"PROTESTANTS - The Faith That Made The Modern World", de Alec Ryrie, 2017
"PROTESTANTS - The Faith That Made The Modern World", de Alec Ryrie, 2017
- Os protestantes são lutadores e amantes: vão discutir sobre tudo e mais alguma coisa e podem ser encontrados nos lados opostos das batalhas; mas o coração da sua fé é uma história pessoal de amor com Deus. Sem eles o mundo moderno não pode ser entendido (e o mundo não seria moderno!), apesar de nunca terem tido como missão a modernização do mundo, apenas a sua salvação.
- Há três razões fundamentais para que essa modernização do mundo tenha acontecido à custa dos protestantes:
1) livre inquérito - a única coisa que pode constranger a liberdade individual é a Bíblia e a consciência. Daí resulta não a idealização da liberdade de expressão mas a disciplina do argumento.
2) Neste sentido, apesar de não ser um valor em si, onde o protestantismo está, está também uma tendência para a democracia.
3) Uma perspectiva apolítica - a política mais definida dos protestantes é serem deixados em paz, havendo lugar para o respeito à autoridade mas, ao mesmo tempo, uma desconfiança imensa em relação ao excesso do seu poder. Vive-se numa tensão entre escolher os líderes e considerar que a liderança deles sobre nós deve ser limitada (não indo onde Weber foi, Ryrie considera que, por causa disto, acaba por existir um favorecimento consequente da liberdade dos mercados). Tudo isto combina com o temperamento irrequieto dos protestantes (paz e consenso não combina com eles).
- Este livro é mais sobre protestantes do que sobre protestantismo. Usa o termo não tanto no seu detalhe teológico mas na sua acepção genealógica (daí que até Anabaptistas, Unitaristas e Testemunhas de Jeová serem incluídos).
- Ryrie crê que o que une protestantes não é tanto uma doutrina clara e estável da autoridade das Escrituras mas mais "uma experiência da graça de Deus" - mais o amor do que a luta. Em todas as gerações, um verdadeiro protestante sente que está a ler a Bíblia pela primeira vez.
- Ryrie admite que sendo um pregador leigo da Igreja de Inglaterra, portanto, um protestante, não escreve o livro para persuadir alguém à mesma fé mas para demonstrar como esta tradição modernizou o nosso mundo.
- O primeiro capítulo chama-se "Luther And The Fanatics".
- Lutero despoletou uma guerra que não pretendia despoletar, que criou um mundo novo. Essa confronto foi com ima Igreja medieval com: demasiado dinheiro (a pobreza idealizada e a acumulação de bens chocavam), demasiado poder (um alemão a malhar na cobiça italiana era uma figura atraente) e uma dificuldade de coerência nos seus princípios (o apreciado regresso às fontes mostrava um abismos com as rotinas eclesiásticas). Lutero, ao contrário de Erasmo, que ficava sempre no lado certo dos conflitos, não teve como escapar (Erasmo, com razão, alcunhava Lutero de "Doctor Hyperbolicus", rei do exagero).
- A fé de Lutero era sobretudo das entranhas e, nesse sentido, é irresistível para a modernidade que involuntariamente provocou. Mais do que uma teologia, trazia um romance com Deus. Esse romance era tão ou mais visível nos desamores, consagrando o paradoxo como fundamental no protestantismo.
- Lutero torna-se uma figura pública em 1517, com as teses, menos porque pregava uma salvação gratuita, mas mais porque tornava as práticas financeiras do seu Arcebispo ofensivas. Lutero sabia escrever e escrevia como um street fighter. As analogias eram fortes e os paradoxos irresistíveis. Em menos de nada é responsável por um quinto do que se publica na Alemanha e ainda está para nascer um escritor mais produtivo - "todos os dias choviam escritos de Lutero".
- Em Worms, com uma teimosia desarmante, Lutero escolhe a sua posição pessoal sobre a suposta direcção da Igreja pelo Espírito Santo. Nasce uma nova maneira de fazer teologia. Mas se a consciência pessoal de torna prioritária, como combinar consciências diferentes? Não era uma receita para o fracasso futuro? Há quem responda invertendo a pergunta: como pode haver cristianismo sem que a consciência pessoal não seja o essencial? Lutero fazia da consciência com a palavra de Deus o vínculo fundamental. Que a Bíblia fosse valorizada, tudo bem; que ela fosse valorizada acima de qualquer coisa é que foi a novidade.
