Taehyung + realeza, selvageria, coroa e princesa.
Kim TaehyungPalavras: 2,590.Aviso: Caramba, eu me empolguei demais e escrevi um monte, e na verdade eu nem sei se isso faz sentido porque eu simplesmente fui colocar as palavras em ordem e saiu isso, pois é. Espero que você goste um pouquinho! <3
Os passos de Kim Taehyung são lentos, recatados, e hesitantes. As solas já gastas de suas botas negras, que enlaçam as canelas ocultas pela calça justa de couro, são pouco a pouco arrastadas pela tapeçaria bordô que se estende desde a entrada do salão até o trono, iluminado por uma centena de castiçais banhados a ouro e decorados por pedrarias. A insegurança por trás de seu caminhar cometido faz parecer que o jovem tem em mente prolongar o momento, fazendo-o durar mais. É sua coroação, sua entrada oficial para o mais alto nível hierárquico da realeza. Não há como não compreender a calmaria por trás de seus passos calculados, e todos os olhares presentes reluzem de um modo compreensível. Ansiosos mas também pacientes. Leve o tempo que precisar. Aproveite o momento. Permita-se fazê-lo durar o quanto for necessário. É isso que as íris curiosas que acompanham o evento transparecem, e é isso que Taehyung enxerga. Assim como também é exatamente isso que o faz rir internamente, mas não há graça nenhum no som silenciado pelo barulho exorbitante de seus pensamentos.
A insegurança por trás de seu caminhar cometido faz parecer que o príncipe prestes a se tornar rei tem em mente prolongar o momento, fazendo-o durar mais. Mas essa não é a verdade. A verdade obscura e desconhecida, que não deve jamais ousar passar pela mente dos demais membros da família real, é que os passos inseguros de Taehyung não almejam estender o momento. Eles se arrastam pelo caminho de lanças e guardas na esperança de algo se parta antes do ato final. De que o tempo pare de repente, de que o reino seja atingido por inimigos do leste, de que um filho bastardo ressurja das masmorras ou até mesmo das cinzas para reivindicar sua posição ao lado da família real. Mas assim que Kim dá o primeiro passo sobre o degrau que o separa do nível superior, e o faz pisar no solo sagrado que sustenta o trono moldado a ferro e aço, é tarde demais para esperar que um milagre o salve de seu destino.
Um dos cavaleiros nomeados para participar da cerimônia se aproxima e entrega um cetro para o príncipe, que o segura com leveza entre suas mãos frias e cobertas por suor. Os anéis dourados apertam os dedos longos, incomodando-o e machucando sua pele macia, digna de um príncipe. Mas não de um jovem amaldiçoado. E ele não consegue se livrar da palavra, ou do gosto amargo e impregnante que ela provoca no céu de sua boca. Outro nobre se aproxima e veste o futuro rei com um manto grosso feito do mais valioso dos veludos, que possuí um tom avermelhado que se parece com sangue fresco. A peça nova pesa sobre os ombros de Taehyung, mas não é isso que o faz suspirar, sentindo-se sufocado pelo nó indissolúvel que ocupa sua garganta. O que o faz querer desabar diante de todos os presentes são as lembranças que estampam sua visão, fazendo com que tudo ao seu redor seja substituído pelos olhos negros de alguém que ele não consegue reconhecer, mas deveria. Um novo anel de ouro e esmeraldas é deslizado por um de seus dedos livres, e ele reconhece a jóia que um dia pertenceu ao seu pai, e a toda linhagem de reis que existiram antes dele. E, no meio do auge de sua vida, Taehyung se pega pensando se algum deles também pensara em fugir. Ou, talvez, se algum deles também tivesse uma grande mancha negra prestes a contaminar todo seu futuro.
