Blood Play
Petyr subiu cada degrau cautelosamente, caçando o nĂşmero descrito no papel pelas portas, um tanto ansioso demais e ele nem mesmo sabia o porque. NĂŁo demorou muito atĂ© encontra-lo, mais alguns passos incertos e ali estava, 603B. NĂŁo tinha ideia do que procurava entĂŁo passou todo o percurso imaginando o que diria a quem quer que atendesse a porta, mas no caso, foi estranho, porque a porta em questĂŁo já estava aberta. Ele deu um passo incerto e inclinou-se vagarosamente para ver se havia mesmo alguĂ©m ali, nĂŁo gostava da ideia de estar invadindo a privacidade de alguĂ©m. Dentro do pequeno apartamento, havia uma garota minĂşscula, sentada na poltrona ao centro da sala, seus cabelos negros como as penas de um corvo, exceto por uma mecha branca em sua franja, contornando um rosto diminuto e arredondado, lábios pequenos e cĂlios longos. Ela estava lendo alguma coisa com certa concentração, a testa franzida como se aquela fosse a tarefa mais difĂcil do mundo, atĂ© que seus olhos enormes piscaram e de repente estavam focados em Petyr. O coração do homem certamente pulou uma batida, ela parecia uma boneca e de forma um tanto ridĂcula ele achou que ela talvez nĂŁo fosse capaz de se mover. “Oh, Ă© vocĂŞ..” a voz da menina saiu tranquila e suave, como quem fala com um velho amigo. Ela agora tinha um pequeno sorriso no canto dos lábios, parecendo ansiosa por algo em especial, mas aparentemente, nĂŁo era sobre a chegada de Petyr. “Achei que vocĂŞ demoraria um pouco mais” fechou o livro e o colocou na mesa de cabeceira, erguendo-se da poltrona que parecia enorme ao seu lado. “Sente-se! Vou pegar meu grimĂłrio..” A passos rápidos demais para as curtas pernas, ela sumiu num corredor escuro. NĂŁo fez sala nem nada, muito menos questĂŁo de explicar alguma coisa. Pet ainda estava na entrada sem entender nada, apenas encarando o vazio, o ambiente claustrofĂłbico que era o apartamento da garota. Repleto de mĂłveis de madeira que aparentavam ser bem antigos. As enormes cortinas fechadas deixavam o ambiente um tanto sombrio. A Ăşnica luz que ainda entrava, vinha de um mosaico localizado no fundo do corredor por onde ela havia sumido, as cores enfeitando o chĂŁo da sala com tons de vermelho, amarelo e azul. Uma estante de livros estava encostada do outro lado da sala, haviam alguns porta retratos sobre esta e Petyr se aproximou para observa-los, as taboas de madeira rangendo sob seus pĂ©s. Surpreso se deparou com meia dĂşzia de porta retratos, mas ao invĂ©s de fotos ali haviam desenhos, rabiscos de lápis e caneta bic em sufite, e ele ficou ainda mais confuso, quanto mais tentava compreender daquela garota, menos ele sabia. Considerou seriamente dar meia volta, temendo que ela nĂŁo passasse de uma psicopata, tudo aquilo estava estranho demais, quem sabe estar ali fosse uma perda de tempo. “Errado.” A voz da garota ecoou firme e ela reapareceu, com um sorriso ainda maior no rosto. “Mas eu nĂŁo disse nada..” ele comentou um tanto seco e levemente irritado, Petyr odiava nĂŁo entender as coisas, sua mania de querer controlar tudo era um problema muitas vezes sem solução.  “Ah nĂŁo? Acontece.. as vezes eu me confundo, nĂŁo Ă© como se soasse diferente na minha cabeça” Ela voltou a se sentar, no mesmo lugar de antes mas agora com um livro enorme de aparĂŞncia velha sobre as pernas, suas pequeninas mĂŁos apoiadas sobre ele. “Diferente?” Ele soltou. “Sim os canais se misturam, eu nĂŁo os controlo, sĂł ouço.. me faz soar um pouco mais invasiva do que geralmente sou, nĂŁo fique assustado.” “Q-quem disse que estou assustado?” Suas mĂŁos tremiam levemente e ele as fechou em punho para controla-las. Estava assustado, mas nĂŁo admitiria de forma alguma. Permaneceria na defensiva o quanto fosse necessário. “Seu gaguejar. Agora sente-se, por favor.” Ela soava segura de uma forma que o incomodava, abriu o livro e começou a caçar algo pelas páginas empoeiradas. “Quem Ă© vocĂŞ?” “Isso nĂŁo Ă© relevante.” Rebateu tĂŁo rápido que ele demorou um instante antes de decidir como responder Ă quilo. “É relevante para mim.” Um curto silĂŞncio, e as grandes Ăris quase num tom de mogno encararam sua alma, ele se sentiu exposto e julgado, era difĂcil acreditar que uma garota tĂŁo pequena pudesse olha-lo com tamanho desdĂ©m, que pudesse fazĂŞ-lo sentir tĂŁo pequeno. “Sua esposa quer falar com você” ele demorou um pouco para assimilar mas tirou o celular do bolso e encarou a tela por um instante, mas nĂŁo havia qualquer ligação. “Do que está fal-..” o telefone vibrou em sua mĂŁo direita, no leitor o nome de Julia brilhando. Seu polegar afundou no botĂŁo vermelho e ele, tremendo ainda mais, voltou a encarar a garota, agora de volta ao livro gigante. “O que está acontecendo?” “Acho que vocĂŞ sabe bem o que anda acontecendo na cidade, Ă© puro e denso caos, isso precisa ser resolvido o quanto antes e vocĂŞ está dificultando tudo, me questionando e solicitando conversas desnecessárias, retardando a solução, mas vou tentar ir um pouco mais devagar para que vocĂŞ consiga me acompanhar.” Ela pigarreou e tudo havia deixado seus lábios tĂŁo rapidamente que Petyr nem mesmo teve tempo de se sentir ofendido. Ela sorriu e virou o livro na direção do homem a sua frente, duas páginas repletas de desenhos com um rosto familiar demais. “Sou Nia Bouchard e me parece que o vocĂŞ precisa de mim”. As pernas de Petyr imediatamente perderam a força e ele caiu sentado no sofá. “Agora que finalmente se acomodou, podemos começar.”
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