- A valorização de Lutero da Bíblia pode parecer frequentemente pouco ortodoxa. É menos o caso de tudo na Bíblia ser essencial, e mais o caso de nada que não esteja na Bíblia possa ser essencial. É no território da Bíblia que todas as lutas protestantes se travam. Três ramos nascem: o de Lutero, que junta radicalidade espiritual com conservadorismo social; o de Zwingli; e o dos extremistas anabaptistas, impacientes com o facto de Lutero não ir mais longe (curiosamente, os anabaptistas acabam por defender uma posição liberal em relação às Escrituras, em que elas não dependem de elas mesmo mas da luz interior que é suscitada no leitor).
- A liberdade nas Escrituras que Lutero pregou foi além do que ele desejou, e esta é a sua derrota e a sua glória.
- O segundo capítulo chama-se "Protectors And Tyrants".
- Lutero e Henrique VIII, semelhantes em gordura e teimosia, representando a difícil relação entre os reformadores e os políticos. A Reforma foi tanto uma ameaça política como uma oportunidade.
- O assunto da fé e da política era antigo na Igreja mas a Reforma veio traçar uma maior distinção entre eles, beneficiando governos mais seculares. Deveria ser a Igreja a governar a Igreja ou isso dizia respeito aos princípes?
- Henrique VIII vem a aproveitar a Reforma como dinamarqueses e suecos, mesmo que a início lhe fosse hostil. O interesseiro Henrique foi mais longe do que outros (um terço do território inglês passou-lhe para as mãos na dissolução dos mosteiros, por exemplo), não disfarçando a sua inépcia teológica (mesmo que a sua ambição não o impedisse de querer a quadratura do círculo, usando independência da Igreja quando lhe apetecia mas continuando fã de velhas tradições romanas como a missa). Inglaterra viveu as consequências de uma Reforma iniciada astutamente, numa descendência de reis violentos nas suas preferências religiosas.
- Lutero traz a teologia dos dois reinos - o secular e o de Deus, apesar de mais tarde os príncipes poderem definir a religião dos seus súbditos. Os Anabaptistas vão mais longe em dois extremos: ou os cristãos não devem ter nada a ver com este século (a tradição pacifista), ou devem usá-lo para impôr os fins religiosos (com os sangrentos resultados em Munster). Daí que se tenha procurado a Reforma Magisterial, para espantar o medo dos excessos. Os Calvinistas seguem esta teologia mas com algumas distinções: o reino deste mundo deveria colaborar com a da Igreja em termos de ajuda aos pobres, educação, paz, ordem e reforço à reforma eclesiástica. É sobretudo na Suiça que se procurará este relação integrada, onde, por outro lado, a Igreja era livre para impor a sua disciplina aos seus membros, independentemente da posição política que ocupassem. Nesse sentido, a experiência presbiteriana da Escócia é importante, onde sendo o poder real reconhecido, o rei como membro de igreja era da mesma importância que qualquer outro cidadão - "calvinist discipline worked because of widespread consent". O poder supremo da Igreja era o da excomunhão. Esta não era uma experiência teocrática mas de subsistência da Igreja em estados eventualmente hostis.
- Na prática, os protestantes podiam obedecer aos seus líderes à luz da Bíblia, como, à luz da Bíblia podiam revoltar-se contra eles.
- O terceiro capítulo chama-se "The Failure Of Calvinism" e apresenta o calvinismo como a espécie de terceira via que tentou unificar e ordenar o protestantismo como Lutero e Zwigli não tinham conseguido a partir do seu choque acerca da Ceia do Senhor (nem a boa vontade de Bucer com a Concórdia de Wittenberg de 1536). Neste sentido, o calvinismo dá seguimento a um temperamento mais erasmiano de sistematização teológica que se sobreponha aos exageros naturais de Lutero (como Zwigli inspirava).
- "Protestantism was born in conflict, not only with the rest of the world, but with itself."
- Onde Lutero tinha a exuberância da simplificação, Calvino tinha o rigor da sistematização. Quando Calvino escreve as Institutas, não só quer sossegar o Rei de França que o protestantismo não é fanático, como quer unificar o protestantismo, por exemplo, explicando que a polémica da Eucaristia não foi bem enquadrada (o que interessa não é tanto o que acontece fisicamente nos elementos mas o que acontece espiritualmente nos participantes). A ambição religiosa de Calvino é imensa - ele consegue o Consenso de Zurique (com os Zwinglianos) em 1549, mas o luteranos não suportarão a sua condescendência (já se dividiam em duas linhas, os Filipistas, pragmaticamente políticos, com Melanchthon, e o Genésio-Luteranos, idealistas e teologicamente com o mesmo temperamento teimoso do fundador).
