia bem no rosto dele, obrigando-o a franzir a testa e me olhar radiante. Literalmente.
— A luz desse sol te deixa mais lindo. Seu lindo. — Eu confessei derretida, arrancando um sorriso reticente dele.
Não gostava quando ele sorria assim, como se pensasse no que jamais diria. Matthew era criterioso demais, e isso era uma merda. Além do mais, não sei se estou exagerando, mas eu via aqueles traços eu pensava: Puta merda. É ELE.
Mas aquele olhar, soltando chispas de mel, oferecia um silencio estratégico. Ele sorriu novamente depois de um tempo. Então pegou minha mão e deu um beijinho.
— Eu tenho sorte. — Matthew garantiu assim, do nada.
Eu apenas sorri, movimentando a cabeça em um "sim" convencido. Mas meu namorado lembrou-se de uma antiga promessa. E quase acaba com a minha pose de boa menina.
— Se anima a aprender hoje?
— Thews... — Esmoreci no banco do carro, fazendo uma cara trágica de preguiça.
— Eu ensino direitinho... — Matthew insistiu, mesmo sabendo que eu não era de nada.
— Na próxima vez. — Determinei precipitada, só pra adiar o grande dia. — Eu juro que na próxima vez eu tento.
— Aham... — Ele desacreditou, estacionando do outro lado da orla.
Atravessamos a pista que separava o estacionamento da praia, ele precocemente descalço sob o asfalto pegando fogo. Acho que Matthew era imune ao sol, foi muito tempo morando na praia... Não tem outra explicação. Já eu era um peixe fora d'água, com óculos escuros, chapéu floppy e iPod em mãos, só esperando os momentos solitários que viriam. Nem ligava. Tava entusiasmada segurando a mão dele e escolhendo o melhor lugar pra ficar.
— Quem vê assim, pensa que é uma menina da capital. — Ele brincou observando o modo desajeitado como eu me locomovia na areia.
— Mas eu sou uma menina da capital. — Certifiquei com orgulho e falso desdém.
— Não, você é a minha menina.
— Sim, meu amor, a sua menina — pausei um instante, pra acrescentar — da capital.
— As garotas de Hedaboo não entram no mar? — Matthew ignorou fingindo falar sério.
— Não. Elas têm alergia. — Eu respondi, sentando na areia e encarando o seu olhar clínico.
— Um dia eu te pego... — Ele ameaçou divertido, agachando-se bem na minha frente, como se a frase só pudesse ser concluída cara a cara. — E te jogo na água.
— Você não vai fazer isso. — Assegurei, com nossos rostos bem próximos.
— Ah é? — Matthew me beijou de leve, seguindo com a gozação. — E porque você tem tanta certeza?
— Porque você me ama. — Esclareci embevecida, recebendo outro beijinho dele.
Matthew sorria no canto da boca enquanto me beijava. Não sei explicar o quanto aquele sorriso abafado imprimia a imagem de um cara de pensamentos bem guardados. Um garoto retraído da costa, que sabia do seu potencial e por isso não fazia muita questão. Esse garoto, o meu garoto, foi pro mar e me deixou calminha ouvindo música nos fones de ouvido e assistindo-o ser engolido pelas ondas. Não tirava os olhos dele. E o vento, que desalinhava minha caprichada — e clichê — trança espinha de peixe, não me irritava. Nem sequer a areia, se metendo onde não devia. Quer saber, tirei o short e, aos poucos, me transformei numa típica garota de Viegas, pegando sol no meio da semana e paquerando os surfistas que aparecessem. Porque eles sempre apareciam.
Acontece que eu já tinha o meu, e estava embasbacada quando ele voltou.
— As ondas nem tão legais hoje. — Matthew reclamou ofegante.
— Então não vai mais não. — Pedi com aflição. — Fica aqui comigo!
Matthew disse que sim, recompondo o fôlego. Hum, eu queria lambê-lo. Ele estava molhado, salgado, e com os olhos bem clarinhos. Esses olhos me fitaram da cabeça aos pés, como se cobrassem uma explicação pra mudança de opinião repentina.
— Acabei não resistindo. — Expliquei sem ser levada a sério.
