Bom dia
This is for @nymphellar , since I was writing this little drabble that got out of hand for Vpop AU and, well, this happened.
You could read, but it’s all in Portuguese. You’re invited to come and ask me what this AU is about tho :D
A melodia triste do piano nunca deixava de encher a casa quando era tocada. Era linda, mas raro de não fazer um dos moradores chorar logo cedo.
A vida era feita com notas das teclas brancas e pretas, felizes e triste. Aquela música soava como teclas pretas envolvidas em veludo branco, suas notas dançando no ar, trazendo uma melancolia reconfortante, uma tristeza sorridente, uma felicidade negra.
“Papai está tocando piano.” Nila sabia o que a irmã queria dizer; não o óbvio, Papai está tocando piano, mas as entrelinhas. Papai está mal. Papai está tendo um dos seus dias ruins. Os remédios do Pai não vão bastar hoje.
A depressão do Pai o atacou de noite mais do que ele pôde lutar contra.
“Eu sei.” A mão do irmão surgiu em seu campo de visão, pálida, frágil. “Acha que é minha culpa?”
“Pelo saesang? Por que seria sua culpa? É culpa do cara lá.” A voz de cima respondeu, seca pela noite. “... o Pai tá levando uma surra por causa daquilo.”
As notas aceleraram. Ele não cantava junto.
Sem voz, a música era ainda mais teclas negras.
Era horrível ver seu pai daquele jeito. Ela só agradecia que ele tinha levantado da cama, guardado um pouco de forças para se mover, para buscar o piano, sua âncora quando seu monstro acordava e lhe esvaziava; agradecia que ela ouvia a música.
Significava que ele estava lutando.
Aquela música, já ouvira a letra tantas vezes que poderia recitá-la mesmo sem a melodia.
O piano marrom que me guiou
Você me inspirava
Eu te desejava
E ela também. Seu pai era seu piano.
Melancolia depressiva, nostálgica, o veludo branco apagava sua realidade e as teclas pretas lhe traziam a memória que fez do homem que tocava o piano ser o seu guia, sua inspiração.
Porque quem o escutava, as pessoas que ele conseguia alcançar com sua música, fosse em STRQ fosse como rapper solo, nunca mais se esqueciam dele. E várias vezes os pararam na rua porque “aquele é o rapper de STRQ!”, “aquele é Qrow Branwen!”, e corriam para pedir um autógrafo, tirar uma selfie.
Em uma delas, ela estava ali e ela viu.
A garota usava uma blusa do próprio grupo e parecia ter perdido o chão quando viu o homem analisando verduras. Falava rápido, emocionada, pediu o autógrafo, e assim que seu pai pediu um pedaço de papel…
“... Pode assinar no meu braço?” E lágrimas escorriam pelo rosto dela. “Por favor.” E ela mostrou o pulso.
Parecia que havia algo nos pulsos dela que fez Qrow parar, os ombros se erguerem de surpresa contida. Ele a segurou como se fosse a coisa mais delicada do mundo e sussurrava algo em seu ouvido que Nila nunca soube. Depois de acalmar a menina e lhe dar dois autógrafos (um no braço e outro no papel, afinal, a fã precisaria tomar banho eventualmente) eles foram embora.
“Papai, por que aquela menina te parou?” Ela perguntou com a inocência de uma criança; só estavam os dois no carro. Ele sorriu; embora os lábios estivessem mais pressionados juntos do que curvados, ela via os olhos dele brilhando, de emoção, de choro.
“Sabe as músicas que eu faço? Ela era fã. Uma grande fã.”
“E por que ela estava chorando?”
… E foi aí que ele mesmo derramou uma só lágrima, uma única, com o sorriso mais incrível e conflitado que a menina pequena já viu.
“Porque eu salvei a vida dela.”
Claro que demorou anos até Nila entender a importância de todo aquele momento. Aquela garota se cortava, provavelmente tinha depressão e talvez até tinha tentado se matar. Mas as músicas de seu pai a ajudaram, ancoraram-a, salvaram-na, como seu pai mesmo havia dito.
Porque ele entendia o que ela sentia e ele lutava, todo dia, para se manter de pé e viver. Era sobre isso que muitos dos seus raps falavam, e era isso que ele a inspirou a fazer. E Qrow chorou porque, às vezes, era fácil de se esquecer daquilo, era fácil de se esquecer que, para algumas pessoas, suas músicas se tornavam tudo. Se tornavam uma fonte de força.
A Nila pequena não entendeu aquilo, mas soube que queria salvar pessoas também. Foi a primeira vez que sentiu um impulso para se tornar cantora, rapper, o que fosse, mas uma artista como ele foi.
Não importa onde eu esteja,
Você sempre defenderá esse lugar
E ela também escutava as músicas de seu pai, e cada uma era tão poderosa e íntima que ela poderia escutá-las o dia inteiro. Antes de ouvir os raps dele, ela sabia que queria ser artista. Depois, ela soube que queria ser a rapper. E ele a ensinou, ensinou cada um dos conceitos que ela deveria saber, cada um dos treinos que ajudaria, e quando ele achou que ela estava pronta, falou para ela se virar sozinha.
Eu sei que não vou conseguir
E quando eu quis desistir, você disse
Me escute, eu sei que você vai.
E quando ela teve medo, ele também disse que ela conseguiria.
Assim como o piano, foi ele que a guiou no caminho da vida e da música; foi ele que a inspirou a cantar e a fazer rap, a ser uma idol, uma estrela; e, em algum momento, ela não desejou mais ser como ele. Ela desejou que ele se orgulhasse dela, da sua filha líder.
Você esteve firmemente do meu lado
Mesmo quando eu não queria
Você não tinha que dizer nada
Não solte a minha mão e eu nunca mais soltarei a sua
E ela pulou da cama. Cantando.
Meu nascimento e morte
Você que viu tudo.
“Onde você tá indo?” Skarlett perguntou do chão, vendo a irmã caminhar até a porta. “Ei, sua doida.”
“Segura essa maluca, Skar, por favor?” Mas ela escapou e saiu para a sala.
“No canto da minha memória, um piano marrom toma espaço” Ele ouviu a porta se abrir, ele ouviu a voz da filha, e ela sentiu o coração inchar e os olhos encherem de lágrimas ao ver a postura cansada dele no piano. “No canto da sala, na casa da minha infância, o piano marrom fica de um lado.”
Ele se virou no banco acolchoado, sorrindo. Um sorriso cansado.
“Oi, filha. Dormiu bem?” E ela o abraçou. Sentiu a mão grossa fazendo carinho no meio de suas costas pelo tecido macio do pijama.
“Papai…” E ela só soltou seu pai para pegar as mãos dele e olhá-las, roxas, machucadas. “Obrigada por ser meu piano.”
Ele entendeu. E chorou.
