- As fortes divisões entre suiços e alemães não eram necessariamente a de outros protestantes, como os polacos, holandeses e até britânicos (Cranmer convidará Melanchthon, Calvino e Bullinger para um encontro inglês que não chega a acontecer).
- Se, por um lado, era fácil os católicos caricaturarem os protestantes como sectaristas até entre si, por outro, os próprios protestantes mostravam a mesma vontade de evitar o extremismo claramente fora dos limites da ortodoxia comum com Roma: também é neste contexto que se entende a morte de Servetus, negador da Trindade, entre outras doutrinas tradicionais, na Genebra de Calvino. Afinal, o protestantismo não olhava para si mesmo como uma possibilidade de anarquia social e política.
- O mais ecuménico a que se chegou foi quando os calvinistas se reunem para dissipar os remonstrantes, a primeira manifestação de arminianismo: os Cânones de Dordt, em 1618 e 1619, concentram-se sobretudo na questão da predestinação (evitada no detalhe por luteranos e até no início por Calvino) como meio de afirmação fundamental da fé Reformada. Ironicamente, foi no calvinismo que se incubou grande parte do anti-trinitarianismo como os socinianos e, mais tarde, os unitaristas.
- O quarto capítulo chama-se "Heretics, Martyrs and Witches". "Protestantism was born in the fear and hope of bloodshed". No início, a violência tornava os protestantes vítimas, e portanto bons candidatos ao desejado martírio, dando-lhes uma postura defensiva durante cerca de dois séculos. Mas mais tarde, os protestantes acabam por pagar com a mesma moeda, exercendo violência sobre os católicos. A alternativa virá mais tarde, com o abraçar da ideia de coexistência. "Protestants learned to die, to kill, and under some circumstances, not to kill".
- Do lado oposto ao martírio, está a heresia. O conceito de heresia vem da ideia de escolher: a pessoa rejeita a autoridade da Igreja para vincar a sua (é mais uma ofensa moral do que intelectual). Na Europa Medieval a heresia era um crime público. A sua punição era pública e simbólica: as chamas significavam o Inferno que era a realidade seguinte. Num processo de heresia o desejável era o arrependimento até porque o argumento em causa era o cuidado pastoral das almas. E durante séculos funcionou. Com o próprio exemplo de Lutero, as coisas mudaram: não só a heresia era abraçada se o que estivesse em causa fosse uma autoridade enganada acerca das Escrituras, como a leva de novos heréticos não eram loucos mas letrados em teologia. Quanto mais se sofresse sob a acusação de heresia, mais da cruz se provava com um mundo hostil, preferivelmente guiado por Papas que apenas continuavam o mau exemplo dos Imperadores Romanos. "The popularity of martyr stories shows how much Protestants saw the world in apocalyptic terms".
- O catolicismo reagiu com robustez teológica, na Contra-Reforma, e com robustez política, através da repressão política. O caso francês, com o Massacre do Dia de São Bartolomeu, após um crescimento notável do protestantismo em cidades (Paris e não só) e nas elites, é um exemplo. O Édito de Nantes, de 1598, que concedia alguma liberdade religiosa, não sobreviveu além de 1685. A Holanda, por outro lado, ficou com o norte protestante e o sul católico.
- Apesar de além de a Inglaterra nenhum outro outro estado protestante tratar o catolicismo como crime capital, os católicos ficavam vulneráveis. Já com os Anabaptistas era diferente: a sua crença não era vista como herética mas como blasfema, e a blasfémia era um crime civil, não religioso. Logo, merecedor de pena capital.
- A ideia de tolerância tem uma origem filosófica, com homens como Sebastião Castélio (que censurou Calvino na morte de Servetus) que defendiam que matar alguém não é defender uma doutrina mas simplesmente matar alguém, e outra origem na própria experiência da perseguição. Por exemplo, na Holanda a liberdade de consciência sob a Igreja Reformada encontrou lar num ambiente que lucrava com todo o tipo de investimento, viesse ele de que tradição religiosa fosse.
- Apesar de os católicos matarem mais bruxas do que os protestantes, o zelo dos últimos também era grande, vindo especialmente do desamor com os anabaptistas, comparados com as práticas feiticeiras pelos seus ideais de iluminação interior que os emanciparia de tradições religiosas tão primárias como andar vestido (criam que voltavam ao estado de Adão antes da queda), e com a prática do baptismo de adultos (que proporcionava mais seres humanos sobre os quais não havia sido exorcizado o Diabo no ritual do baptismo).
- "The combination of implacable fervour, conscientious stubbornness, and willingness suddenly to abandon and to repent of ther old views is one of Protestants' most distinctive hallmarks".
