Hoje encontramos no mercado uma sĂ©rie de produtos desprovidos de suas propriedades malignas: cafĂ© sem cafeĂna, creme de leite sem gordura, cerveja sem ĂĄlcool... E a lista nĂŁo tem fim: o que dizer do sexo virtual, o sexo sem sexo; da doutrina de Colin Powell da guerra sem baixas (do nosso lado, Ă© claro), uma guerra sem guerra; da redefinição contemporĂąnea da polĂtica como a arte da administração competente, ou seja, a polĂtica sem polĂtica; ou mesmo do multiculturalismo tolerante de nossos dias, a experiĂȘncia do Outro sem sua Alteridade (o Outro idealizado que tem danças fascinantes e uma abordagem holĂstica ecologicamente sadia da realidade, enquanto prĂĄticas como o espancamento das mulheres ficam ocultas...)? A Realidade Virtual simplesmente generaliza esse processo de oferecer um produto esvaziado de sua substĂąncia: oferece a prĂłpria realidade esvaziada de sua substĂąncia, do nĂșcleo duro e resistente do Real â assim como o cafĂ© descafeinado tem o aroma e o gosto do cafĂ© de verdade sem ser o cafĂ© de verdade, a Realidade Virtual Ă© sentida como a realidade sem o ser. Mas o que acontece no final desse processo de virtualização Ă© que começamos a sentir a prĂłpria ârealidade realâ como uma entidade virtual. Para a grande maioria do pĂșblico, as explosĂ”es do WTC aconteceram na tela dos televisores, e a imagem exaustivamente repetida das pessoas correndo aterrorizadas em direção Ă s cĂąmeras seguidas pela nuvem de poeira da torre derrubada foi enquadrada de forma a lembrar as tomadas espetaculares dos filmes de catĂĄstrofe, um efeito especial que superou todos os outros, pois â como bem sabia Jeremy Bentham â a realidade Ă© a melhor aparĂȘncia de si mesma.