Conversas feitas de quem tem o saber e a arte nas suas mãos
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Conversas feitas de quem tem o saber e a arte nas suas mãos

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Aveloso
Aveloso é uma aldeia feita de casas, pessoas, perdida no tempo e no mapa que não lhe dá importância suficiente para que o seu nome venha lá escrito.
Por entre o ziguezague das estradas da serra do São Macário, lá nos deparamos com Aveloso e uma pequena placa envelhecida como as pessoas que por ali deambulam, a marcar a sua existência.
São as rugas nos sorrisos das pessoas que assinalam a passagem do tempo, porque no sobe e desce das ruas, muito dos hábitos, dos costumes se mantêm inalterados.
Ali sinto-me na eterna infância. A caminho dos trinta continuo a ser chamado de menino por quem me vê. Nem a barba mais cerrada e o rosto mais marcado evita o tal tratamento de quem me conhece desde sempre.
Subo até bem lá ao alto de onde vislumbro a Igreja, o Cemitério e fico aprisionado entre montes e vales que me rodeiam. É aí que vivo quando lá vou, na rua do Cimo do Povo. A simplicidade dos nomes das ruas têm correspondência na simplicidade de quem lá vive.
O Cimo do Povo fica um pouco mais acima do Largo do Soito, o centro deste lugar onde as pessoas têm dia e hora marcada para a conversa do “serão” num banco que já foi verde. Hoje é apenas madeira mais escura, porque a tinta já dali abalou há uns anos.
No Cimo do Povo tenho uma casa de memórias, um refúgio de tudo e todos onde rejuvenesço a cada visita. Quando passo o portão, olho para a cameleira que conheci mais baixa que eu. Hoje é imponente, veste-se de cores na primavera e olha-me de cima para baixo com altivez.
As videiras estão cada vez mais retorcidas, todos os anos estendem os seus braços um pouco mais longe em busca da liberdade de quem está consignado a um quintal e procura o lado de fora.
O pessegueiro lá em baixo cresce todos os anos, e é só estender a mão quando a fome aperta. É tal a abundância que metade dos seus pêssegos servem de alimento às formigas que ficam cá em baixo à espera de uma rajada de vento para poderem fazer um banquete.
No quintal do andar de baixo fica a loja. Aqui não se vende nem se compra nada. É apenas o antigo lugar que um dia foi chão que esmagou uvas, hoje é depósito de tudo o que não está a uso: de enxadas, foices, mangualde, ancinhos que já tiveram melhores dias.
É o lugar mais fresco da casa no verão para onde os meus avós fogem quando o calor aperta.
Lá do alto vejo Aveloso no seu esplendor: casas e pessoas. Embora as pessoas tenham tendência a desaparecer e as casas a apodrecer.
Tento sempre absorver tudo como uma fotografia com receio de que um dia tudo desapareça.
A morte vive aqui perto e de vez em quando chama mais um à sua presença. O sino da Igreja ecoa quando isso acontece, e o seu toque torna-se mais frequente no inverno.
Nos últimos anos cada vez mais pessoas têm mudado de morada para aquela que será a sua última.
O silêncio começa a ser ensurdecedor à medida que as vidas são ceifadas, e as conversas deixam de ser conversas para passarem a ser monólogos.
Mais uma ida a Aveloso e menos vida. Visito o lugar, reconstruo as memórias e os diálogos que ficaram no passado, na esperança de voltar a torná-lo presente. Mas não acontece.
Este fim-de-semana foi a vez do António, do meu primo Antório. Mais uma pessoa que vai, e menos uma pessoa para dar a conhecer esta terra que poucos conhecem, mas que todos deviam saber que existe.