- O quinto capítulo chama-se "The English Maelstrom" e trata do caso peculiar do protestantismo inglês, com uma expressão que virá a ser chamada de anglicanismo, um ponto de cruzamento entre os desejo ardente da ortodoxia calvinista e o apelo estético dos rituais romanos. Tudo isto é condimentado pela ascensão do papel da nova classe social dos comerciantes, mercadores, advogados e outros no Século XVII, vitaminados para argumentarem mais pela sua liberdade face o poder real.
- A história é cheia de curvas e contra-curvas, exprimindo os dois pontos de tensão referidos na Inglaterra. Por exemplo, os anos do Bispo William Laud entre 1628 e 33, caracterizam-se por um tipo de contra-revolução de pendor mais romanizante. Resistir, por exemplo, ao Book of Common Prayer era para muitos uma acção de esclarecimento religioso e independência patriótica (os Covenanters estavam do lado do Rei Carlos mas denunciavam este escandaloso deslize papista). Carlos tenta usar o parlamento como seu partido e os puritanos fazem-lhe oposição.
- Também é neste contexto que a Confissão de Westminster se fará em 1646, procurando claridade teológica para que haja a muito desejada estabilidade política. Os calvinistas apostam tudo nela mas o parlamento quer controlá-la. O exército entrará ao barulho (com bastantes radicais dentro de si) e os independentes começam a achar que não é má ideia haver real liberdade de consciência religiosa.
- Também é neste contexto que emergirão nvos grupos comos os Baptistas, provando que "a velha barreira entre protestantes magisteriais e radicais tinha colapsado". Já que o projecto de uma Igreja Nacional se provava cada vez menos concretizável, que tal reconhecer o direito de cada congregação se organizar segundo os seus próprios princípios, que já não obedeciam mais às separações originais do início da Reforma? Os Baptistas vão espalhar-se pelo planeta todo tornando-se um dos maiores grupos protestantes.
- Aparecerão os Levelers defendendo a democracia representativa, descontestes com o uso que os presbiterianos lhe davam. Em contínua reviravolta, presbiterianos e roalistas unem-se para resistir ao crescimento do radicalismo dentro do exército. Cromwell, liderando o exército, defenderá tolerância religiosa.
- Em termos mais especificamente religiosos, movimentos radicais como os Ranters vão desenvolver-se, abandonando a ortodoxia teológica para enfatizar uma experiência supostamente mais mística de unidade com o Ser último. Seguir-se-ão Seekers, ansiosos pela expressão do Espírito em moldes mais socialmente revolucionários. Ainda mais os Quakers, preconizando a luz interior que guiava além do cânone bíblico, acalentando tantos a uma busca por essa experiência completamente democratizadora das comunidades (e, entretanto, como muita mistura adamita à mistura).
- Ryrie diz que, em rigor, só se pode falar do nascimento do Anglicanismo depois do nascimento anterior de toda esta turbulência, como projecto desejoso de harmonia religiosa, civil e nacional. Em 1660, depois de tanta guerra, o Book Of Common Prayer regressa já sem parecer uma ameaça romanista.
- A erupção de criatividade religiosa inglesa nas décadas de 1640 e 50 foi vital para, no meio da confusão, dar ao Protestantismo o vigor da sua diversidade.
- O sexto capítulo chama-se "From the Waters of Babylon to a City on a Hill".
- A viagem do Mayflower oferece uma oportunidade de reavivar a linguagem bíblica da peregrinação vinda da própria experiência de Abraão e Paulo. Nessa medida, os protestantes resgatam o termo da piedade popular católica, que têm como idólatra, para fazerem de uma peregrinação física uma ilustração poderosa da necessidade de um caminho de santidade crescente. Mas o que torna tudo isto mais interessante é o exílio, como figura eventualmente mais potente e realista do que está em causa quando o assunto é a peregrinação protestante.
- Os protestantes eram exilados naturais na medida em que a liberdade do seu culto frequentemente estava condicionada. As viagens que têm de fazer em busca de uma liberdade que muitas vezes a pátria lhes impede transforma-os. Por exemplo, a revogação do Édito de Nantes coloca mais de 400 mil protestantes franceses em circulação fugitiva da sua nação. Outro exemplo é o dos oitocentos protestantes ingleses em fuga da Rainha Católica Maria - é aí que a Bíblia de Genebra acontecerá, traduzida das línguas originais e com notas em inglês.
- Crê-se que o primeiro protestantismo a chegar à América terá sido o de uma cruta experiência de calvinistas holandeses na Baía de Guanabara, dominada por portugueses, em 1555. Outro exemplo será o de Port Royal, na Carolina do Sul em 1562, e outro ainda com protestantes franceses na Florida em 1564.