O arcebispo é o último a se aproximar, indicando com o auxílio de seu olhar serene que o futuro rei deve ocupar seu lugar junto ao trono, e Taehyung obedece ao pedido indireto e silencioso de maneira automática, deixando que o peso de seu corpo ceda sobre o assento estofado, as costas chocando-se contra a base firme de metais. Ele engole a seco quando o último homem se aproxima novamente, banhando os dedos em uma taça de óleo e espalhando o líquido pegajoso e sagrado pela testa exposta de Taehyung, e pelo restante de seu rosto. O príncipe, quase rei, fecha os olhos por instinto e a imagem da feiticeira de feições suaves mas marcantes invade sua mente outra vez, se arrastando através de vales desconhecidos e se esgueirando por caminhos secretos, até que tudo em que Taehyung consegue se concentrar é na lembrança de seus sonhos.
De seus pesadelos.
Dela.
Na melodia doce e cantada que a voz da garota de cabelos escuros e lábios vermelhos exala. No modo como suas mãos banhadas por magia reproduzem chamas alaranjadas que soltam faíscas em todas as direções, e em como o calor do fogo parece queimá-lo de dentro para fora. O óleo passado sobre seu rosto se parece com um combustível inflamável que junto as lembranças da feiticeira faz com que Taehyung pense que esta prestes a entrar em combustão, explodindo como uma bomba silenciosa que ateia fogo em tudo ao seu redor.
Você não percebe que não é como os outros? Você não é o garoto de ouro que todos esperam que você seja. O feitiço lançado através das palavras insensatas da menina o persegue noite após noite. Ela o circula com passos lentos, recatados e nada hesitantes. Não como se estivesse tentando adiar algum momento, mas como se quisesse prolongá-lo. Essa calmaria constante não se combina em nada com você. Você sabe que quer algo diferente, não sabe? Ele se lembra de todos os detalhes com muita clareza. Não importa se eles aconteceram apenas algumas noites atrás, ou há semanas, meses, anos, vidas passadas.
Você não consegue enxergar? Ela o questiona em outras noites, e ao invés de fogo há densas nuvens negras flutuando sobre suas mãos abertas. Você também pertence a escuridão, assim como eu. E Taehyung se revira em sua cama quando, no meio dos pesadelos o calor dos lábios dela contra os dele se parece real demais. O peso de suas palavras se dissipando até se transformar em um pluma leve diante do fardo que é desejar que o olhar feroz e rebelde dela o corrompa por completo, o amaldiçoando. O hipnotizando para que ele a siga para dentro da escuridão, e é isso que ela faz noite após noite.
Atrapalhando seu sono. Perturbando sua calmaria. Arruinando sua paz. Fazendo-o se revirar entre os lençóis de seda que acordam molhados em razão do suor.
Às vezes, quando o desespero se tornava demais, e o cair da noite trazia consigo a promessa de novos pesadelos e novas profecias sendo sopradas pelos lábios doces da garota desconhecida que frequentava seu inconsciente sem a necessidade de um convite formal, Taehyung se pegava fugindo. E fugir, sabia ele, não era algo digno de um príncipe, que dirá de um futuro rei, mas sua covardia era também sua salvação, e ele mantinha os olhos abertos por toda madrugada, ocupando-se com livros, partituras, passeios noturnos pelas áreas esquecidas do castelo. Mas o peso de um olhar constante e cravado em suas costas o fazia se encolher pelos cantos, rastejando para seus aposentos com o nascer do sol e acomodando-se entre suas cobertas na esperança de que o brilho alaranjado das manhãs fosse capaz de fazer com que a presença contante dos traços da noite fosse engolido pela luz.
Mas não eram.
