address the letters to the holes in my butterfly wings nothing's forever, nothing is as good as it seems .
— Bridget Utonium
2025, Los Angeles (?)
Bridget sempre chegava cedo. Gostava de andar devagar até o hospital, como se os passos arrastados pudessem atrasar o inevitável. O prédio branco cintilava sob o sol de Los Angeles, mas tudo nela doía como se o dia estivesse nublado. Seu pai ainda respirava, por enquanto. Máquinas preenchiam o som do quarto. E ela sempre achava que podia ouvir a voz dele por baixo dos ruídos, mas talvez fosse só porque a época do soro se aproximava. A primeira coisa que fazia quando chegava ao quarto que ele estava, era sentar ao lado da cama e tirar o mp3 velho do bolso da mochila. Tinha pintado ele com esmalte de glitter rosa quando era criança, colado adesivos de unicórnios, corações e estrelas. Música lhe ajudava a não pensar tanto em tudo, e com apenas um fone na orelha, a garota ajeitou a cadeira perto da cama e apoiou os cotovelos no colchão, como fazia quando era pequena e o pai lia para ela antes de dormir. Ele estava imóvel, preso às máquinas, com aquele bipe constante que já fazia parte do ar. Mas para ela, ele ainda estava ali, de algum jeito. Nunca dizia nada ali em voz alta. Não queria perturbar os outros. Conversava com ele por dentro, nos pensamentos embolados e confusos, onde ainda existia uma casa pequena com cheiro de açúcar, temperos variados e cereal. Onde os dois riam juntos, desenhavam juntos. Onde ele dizia: “Quando as cores ficarem confusas, Bee, só fecha os olhos e respira fundo. E não esquece de tomar o que eles mandam, tá? Isso ajuda o mundo a voltar pro lugar.”
E ela tomava. Sempre que necessário. Sem pânico, sem crise. O soro colocava as coisas nos trilhos, do jeitinho que ele falava. Depois, as lembranças paravam de escorrer como tinta na água. As vozes sumiam. Os pensamentos paravam de correr tão alto. Mas algo sempre sobrava. Sempre a mesma menina: olhos escuros, sobrancelhas marcadas, expressão de quem nunca se rende. Ao lado dela, outra, mais suave, mas incrivelmente durona. As duas apareciam toda vez que a data do soro se aproximava. Ninguém sabia quem eram, mas Bridget sentia uma saudade tão absurda delas que doía no fundo dos ossos. Não tinham nomes. Talvez fosse parte da sua imaginação completamente fora da curva. Mas sonhava com as três juntas, de mãos dadas, correndo entre prédios que não existem, em uma cidade que tinha cheiro de algodão-doce e gasolina. Alguns diziam que era maluquice. E ela foi encaminhada para a ala psiquiátrica algumas vezes. E bom lá diziam os desenhos realistas das garotas que ninguém reconhecia eram só ecos de alguma ilusão mal resolvida. Tudo ficava embaçado quando tinha que ir lá. Davam outra coisa para ela, como se fosse um soro mais forte que lhe deixava tão sem vida que ela havia decidido não falar mais disso. Era melhor focar no que era real. Ela sentia falta do pai. Bridget continuava ali, imóvel, com a palma da mão do pai descansando sobre a sua. O toque era leve, passava horas assim pois não queria o deixar sozinho.