Aproximava-se do horário em que a praia era invadida pelos outros freqüentadores assíduos. Matthew deixou de ser habitué, mas sempre que podia aparecia por lá. Por mais que não morasse mais em Viegas, ele continuava levando o estilo de vida dos garotos do litoral. A maioria pegava onda, curtia essas músicas suaves, vivia numa coisa meio paz, amor e natureza, de bermuda, boné aba reta e camiseta largada. T-O-D-O-S, essencialmente todos, de boa vida, do tipo que a primeira coisa que faziam ao acordar era ir ver se tinha boas ondas. Se não tivesse, seria um dia inútil. Mas Matthew me dizia que o surf era como uma terapia pra eles, e eu achava muito bonita essa relação que ele e os outros garotos tinham.
Quando eu pensei que agora teria o Matthew ali, ao meu lado, e que poderíamos enfim desfrutar de um pouco mais de privacidade, eis que surge o Ben correndo e abraçando o meu namorado com a maior alegria. Foi como jogar um balde de água gelada nas minhas intenções. Pior que isso era tão previsível, aliás, isso tinha que acontecer, por que estávamos em Viegas e a cidade era assim. As pessoas se conheciam e se reencontravam a cada esquina.
— E aí, moleque! — Matthew bagunçou o cabelo da criança. - Veio pegar uma onda?
O guri balançou a cabeça, confirmando.
Como assim, moleque mentiroso?! É claro que ele não podia nem entrar no mar sem a companhia de alguém mais velho. E esse "alguém mais velho" era o tio do Matthew, pai relapso, que vinha mais atrás agradecendo a Deus pelo filho pequeno não ter desaparecido dessa vez. Pelo menos não dessa vez.
— Ah, Ben, você ta com o Matthew... Onde se viu, sair correndo assim...
— E aí, tio. — Matthew livrou o primo de uma série de sermões.
— Como vai, rapaz?! Faz tempo que não te vejo... Minha folga hoje, aí eu... — O tio interrompeu os esclarecimentos e resolveu questionar a minha presença — É sua namorada?
Eu e Matthew trocamos um olhar sobressaltado.
— Vocês já se conhecem. — Matthew disfarçou enfastiado. — É a filha da Stella.
— AHHHH, to lembrando de você. Nossa, fazia tanto tempo que não nos víamos... — Foi a vez de o tio exaltar-se, apertando a minha mão com vivacidade.
— Não tem problema. Tudo bem. — Eu disse sem graça.
O pai do Ben era um careca pançudo com jeito de quem não ia à praia há séculos. Quer dizer, exceto nos milagrosos dias de folga. Ele gargalhava, provavelmente pelo pensamento oportunista que passou pela sua cabeça.
— Que bom que você ta aqui! — o tio virou-se subitamente para Matthew, segurando forte o ombro do meu namorado e expondo seu pedido sem qualquer constrangimento. — O Ben pode ficar com vocês enquanto eu...
Sim, o tio folgado do Matthew foi embora alegando qualquer coisa e deixou o Ben com a gente. Sabe essas pessoas que não podem ver uma oportunidade pra se livrar de um fardo? Então. Por mais que o Ben fosse apenas um garotinho de quatro anos com rosto lambuzado de protetor e sorriso especialmente sapeca, eu não tava afim. Matthew e eu nos entreolhamos como quem diz "FODEU". Mas aí o espertinho começou a interagir.
— Meu pai comprou o jogo do Spider Man... — O pivete informou todo animado.
— Que legal... Você sabe jogar? — Matthew deu importância, como se achasse formidável.
Ben assentiu com olhar ingênuo.
— Com quatro anos eu jogava lego. — Matthew comentou comigo.
— O que é isso? — Perguntou o loirinho, curioso com toda palavra que fugisse do seu mini-vocabulário.
— É um joguinho de montar. — Disse Matthew, cuidadosamente, sem ter certeza que o garoto entenderia.
— Pra que serve?
Pff. Estava certa de que realmente teríamos de agüentar aquela criança fazendo perguntas o resto das nossas vidas.
— Pra brincar, ué.
Matthew colocou Ben no braço. Ele tinha mais jeito com crianças do que eu. Lá no fundo, bem lá no fundo, isso soava humilhante.
— Você já conhece a Jolie? — Thews cobrou, como se o menino fosse gente grande.
Ao escutar essa pergunta, Ben usou as duas mãos pra aproximar o rosto do meu namorado, teimosamente, dizendo que queria contar um segredo. Paciente, Matthew deixou que Ben falasse ao seu ouvido. O pequeno pôs-se a sorrir, com a mão cobrindo a boca, e me olhando com timidez.
