Esta fotografia icónica a preto e branco capta a vida quotidiana nas ruas Ãngremes e estreitas do centro histórico de Campobasso, em Itália, tirada em 3 de maio de 1944.
Arco sobre Campobasso, Maio de 1944
O arco de pedra emoldura a rua como se fosse ele o único cinema daquela cidade,
onde as crianças, sentadas no chão, dividem o sol como quem divide o último pão,
alheias ao facto de estarem, naquele instante, a ser fotografadas.
Os telhados sobem em degraus, cúmplices silenciosos de uma guerra que a imagem não mostra,
enquanto os ganchos pendurados no tecto do arco esperam por mercadoria
que talvez, naquele Maio de 1944, já não volte a chegar.
A luz corta a viela ao meio, generosa de um lado,
escondendo o resto na sombra fresca,
onde as roupas balançam nas janelas — bandeiras domésticas de rendição ao sol.
Duas raparigas conversam de pé, guardando segredos que a distância nos veda,
e um homem, sentado, observa a cena com a imobilidade de uma âncora
que se recusa a deixar um dia que, apesar de tudo, insiste em passar devagar.
As pedras da calçada brilham, gastas por passos que já não se contam,
numa cidade de pedra construÃda mais para durar do que para agradar.
O arco separa dois mundos: o interior escuro, onde a câmara se esconde,
e a claridade que teima em banhar o exterior.
O silêncio desta fotografia é, contudo, o mais enganador de todos os silêncios,
pois nele cabe todo o barulho de uma rua que continua a viver,
indiferente à história que, lá fora, se escreve com a urgência que o tempo ainda não deu.









