Caio Borges | Decoro
curadoria Tálisson Melo
O FONTE apresenta Decoro, exposição individual de Caio Borges, reunindo 22 trabalhos inéditos em pintura e serigrafia.
Na série, Borges desloca o cotidiano familiar para um espaço de estranhamento. Em composições saturadas e urgentes, cenas aparentemente banais se desdobram em construções híbridas, onde memória, afeto e ruído se entrelaçam.
A curadoria de Tálisson Melo destaca o caráter ambíguo dessas figurações, simultaneamente bizarras e ternas, ridículas e afetivas, que tensionam os ritos e gestos da classe média cristã brasileira.
Abertura, sábado, 04/10 das 14h às 19h
Visitação até 01 de novembro
Quinta a sábado das 14h às 19h
Fonte Rua Mourato Coelho, 751 Vila Madalena Metrô Fradique Coutinho São Paulo - SP http://font-e.org [email protected]
DECORO
Ao intitular esta exposição de pinturas e serigrafias do Caio Borges com o termo “decoro”, assumimos, obviamente, que no primeiro plano está o deboche — algo bem camp por sinal, como é tudo o que se faz ver aqui. Há também uma vontade de dialogar com a história da arte, da arquitetura, das imagens e da cultura material por meio de uma camada específica da vida: a decoração. E a entendemos como central nos ideais de adequação ética e estética, algo que se afirma para além de superfície ou invólucro dos ambientes, um receptáculo e display de tensões entre o público e privado, em suas congruências e desajustes.
Mas o que é entendido como decoro muda de maneira relevante ao longo da história. Persistindo, porém, em si, enquanto dispositivo (ideal) de ordenação do todo, visando reger todas as ações, toda a ética de uma comunidade em dado momento — até onde se tem rastros, já era um preceito fundamental desde os helênicos: o prépon, a regularidade vista na natureza e que deveria ser imitada pelos homens em suas ações e produções. Em 1452, às vésperas de um Novo Mundo começar a bagunçar o velho coreto, Leon Battista Alberti lançava seu tratado Sobre a arte de construir, definindo o decoroso: “conciliar a necessidade e comodidade de modo que cada parte esteja distribuída no ponto exato, na ordem, lugar, articulação, posição, configuração que lhe for competente”.
A reforma barroca no meio do caminho e nos fluxos da colonização reformulou tudo isso em prol de sua retórica visual, teatral e comovente que integrava as emoções e o drama na busca por impacto sensorial e afetivo sobre fiéis-espectadores, a serviço do convencimento devocional e político. Esse padrão europeu se impunha sobre o resto do mundo projetado e justificado como grande desconhecido e indecoroso a ser ordenado, como um reflexo da cultura carnavalesca, grotesca — o inverso da retórica clássica, tudo o que ia contra a adequação, conformidade de status, conveniência moral, discrição, contenção do gesto e compostura hierática.
Do altar aos bibelôs, com o declínio da corte e da Igreja como reguladores da docilidade, o decoro passou a ser ditado pela família burguesa e suas instituições — salão, escola, museu, o lar e, principalmente, a própria (imagem da) família, nos retratos, no matrimônio, na maternidade, nas paisagens idílicas, naturezas-mortas, temas edificantes e objetos “inofensivos” da ornamentação de interiores e indumentárias. Do final do século XIX em diante, vemos um desfilar cada vez mais confuso de códigos do decoro convivendo e se interpelando, ainda que mantendo suas estratégias para esconder debaixo dos tapetes tudo aquilo que não se pode controlar, desejar, expressar…
A historiadora Marize Malta, atenta ao papel das artes decorativas, aponta para um outro ecletismo que emerge nas casas burguesas: “O lar transformava-se em vivenda individualizada, local da intimidade. O espaço revestia-se de expressão pessoal, era preenchido com modos de vida que essencializavam as pessoas que nele viviam. O lar, assim, espelhava seus moradores e conhecendo-o, conheciam-se as pessoas; seus objetos seriam perfis e indicadores de um tempo e de uma maneira cultural.” (revista 19&20, 2006)
Adornos, enfeites e bibelôs são veículos de normas, conformações sutis que se naturalizam nos rituais cotidianos do âmbito familiar, docilizando corpos e subjetividades, reproduzindo tabus, eliminando diferenças e sedimentando tantos recalques… Ao ponto que muitos passam a ser fantasmagorias! É nesse ponto que Caio opera, transformando esses elementos da decoração dos lares em personagens que se fundem aos arquétipos da família para perturbar suas coreografias perante a câmera, o olhar de fora e a construção da memória.
O decoro também estabelece seu oposto, o indecoroso, o baixo, o inadequado. Hoje, com décadas de kitsch, pop, punk, porn, funk e camp, a divisão da decretada “alta cultura” parece falida, ou qualquer tentativa de refazê-la vai encontrar escapes significativos para esfregar na cara seu fracasso. Porém, o espaço-tempo da família parece ainda oferecer um contexto peculiar, aquém e além da contemporaneidade, patente nos álbuns de família, onde o decoro e a afetação se emaranham vivamente com as memórias. Partindo exatamente das fotografias de sua família, Caio vem criando imagens na contramão do decoro corriqueiro, sem, no entanto, cair em seu oposto da maneira mais radical e desnuançada.
Suas imagens colocam no centro da cena o ambíguo e híbrido que surge desse contexto onde amor e solidariedade se embaralham com tantos vetores de violência. Nas bricolagens digitais convertidas em enormes pinturas de cores saturadas e pinceladas urgentes, os cenários parecem recuar como pano de fundo no palco, ou recortes de uma apresentação escolar. Os detalhes, a perspectiva e a precisão de escala não importam tanto quanto a cena viva em primeiro plano. É suficiente inferir ou reconhecer os ambientes tão comuns em que tudo se passa, na casa ou em seus anexos: a pracinha, a igreja, a rua, o escritório do patriarca.
Essas cenas, ritos, poses e figurinos estão agora infiltradas por uma nova leva de integrantes da Carreta Furacão versão queer. Arrancando as cabeças de seus pais, de outros parentes, da Nossa Senhora e até dele mesmo, Caio as substitui por partes de bibelôs, bonecas e brinquedos que habitam seu universo de infância — um repertório tão comum e identificável. Bizarras, fofinhas, ridículas, assustadoras, de mau-gosto, indecorosinhas, figuram espetáculos episódicos do cotidiano familiar, entre festas, jantares e passeios, descortinam e projetam ruídos — de choros, berros, soluços e gargalhadas —, sobre as coreografias da classe-média cristã brasileira.
Tálisson Melo
Caio Borges (1974, São Paulo, Brasil. Vive e trabalha em São Paulo)
O trabalho de Borges se concentra no desenho e na pintura para explorar memória, sexualidade e identidade queer. Suas composições de cores saturadas articulam referências da Pop Art e da cultura midiática, abordando criticamente o patriarcado e a discriminação contra a população LGBTQIAPN+.
FONTE Fundado em 2013 o FONTE é uma organização com sede em São Paulo que oferece residências e ateliês temporários para jovens artistas. Oferece uma programação pública e gratuita incluindo exposições, palestras, workshops, performances, projeções de videoarte e estúdios abertos. O espaço já recebeu artistas como Adrián Balseca (Equador), Martin Lanezan (Argentina), Pilar Quinteros (Chile), Sandra Gamarra (Peru), Gabrielle Goliath (África do Sul), os brasileiros Rodrigo Braga e Lyz Parayzo, e realizou parcerias com as instituições Associação Cultural Videobrasil, Paço das Artes, Instituto Tomie Ohtake, entre outras.