Quando é que você vai perceber que não adianta fugir de mim? Ela perguntaria mais tarde, quando a exaustão fosse demais e a consciência fosse vencida pelo sono. E Taehyung tentaria resistir, inutilmente, a todos os encantos que eram endereçados a sua alma. Por que é que você não me deixa em paz e vai embora? A pergunta escapou uma vez, uma única vez no meio de tantas outras nas quais o medo o fez se calar. O sorriso frouxo e fácil da menina já era uma resposta mais do que suficiente para que ele compreendesse o porque dela não se afastar de seus sonhos. Ela estava se divertindo, e se divertiu ainda mais ao colocar em palavras uma verdade que não deveria passar de uma mentira. Por que você não quer que eu vá. Mas, se você pedir de verdade, talvez eu acabe tendo que obedecer, alteza. O honorífico é irônico, banhado a malícia e heresia. Assim como seu olhar intenso, magnético, penetrante. Taehyung se esforça para encontrar uma palavra que possa descrever o que ele encontra cada vez que se permite mergulhar nas íris escuras da feiticeira, mas nada parece surgir.
Ele tentou mandá-la embora uma centena de vezes, mas suas palavras aflitas não condiziam com o aperto firme de seus dedos longos em torno dos dela.
No dia da sua coroação, eu vou te dar uma chance de me mandar para longe. Ela repetia algumas vezes, em uma promessa vazia e que não parecia fazer sentido. Metade de seu rosto era iluminado pela luz do luar, mas a outra metade permanecia mergulhada nas sombras, oculta, inacessível. Mas, se você não fizer isso, vou ser obrigada a ficar do seu lado para sempre, Kim Taehyung.
Ele esperou por dias, semanas, meses e anos até que o dia de sua coroação chegasse, se preparando para o momento como um cavaleiro se prepara para enfrentar um dragão para livrar todo um reino de uma maldição. E era isso que Taehyung precisava fazer: livrar-se de sua maldição particular. Mas, às vésperas do dia mais importante de sua vida, sua cama permaneceu intocada. Os lençóis negros esticados e sem marcas de suor, e os olhos cansados do príncipe abertos por toda madrugada, a respiração presa em seus pulmões.
Talvez sua fuga fosse devido ao medo de adormecer e encontrá-la do outro lado de sua consciência, esperando por ele e antecipando qual seria sua resposta, se é que haveria forças ou clareza para apresentá-la. Vá embora.
Ou, talvez, fosse o medo de perceber que, por algum motivo, ele não queria se livrar dela. Fique para sempre.
Os dedos do arcebispo se afastam do rosto de Taehyung, e ele se obriga a reabrir seus olhos cinzentos, voltando para realidade e procurando empurrar seus pensamentos noturnos para longe, soterrando-os por alguns momentos, até que sua obrigação diante do reino seja cumprida. Um sorriso inseguro e forçado estampa seu rosto quando um segundo representante da igreja se aproxima, trazendo em suas mãos cobertas por luvas a coroa. Taehyung mantém a cabeça erguida, os olhos focados nos presentes no salão, no modo como eles assistem a tudo como se estivessem presenciando o início de algo novo, e não um fim. O soberano sente a jóia coberta de pedrarias de tamanhos e cores variadas ser gentilmente colocada sobre sua cabeça, enroscando em alguns fios loiros de seu cabelo, fazendo com que sua presença seja sentida. Seu peso é leve diante do peso que o mais novo rei sente sobre sua pálpebras, castigadas por uma madrugada de insônia.
— Deus salve o rei! — O público entoa, em um coro de vozes animadas e esperançosas.
Taehyung afunda ainda mais no trono, desejando poder se fundir à ele, desaparecendo da visão de todos. Uma gota de suor escorre por sua nuca, deslizando para dentro de sua camisa. Ele umedece os lábios secos com a ajuda de sua língua, percebendo que ele se sente como se tivesse passado as últimas horas perdido em meio a um deserto, sedento por água. Tudo que ele deseja é se retirar para seus aposentos para mergulhar em uma banheira de água fervente, para limpá-lo de todas suas lembranças. E então adormecer.
Para encontrá-la e mandá-la ir embora.Ou para mandá-la ficar. Ele não sabe ao certo.
