Sangue Prometido por Beatriz Martins
Sinto meus pés soltando do chão, meu corpo está caindo sem parar e minha visão fica como um chiado sem forma e sem som. O baque contra o chão é imenso, não o bastante para me matar ou quebrar alguns ossos, mas o bastante para me atordoar e fazer perder completamente o fôlego. Ainda tonta, tento me levantar, mas me sinto fraca, mil vezes mais fraca. Não sinto as faíscas correndo por cada veia de meu corpo, e não sinto o peso de minhas asas. Me concentro primeiro em me estabilizar e logo em seguida coloco minha mão sobre minhas costas, não sinto nada além de uma cicatriz alta e mal formada. Assusto-me, meu coração dispara. Olho ao meu redor, mas não é certo, nada é familiar. Não vejo o limbo e muito menos a esfera celestial e então percebo: não estou mais em Tumcae, estou na Terra.
Semanas se passaram e me cansei de tentar usar meus poderes, não sai o mínimo de calor ou chamas de minhas mãos, minhas asas se foram e não me resta muito. Minha única alternativa é encontrar o sábio enviado para este planeta muito antes de meu nascimento. Um humano esquisito tenta me ajudar nessa jornada, seus cabelos castanhos se parecem com os meus e me sinto um pouco mais confortável, afinal sou a única em Tumcae que não possui os cabelos incrivelmente brancos ou acinzentados.
— Você só fica falando de dimensões alternativas e sábios loucos, mas não explica nada direito — sua voz é grave e sempre doce.
— Você não entenderia — tento manter o foco, mais algumas horas e finalmente encontraremos o sábio.
— Apenas me conte, veremos isso depois. — Seus olhos verdes praticamente me imploram.
— Tumcae nem sempre foi uma dimensão alternativa da Terra... — respiro fundo — nós éramos um planeta único, uma raça pura, com o dom da magia percorrendo nossos sangues. A própria natureza se assegurou que seríamos perfeitos, prometidos a uma civilização de glória e poder. Mas quando apenas uma única alma se corrompe, todos podem ser punidos também.
— Existiam dois grandes magicaes em nosso planeta, Enoque da família Cinesía, capaz de fazer coisas incríveis apenas com o poder de sua mente, e Oris da família Lectros, capaz de criar e controlar qualquer carga de eletricidade. Enoque era o braço direito do rei do núcleo, mas Oris era mais ambicioso, buscava ser maior que qualquer outro ser existente.
— Me parece meio clichê...
— De qualquer forma, ambos lutaram até a morte e então a natureza nos puniu por menosprezar outras espécies. Onde os magicaes morreram nasceu a árvore branca, seu fruto é a única forma de nossa espécie continuar gerando novas vidas. Alguns dizem também que existe a árvore de sangue em algum lugar, uma árvore seca que não dá frutos e serve como um lembrete para garantir que não cometeremos o mesmo erro, mas essa nunca foi vista — respiro fundo. — Agora somos guardiões da Terra e vivemos apenas para deixar o bem e o mal deste planeta em equilíbrio. Somos poucos agora e se não ajudarmos a Terra como iguais, lutando contra a forma física do verdadeiro mal, seremos extintos.
— Vocês vivem apenas para batalhar todos os dias contra o mal que tenta entrar na Terra?
— Você tinha razão. — Ele solta um sorriso esperto. — Não acredito nessa histórinha toda.
Reviro meu olhos e continuo esperando o avião pousar no país que precisamos, sinto saudade de minhas asas, que me levavam para todo e qualquer lugar. Demoramos muito tempo para saber onde o sábio está, e ainda assim não temos certeza. Fico me lembrando do meu povo, o povo que eu estive tão perto de governar... Depois da morte de meus pais, pensei que eu herdaria a coroa do reino do núcleo, mas como sempre, minhas asas e meus cabelos foram um empecilho. Em Tumcae é normal que todos tenham cabelos brancos e asas igualmente brancas, a forma pura de um magicae, que esbanja bondade. Graças às minhas asas cinzas e meus cabelos pretos, alguns acham que sou uma espécie de sujeira que restou em nossa raça após a morte de Oris. Ser filha do rei do núcleo, o maior dos reinos, não me isentou de ser julgada como uma mancha no nosso sangue puro. Às vezes me pergunto se podem estar certos, talvez tenha restado um pouco de maldade mesmo anos depois da grande luta, mas então me lembro de todo o cuidado que meu pai teve para me preparar para o trono, ele não se esforçaria tanto se não confiasse em mim. Espero que meu irmãozinho consiga se dar bem no trono até eu voltar e resolver essa bagunça.
Chegamos à beira de uma montanha, com grama verde e macia por todos os lados, um lugarzinho calmo e completamente inabitado. Caminhamos por longas horas até chegar no topo, onde nos deparamos com uma pequena e simples cabana. Subo os pequenos degraus de madeira velha e bato na porta com cuidado. Um homem muito velho se aproxima e abre a porta que está prestes a se desmontar.
