"Merda! Droga! Inferno!" - Esbravejei deitada na cama no meu quarto escuro, acho que estou com raiva. Minha raiva Ă© um sinal claro de que algo estĂĄ prestes a dar errado, outra vez. Mais uma vez. De novo e de novo. Estou cansada de tudo dar errado, por isso estou sozinha hĂĄ anos. JĂĄ havia esquecido quem eu me tornava quando sentia algo assim, mas agora acabei de lembrar o motivo de estar sozinha. Eu fico louca, ansiosa e com um medo extremo de ser abandonada. E vocĂȘ fez o que eu mais temia: me abandonou em silĂȘncio. Quando alguĂ©m vai embora, geralmente avisa, e a dor nĂŁo me pega de surpresa. Mas vocĂȘ fez igual ao resto das pessoas: foi embora. A diferença Ă© que foi em silĂȘncio, e eu achei isso uma puta covardia. NĂŁo aguento mais falar de vocĂȘ, mas esse Ă© peso que tenho sentido hĂĄ uns dias, porque nĂŁo consigo entender sua incoerĂȘncia desconcertante. Bem, eu estava em paz quando vocĂȘ chegou, e vocĂȘ veio sĂł bagunçar o que demorei anos arrumando com muito cuidado. Eu confiei em vocĂȘ porque jĂĄ te conhecia, afinal, Ă©ramos amigos. Mas vocĂȘ foi embora, e eu precisei ser dura com vocĂȘ e comigo. Claro, fui extremamente mais dura comigo, porque me culpo a todo momento por vocĂȘ ter ido embora, mesmo que eu nĂŁo saiba o motivo, se Ă© que existe um motivo. Talvez nĂŁo seja sobre mim, talvez isso seja sobre vocĂȘ e suas emoçÔes, mas sinceramente, agora eu realmente estou pouco me fodendo pras suas emoçÔes. Eu nĂŁo quero saber se vocĂȘ estĂĄ feliz ou triste, eu nĂŁo quero saber se vocĂȘ quebrou um braço ou se alguĂ©m que vocĂȘ ama morreu. Estou pensando em mim, nessa ferida imensa que vocĂȘ abriu, e estou tentando limpar o sangue que tĂĄ escorrendo pelo chĂŁo, porque ninguĂ©m pode saber. Te escrevo daqui, da minha escuridĂŁo, com tamanha tristeza que nĂŁo sei se as palavras ainda fazem sentido. Hoje te disse tanta coisa sem pensar, e sei que te afastou ainda mais, esse Ă© um mecanismo de defesa antigo e infalĂvel. Todos vĂŁo embora quando digo coisas sem pensar, atĂ© quem eu nĂŁo imaginava que iria. Eu poderia ter sĂł pedido pra vocĂȘ ficar, mas eu precisava desse drama todo pra me sentir viva de novo, e vocĂȘ me devolveu isso. De algum modo, no meio dessa dor, sou grata pela forma que vocĂȘ me trouxe de volta pra esse lugar que jĂĄ lutei tanto pra sair, mas sempre acabo voltando, porque me acostumei tanto, se tornou cĂŽmodo, e Ă© uma parte de mim que me recuso a lembrar que ainda existe. Essa Ă© minha zona de conforto: A tristeza que nĂŁo vai embora, meu rosto triste o tempo todo, mĂșsicas que me deprimem ainda mais, e saudade raivosa. Sinto raiva de mim, de novo, talvez um pouco dessa saudade raivosa seja sĂł saudade de ficar em paz outra vez. Odeio ter te desejado feliz aniversĂĄrio, foi isso que me trouxe atĂ© aqui.