Ele só precisa de um pouco de calmaria, ainda que esse pensamento o faça se remexer inquieto, relembrando outra vez das palavras que agora estão gravadas em sua mente.
Essa calmaria constante não se combina em nada com você. Você sabe que quer algo diferente, não sabe?
Algo diferente. Algo intenso, e feroz, e profundo.
Taehyung balança a cabeça, sentindo o peso da coroa se tornar mais evidente. A calmaria é tudo que ele pode ter. E ele só quer encontrá-la logo.
Mas tudo isso ainda esta longe de acabar.
Após a coroação, as homenagens prestadas pelos convidados tem início. O arcebispo anuncia a presença de cada um, convidando-os a se aproximarem, e um a um os presentes se curvam diante do rei Kim Taehyung, demonstrando respeito e devoção. O jovem de sorriso luminoso e pensamentos escuros agradece o tempo todo, sentindo-se como um garotinho preso no corpo de um gigante. Ele recebe os mais variados presentes, desde iguarias de reinos distantes, até as coisas mais simples e singelas, porém significativas para aqueles que as oferecem ao novo monarca. A voz do arcebispo é como o fantasma de uma brisa soprando ao longe, enunciando título e nome, nome e título, em uma sequência finita mas que parece interminável. No entanto, a atenção do jovem rei é retorna completamente para o timbre cansado do arcebispo assim que este anuncia a aproximação de um jovem solitária, que caminha pelo tapete vermelho estendido ao longo do salão.
O vestido azul escuro tem os mesmos tons do céu noturno, e os pontos brilhantes de pedraria que se estendem pela saia parecem imitar as estrelas. Há uma espécie de véu jogado diante de seu rosto, que permanece cabisbaixo durante todo seu trajeto silencioso. Seus passos são lentos, cautelosos e, de novo, nada hesitantes. Taehyung aprisiona o oxigênio recém inspirado no interior de seus pulmões, apertando os dedos ao redor do cetro em sua mão. Ele pisca uma vez, duas, três. Não há o peso das cobertas ao redor de seu corpo, nem as roupas leves de linho grudadas em sua pele suada. Mas ele se sente sendo sugado para longe de sua consciência, para dentro de outro de seus sonhos, ou pesadelos, ele já não sabe qual palavra usar.
— A princesa do reino de Elysias, vossa majestade — O arcebispo diz assim que a jovem para diante do trono. Uma onda de calor parece emanar de seu corpo relaxado e pequeno, mas que parece conter todo poder do mundo.
Taehyung espera pelo momento incerto e impreciso no qual tudo ao seu redor irá se desfazer em fragmentos de memória e ele irá acordar em seu quarto, mas ele não vem. A linha tênue entre realidade e fantasia agora se parece com um abismo, e por mais que ele tente se convencer de que tudo não passa de outro golpe de inconsciência noturna, ele sabe que jamais esteve tão imerso em sua própria realidade. E ele sabe, no instante em que as mãos pequenas da jovem em sua frente alcançam o véu que esconde seu rosto, que ele se preparou a vida inteira para esse momento. Não para sentir o peso da coroa sobre sua cabeça, ou para garantir ao seu reino dias de glória. Mas para encontrá-la.
Quando o véu negro é jogado para trás, sobre os cabelos ondulados e também tão escuros quanto a noite, e o olhar cinzento de Taehyung se depara com as íris escuras, ferozes, e rebeldes da jovem. E então, em um lapso temporal perdido entre todos seus sonhos e seus momentos de vigília, ele encontra a palavra perfeita para descrever o que encontra ao enfrentá-la em um silêncio compartilhado e barulhento.
Selvageria.
E é no meio das vogais e das consoantes, e de todo significado presente por trás do substantivo, que ele se dá conta de que sabe exatamente quais são as próximas palavras que irão escapar de sua boca, sentenciando seu futuro.
Vá embora.
Fique para sempre ao meu lado.