— Ela é bonita. — O garotinho não soube falar sem que eu ouvisse.
— É uma gata. Não é? — Meu namorado concordou e o garoto ficou mais envergonhado, tentando se esconder atrás do Matthew ao mesmo tempo em que continuava sorrindo.
Era impossível não rir. Matthew também não se conteve. Ele perguntou ao menino se quando ele crescesse queria namorar comigo. Pra minha surpresa, Ben balançou a cabeça, dizendo que sim.
— Mas não pode, ela já tem namorado. — Matthew advertiu como se tivesse acabado de revelar uma grande dificuldade ao garoto.
— Tem? — Ben permaneceu fazendo pergunta, dessa vez sem tanta demora.
Sabe, depois do elogio comecei a achá-lo uma graça.
— Tem sim, você vai ter que brigar com ele... — Matthew sugeriu, divertindo-se.
— Quem é o namorado dela? — Ben quis saber rapidamente.
Bonito, Matthew, muito bonito iludir uma criança. Agora aproveite e saia desta enrascada — Foi o que meu olhar lançou meio que telepaticamente. Matthew entendeu, sorriu, e deu a resposta que o seu priminho esperava.
— É um mané. — Ele definiu, desfavorecendo o sujeito que por acaso era ele próprio. Mas antes que Ben perguntasse mais alguma coisa, Matthew me encarou e concluiu a frase. — Mas ele gosta muito dela.
Não sei dizer o nível do meu derretimento ao ouvir isso, mas abri um sorriso do tamanho do mundo. Ben se conformou e voltou a tagarelar sobre o jogo do Spider Man, enquanto eu Matthew nos olhávamos daquele jeito, com uma estúpida vontade de ficarmos a sós. Acho que Deus ouviu nossas preces, foi quando o pai do pivete lembrou que tinha um filho e voltou pra buscá-lo.
— E aí, esse rapaz deu muito trabalho?!
Nós respondemos que não. O tio do Matthew pegou o filho dos braços alheios e nos colocou numa saia justa daquelas. Há quem diga que esse é o papel dos tios, mas enfim.
— Por que vocês não vão almoçar lá em casa? — Propôs naturalmente.
Minha expressão foi tomada por um NÃO em letras garrafais. Matthew olhava para mim, e olhava pro tio, sem dar a maldita resposta. Ele não poderia aceitar...
— A mamãe ia adorar, não ia filho? — O tio do Matthew apelou, pedindo a opinião do pequeno.
— Jogar game comigo. — Ben acrescentou de maneira confusa, mas entusiasmada.
Com elogio ou sem elogio, que pirralho mala! É claro que Matthew não conseguiria recusar a um convite do único priminho que tinha. Eu apenas queria o meu namorado só pra mim. Mas que saco.
— É-É que... — Matthew disparou a gaguejar.
Pronto, agora sim. Minha cara tava péssima. Fim de privacidade, fim de dia, fim da porra dos nossos planos.
— Acho que a gente pode dar uma passada lá, mas é que eu e a Jolie tínhamos combinado de almoçar no francês...
— Ah, outro dia vocês vão lá. — o velho insuportável menosprezou minha escolha — A comida lá de casa é melhor que a desse restaurante. Diz aí, se não é, Matthew.
Não. Isso é impossível. O Merkitten era o meu restaurante preferido. Eu diria isso se o tio do Matthew não fosse chato o suficiente pra bloquear minhas cordas vocais. Matthew estava extremamente perdido, porque era óbvio que o tio insistiria até as ultimas.
— É ótima, tio, mas ela... — Ele articulou em vão.
— Tudo bem, Matthew, VAMOS. — Eu interrompi, de saco cheio daquela ladainha.
Pra todos os efeitos, pai e filho já tinham estragado tudo desde que apareceram. E outra coisa, família unida só dá certo na novela das oito, porque a proximidade permite que eles pensem que podem se meter na sua vida, no caso de gente velha, ainda decidir o que é melhor pra você. A família da falecida mãe do Matthew era tensa, e todos se sentiam responsáveis por ele desde que ela morreu. E meu namorado achava que nunca poderia desagradá-los, mesmo concordando com a inconveniência.