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estufa dos sentimentos
for @alekmoretti
A relação entre ela e Aleksander sempre foi um daqueles laços difíceis de explicar. Começou com gatos, cavalos, cães e casinhas improvisadas num pedaço de terra que ainda estava se preparando para receber tantos animais necessitados. Aslihan tinha se aproximado movida por admiração — talvez a única vez que sentira algo assim por um homem. Não pelo charme, não pelo poder, mas pelo gesto. Ele acolhia o que o mundo descartava, e ela, tão cheia de fúria e ideais, se sentiu vista ali. E então viraram algo estranho: duas criaturas de mundos diferentes que se entendiam.
Até que ela cometeu um erro. Um erro feio. Tão feio que ainda doía pensar. E o nome do erro era Vincenzo Moretti. A culpa a corroía até hoje, e nem ela sabia dizer o que tinha sido pior: o caso com aquele homem desprezível ou ter se perdido de Aleksander no processo. Porque quando ela precisou, quando estava atrás das grades e tudo era concreto, silêncio e remédio pra dormir, ele não apareceu. Nem uma vez. E por mais que ela estivesse se tratando agora, tomando comprimidos, falando com a terapeuta, bebendo aqueles chás estranhos da Zafira… ainda não sabia como perdoar isso. Quer dizer, ele a havia abandonado mesmo saber do seu erro, imagina se descobrisse? Talvez fosse mesmo melhor se acostumar a não tê-lo em sua vida.
Tinha ido à Fiera dei Sensi mais por curiosidade do que por real vontade de socializar. Era um daqueles eventos que pareciam bobos demais até que você se via parada entre flores e lembranças, com o peito apertado. A Estufa dos Sentimentos tinha todo tipo de cheiro e sentimento. Lavanda, jasmim, camélia… nomes bonitos demais para sentimentos tão confusos. Aslihan andava sozinha ultimamente, por escolha. Era mais fácil assim: não tinha que responder perguntas, não precisava fingir que estava tudo bem. Mas ali, entre flores e véus esvoaçantes, deu de cara com Aleksander. Ele parecia deslocado no meio daquele cenário sensível, e por isso mesmo chamou atenção. O coração dela bateu mais forte, não de saudade — Aslihan ainda não sabia sentir saudade sem raiva. Mas havia algo ali. Algo que a fez não virar as costas.
Respirou fundo. Estava cansada de fugir de conversas difíceis. E se aquela atividada da feira era mesmo sobre sentimentos, talvez estivesse na hora de parar de enterrá-los. — Olha só… quem diria. — disse, a voz saindo mais firme do que esperava. — Você, no meio das flores. I did not see that coming. — Aproximou-se com calma, os dedos deslizando pelas pétalas das flores sem puxá-las do lugar. A ironia era sutil — não queria atacá-lo. Mas precisava manter alguma defesa. Ainda não sabia se ele merecia o perdão que carregava no aroma daquela flor. — Tá procurando alguma coisa específica? Ou só esperando que alguma planta resolva suas pendências emocionais por você? Eu meio que estou aqui por isso. — atacou e se fez vulnerável ao mesmo tempo. Naquela dualidade de intenções que ela fazia com maestria. E, pela primeira vez em muito tempo, sustentou o olhar. Não como antes, cheia de mágoa e orgulho. Mas como quem finalmente decidiu abrir a janela, mesmo com medo do vento.
@khdpontos













