Confessional Nove
Um dia, me perguntaram se eu me sentia mais mar ou lagoa. Eu respondi “nenhum, eu me sinto mangue”. Apesar de ter provocado uma risada, eu falava sério. O mangue acumula do mar o que é detrito e, dali, nasce vida. Uma série de plantas e animais vive no mangue, mas conscientes da condição do lugar. Eu sinto que muito entulho foi depositado em mim ao longo dos anos. Inicialmente, para sobreviver, hoje, como consequência do que resta, nasce arte. Não é simples ser mangue. Detrito demais mata a vida ali existente, detrito de menos também. Eu não rumino o mal que me foi feito, mas reconheço que, por meio dele, muita coisa foi possível. Poemas, colagens, reflexões, planos, necessidades… Tudo nascido do mangue da minha alma, do meu corpo, de mim. A minha vida me fez mangue e caranguejo. E, como caranguejo, andando de lado, meio confuso pra quem olha de fora, mas fazendo todo o sentido para mim, eu me movo no mundo. Mas em estado de mangue, eu permaneço. Não agradeço quem me feriu e me fez criar a carapaça, a vida que vivo hoje, mas reconheço a importância. Ser caranguejo é reconhecer o mangue como casa, mas também reconhecer a dificuldade de locomoção. O mangue não se adapta a ninguém, somente à própria condição. Ele surge do rejeito e se expande. E eu, caranguejo, pequena, me vejo acolhida no lar, o mangue, que sou eu também. Estamos interligados. Estamos respirando. Estamos vivos.
- 1º de março de 2026





