— Preciso de ajuda — peço antes que ele possa sequer falar alguma coisa.
Entramos na casa e ele nos oferece um chá quente. Conto tudo o que aconteceu ao homem: que caí na Terra ainda sem saber como e não consigo voltar para casa. Ele escuta tudo com atenção enquanto Peter, o garoto que me trouxe até aqui, ouve tudo ainda achando que somos loucos. O velho não diz nada, apenas se levanta e mexe em alguns livros antigos, os objetos parecem se folhear sozinhos.
— Sei como mandar você para casa, mas o feitiço levará alguns dias.
Entendo, ele é um dos últimos vivos na família Encantus... Podem encantar qualquer objeto e fazer feitiços específicos. Fico quieta, ainda admirada com a raridade deste poder nos dias de hoje.
Enquanto o feitiço não fica pronto, passo mais tempo com Peter, que mesmo sem entender muito bem toda essa história de magia, tenta ser gentil para eu me sentir menos louca neste planeta. Ele conta histórias sobre a Terra e até mesmo me mostra as coisas que eu jamais veria em Tumcae e, de alguma forma, acabo criando um tipo de carinho por este lugar também.
O sábio me chama e me explica tudo sobre o feitiço, ele é rápido, mas precisa de foco. Ele especifica que preciso deixar claro em minha mente onde desejo estar para que o feitiço cumpra bem o seu papel.
— Só para não haver mais confusões, se cair novamente no portão do globo celestial, mentalize esta cabana e conseguirá voltar para casa mais rápido.
Me despeço dos dois e mentalizo minha casa em Tumcae, e quando abro os olhos é aqui que estou. Posso sentir o peso das minhas asas novamente e quase choro de alegria, meus poderes de calor também retornaram, sinto meu sangue ferver. Estou dentro do meu quarto, ele está exatamente do jeito que eu deixei, corro para a porta e puxo a maçaneta. Dois guardas seguram meu braço, fico sem entender, uso meus poderes de calor para aquecer minha pele, ambos me soltam em gritos ao se queimarem. Tento correr e dou de cara com Érode, meu irmão.
— Finalmente... — dou um suspiro de alívio. — Eles estão loucos maninho, querem me prender.
Seus olhos prateados estão completamente frios, quase sem expressão, sinto uma pontada no peito.
— Maninho, sou eu, estou de volta.
Vejo suas mãos ficarem vermelhas, ele está formando chamas em suas mãos. Minha pele suporta calor, mas mesmo assim estou confusa e dou dois passos para trás. Sinto uma mão pousar em minha testa e desmaio.
Acordo em um calabouço escuro. Faço uma pequena chama se acender na palma da minha mão e ilumino o local úmido e sujo. Esquento as correntes o suficiente para estourarem, ergo-me sentindo um mal estar. Vejo Érode parado em frente à cela do calabouço.
— Agora que você retornou, deixou as coisas mais fáceis. Todos irão acreditar que você realmente seguiu os passos da ganância e saiu de Tumcae em busca de poder.
— O que??? Irmão, do que está falando, somos do mesmo sangue.
— Somos, mas você sempre foi colocada num pedestal pelo papai. Ele sabia que você era diferente, queria que não se sentisse para trás.
— Irmão, por favor, pare com isso.
— Uma pena que agora sua diferença te levará à morte.
Sinto a maldade em seus olhos, seus rosto jovem fica imóvel com um sorriso sarcástico. Tento pensar rápido, olho ao meu redor e tento achar um lugar para escapar. Estendo minhas mãos e lanço chamas negras nas celas, a chama mais potente que um magicae pode criar. Érode não conseguiu esse nível de poder, mas sua pele o suporta. As celas derretem no calor excessivo, vou em direção a ele e tento socar o seu rosto, mas ele segura meu pulso quente. Aplico uma rasteira rápida em seus pés e ele cai, pego um pedaço de madeira do chão e dou uma pancada em sua cabeça, por ora basta.
Depois de atravessar metade do núcleo me escondendo de todos com um capuz, encontro o portão para o limbo. Corro em direção ao globo celestial e rompo a barreira, sinto meu corpo despencar e mentalizo a cabana na montanha. Sinto meu corpo atravessar a cabana.
— O que está fazendo aqui? — o sábio pergunta surpreso. — Podia ter aparecido do lado de fora e não acabando com meu telhado.
Conto para o sábio e para Peter tudo o que aconteceu, que meu irmão me empurrara para a Terra, que pretende me condenar com o apoio de todos usando como justificativa uma traição que não existe. Continuo contando tudo quando uma lança atravessa a janela, ergo as mãos em frente ao meu rosto e fecho os olhos já sentindo a minha morte. Mas quando abro meus olhos, vejo uma camada de gelo a minha frente e a lança presa nela. Sinto minhas mãos gélidas e fico assustada, um soldado de Tumcae está prestes a jogar outra arma quando lanço um espinho de gelo em seu peito, ele cai. O sábio me olha totalmente perplexo.
