Breakfast and secrets @Browks
O dia começou cedo e não sentia mais a vontade esmagadora de permanecer escondida na fortaleza que eram suas cobertas. Já estava acostumada com a rotina e vez ou outra conseguia acordar antes mesmo do toque estridente do despertador. Aquele fora uma das manhãs que despertara antes do necessário. Seus olhos estavam admirando o teto imaculadamente branco do quarto, enquanto desenhava formas abstratas na colcha de cama com a ponta dos dedos. Relembrava os momentos que viveu desde que chegara ao internato. As pessoas que conhecera e as descobertas que fizera. Um calor agradável encheu seu peito dando-lhe a confirmação do que já suspeitava. Escolher o Kings entre tantas opções fora sua melhor decisão. Apesar de nunca ter ficado tão longe de casa e o internato nunca poder ser comparado com essa, a garota se sentia confiante com o resultado. Pela primeira vez na vida não tinha medo de estar longe dos pais, estava certa de como deveria seguir sua vida a partir dali.
Suas reflexões demoraram mais do que o previsto e logo o alerta vindo do relógio de cabeceira ecoou pelo cômodo. Escorregou as pernas para fora da cama, sentindo o choque do chão frio contra seus pés descalços, exterminando qualquer resquício de sonolência que ela carregava. Não custou muito para que a água do chuveiro cobrisse toda a extensão de seu corpo, como se trouxesse a vida de volta aos seus pulmões e lá estava ela, pronta para o dia que chegava. Escolheu uma música dentre tantas em seu acervo mental e segundos depois já não precisava de nenhum aparelho tecnológico para escutar a voz de Florence Welch, o trabalho de seu cérebro era vívido demais para deixá-lo de lado. Quem bem a conhecesse saberia que sua banda favorita era a de Florence e que sabia de cor todo o seu repertório, até mesmo os mais obscuros. Adorava a forma como a voz da mulher dominava sua mente e parecia se transportar por todo seu organismo, criando uma sensação indescritível. Talvez aquele fosse o seu Nirvana, o momento em que as notas elaboradas das músicas se alastrava por seu ser como se tivesse contaminado a seu sangue.
Já estava na quinta música de seu show particular quando cruzou a porta do refeitório e deu de cara com aquele mar de adolescentes famintos. Por alguns segundos se questionou sobre o motivo de não ter esperado a colega de quarto se aprontar, para então as duas rumarem para a cantina. Um grito desesperado em forma de ronco veio de seu estômago e ela teve sua resposta. Seu corpo precisava ser alimentado e já fantasiava com a variedade de sucos frescos e dos sanduíches de pão italiano. Precisou conter o próprio instinto, pois apenas em imaginar a figura da comida sua bocha encheu-se de água. O cheiro do café recém-passado lhe invadiu as narinas e ela caminhou em passos tão leves que chegaria a acreditar estar voando. Completamente seduzida por aquele aroma. O que a fome não fazia com as pessoas, não é mesmo?! E já havia encontrado em Michelle sua vítima quase fatal.
Distraída demais, ansiosa demais. Assim ela estava, tanto que quase se esqueceu de cumprimentar as cozinheiras que ali estavam para servir. Um pedido de perdão escapuliu de seus lábios tão fraquinho que nem mesmo ela o escutou com clareza. Sua feição era de uma fominha, com os olhos atentos a todas aquelas delícias e os dedos nervosos batendo na borda da bandeja encarnada. Na realidade, sentia-se como uma. Demorou algum tempo a mais até finalmente conseguir recobrar o juízo e escolher a sua primeira refeição. Certo, tudo pronto. Ou quase. Ainda faltava o lugar. As pessoas pareciam entretidas em conversas particulares. Particulares até demais, ela poderia afirmar assim que seus olhos caíram em um casal numa mesa ao fundo do refeitório. Céus!
Certas pessoas não tinham compostura mesmo. Rondou o lugar minuciosamente até encontrar um lugar em potencial. Sem muito pensar, já estava em pé ao lado da mesa e apoiando a bandeja na beirada do móvel. Ali existia apenas um rapaz, um moreno concentrado em seu próprio prato. Já o tinha visto entre os corredores, mas nunca haviam trocado uma palavra. – Er.. Com licença. – Iniciou com um tom alto o bastante para que ele notasse sua presença ali. – Se importaria se eu me sentasse aqui? – Suas sobrancelhas se ergueram em um movimento inconsciente, confirmando a dúvida que tinha sobre o impacto de sua presença ali. Esperava que o rapaz não a achasse inconveniente demais e que dividisse aquele tempinho rápido de café da manhã com ela. Afinal, fazer refeições sozinha era muito ruim e torcia para que o moreno compartilhasse da mesma ideia. Seria agradável fazer mais um conhecido, alimentando seu estômago e uma possível amizade.