— Magicaes não podem usar poderes na Terra com exceção de mim — diz o sábio com uma voz rouca e falha.
Fico olhando minhas mãos sem entender. Meu sangue sempre ferveu, sempre pude sentir as faíscas dentro de mim, o dom do fogo habita em mim desde minha infância. Agora sinto meu sangue quase congelar em minhas veias. Os livros do sábio começam a folhear todas as páginas, enquanto o velho tenta olhar alguns rapidamente com os olhos esbugalhados.
— Você precisa voltar para Tumcae.
— Está louco? Estão tentando me matar!
— Acho que pode haver uma solução, você precisa ir até a árvore de sangue, eu preciso saber se estou certo.
— Ninguém nunca viu essa árvore, nem sabemos se realmente existe! — minha voz sai em um tom um pouco exagerado.
— Precisamos ir — o velho começa a revirar sua escrivaninha antiga. – Acho que ainda consigo reaproveitar algumas coisas para o feitiço.
Depois de muita discussão, o velho sábio conseguiu me convencer de que sua teoria pode estar certa, mesmo não revelando qual seria. Acabo concordando, afinal estou sendo caçada e uma hora teria que retornar para casa. Ambos concordamos que se levarmos Peter poderemos ganhar um pouco mais de tempo, os magicaes não matariam um humano, com medo de serem extintos pela natureza.
Rapidamente, estamos em Tumcae e nosso tempo é curto. Vejo alguns guardas vasculhando por todas as partes, precisamos ser discretos.
— O que precisamos fazer?
— Acho que só vamos saber onde está a árvore de sangue se conseguirmos chegar até a árvore branca, ela deve me dar alguma pista.
— Tudo bem... — Tento encontrar um pouco de juízo e fôlego. — Peter precisamos de tempo, fique aqui no castelo e tente distrair eles a todo custo.
— E como nós iremos até a árvore com tantos guardas lá fora? — O sábio parece assustado e excitado ao mesmo tempo.
Fico alguns segundos olhando para os meus pés enquanto penso, quando levando um de meus pés e uma ideia surge.
Depois de uma longa caminhada por baixo do chão, sinto meus pés doerem, mas continuo abrindo caminho com as chamas de minhas mãos. Volto a sentir meu corpo queimar, não há vestígios de gelo, fico aliviada, mas ainda confusa.
— Devemos estar perto... — diz o sábio com um pequeno mapa magicae entre as mãos.
— Che... ga... mos... — minhas cordas vocais falham.
Damos de cara com uma grande árvore cor de vinho, pendurada de cabeça para baixo no solo acima de nossas cabeças.
— EU SABIA! — grita o sábio.
Fico ainda mais perplexa ao ver um fruto cintilante em vermelho vivo em um dos galhos secos da árvore. Um fruto que não deveria existir.
— Você precisa comer o fruto agora!
— Está louco??? Essa é a árvore de sangue, este fruto deve ser tóxico ou sei lá.
O parte do solo acima de nós abre uma cratera ao nosso lado, meu irmão com alguns soldados olham de cima.
— Fique aqui — digo para o sábio enquanto abro minhas asas.
— A traidora retornou! — diz Érode aos seus soldados.
— Essa luta é apenas nossa — minha voz sai seca enquanto meu irmão sorri.
A batalha de fogo dura nos ares por alguns minutos, chamas negras e vermelhas voam entre nós. Até que sinto uma descarga elétrica tocar meu corpo, meus sentidos falham. Caio no chão completamente atordoada enquanto um dos soldados fica satisfeito por ter me abatido. Meu irmão caminha até mim com uma lança coberta por fogo, quando ouço uma voz ao fundo.
A fruta cai ao meu lado, rastejo minha mão completamente fraca para pegá-la e com muita luta consigo dar uma mordida. Érode me olha com pânico nos olhos, junto com todos os outros. Já estamos condenados.
Sinto meu sangue ferver, borbulhar dentro de mim como se quisesse sair, minha pele está quase cedendo com toda a erupção que ocorre dentro do meu corpo. Minha derme queima, parece se rasgar aos poucos, sinto uma dor horrível em todo o corpo e principalmente em meu rosto. Não consigo gritar, estou cada vez mais fraca, meu corpo está prestes a explodir.
De repente... frio total.
Sinto as forças do meu corpo voltarem com tudo, meus sentidos aflorados e minha pele congelada, quase restaurada. Abro minhas asas e voo para cima, todos me olham boquiabertos. Possuo gelo nas mãos, garras de gelo se formaram, faço um espelho de gelo em minha palma da mão e olho para mim mesma. Minhas asas agora estão pretas com meu cabelo totalmente branco e meus olhos estão prateados. Possuo algumas linhas de gelo sobre o rosto além de uma crosta de gelo da testa até o início do cabelo, que está todo para trás. Agora sinto minha pele congelada, mas meu sangue fervendo, fecho meus olhos para sentir melhor.
— EU SABIA! — grita o sábio do chão. — A árvore não é a garantia de que o erro não se repetirá, a garantia é você.