- Diante da perspectiva de serem dominados por uma Igreja Nacional não suficientemente reformada, calvinistas ingleses preferem sair da sua Inglaterra em busca de maior liberdade na América, a partir da década de 1580. A soberania inglesa que encontrariam lá não seria equivalente à soberania da Igreja Nacional sobre eles. O mito americano também nasce daqui. Mas nem tudo eram facilidades. Entre 1640 e 1690 são mais os ingleses que voltam da América do que aqueles que vão para lá.
- A questão missionária protestante é fascinante: é acordada tarde, muito depois do vigor católico que já se verificava em todas as partes do mundo em que presença de países católicos havia. De uma perspectiva positiva, parte da ineficácia missionária protestante vinha do pacifismo com que encaravam os ocupantes nativos, naturalmente no direito à sua terra, por oposição à postura expansionista agressiva católica. Isto não significa que protestantes viam os nativos como iguais mas que, de certo modo, esperavam que o exemplo deles fosse o necessário para despertar neles um passo de interesse pela sua religião. Era como se a civilização viesse primeiro e o cristianismo depois (os luteranos ainda eram menos eficazes do que os calvinistas em matérias missionárias, sob o pretexto de que a grande comissão era tarefa apostólica e não comum a todos os cristãos - ambos eram mais fortes em catequizar pagãos contra os males do catolicismo do que em evangelizá-los, apontando aos católicos que cristianizavam mas era à força e colectivamente, fora da necessidade de uma experiência subjectiva que realmente legitimava a fé da pessoa). A independência interna dos protestantes também tornava a sua eficácia missionária institucionalmente frágil. Seria necessário a chegada do Século XVIII para que as coisas mudassem.
- O sétimo capítulo chama-se "Enthusiasm and Its Enemies" e faz parte da segunda parte do livro, "The Modern Age".
- O sectarismo sempre foi um problema protestante. No início do Século XVII o protestantismo preocupava-se com o misticismo e com o ateísmo, agora que as descobertas científicas traziam um ambiente menos favorável à tradicional metafísica cristã (por exemplo, acreditar na Trindade tornava-se pouco popular). O Teísmo era mais tolerável porque Deus existia sem se expor à necessidade de responder diante da revelação bíblica, incómoda nos sobrenaturais que impunha. Os teólogos eram desacreditados e, por outro lado, o catolicismo reagia. Os protestantes tinham de fazer algo, que foi o que, por exemplo, aconteceu, quando trinta mil deles foram expulsos pelo Bispo de Salzburgo, originando uma campanha de resgate e acomodação.
- A reacção protestante foi tentar desenhar linhas claras. Daqui vem a chamada era da Ortodoxia (as Institutas de Turretin são deste contexto, de ir além de dizer que as Escrituras são suficientes para dizê-las perfeitas).
- Philip Jakob Spener é um ministro luterano que em 1675 escreve "Pia Desideria", reagindo aos excessos desta sofisticação teológica defensiva, facilmente desaguando em subtilezas académicas. Com ele vem uma nova tradição protestante que não voltou a desaparecer, a do treino devocional escrito e prático com um propósito claro de crescimento em santidade. Os collegia pietatis eram encontros que, não sendo serviços de culto formais, promoviam o estudo da Bíblia e a sua dicussão em grupo [o que actualmente ainda funciona como o nosso "estudo bíblico"].
- Houve desconfiança pela ênfase de Spener em olhar para a salvação mais como algo que se experimenta do que como uma mudança ontológica. A santidade progressiva parecia tirar importância à conversão (ou a conversão era essencialmente traduzida em santidade crescente). Os efeitos sociais positivos agradavam até aos príncipes, e o vigor do Pietismo era incontornável. Até junto das crianças, que frequentemente se tornaram actores principais em fenómenos agitados e colectivos de avivamento, em países diferentes (Suécia e França, por exemplo). Ser um "entusiasta" passou a ser usado como insulto. Jovens camponesas francesas, prisioneiros suecos, agricultores estónios e pastores galeses tomavam a vida espiritual nas suas próprias mãos sem precisarem do pastores oficiais.
- Nokolaus Zizendorf torna-se uma figura carismática, alemão treinado no Pietismo e influenciado pelo ramo Morávio dos Irmãos da Boémia. Cria os Irmãos Morávios, ansiosos por emoção no lugar da razão, criando práticas estranhas, constituindo missionários corajosos (os primeiros a chegarem aos esquimós), promovendo a igualdade social entre os crentes, e exemplos de um internacionalismo que finalmente começou a tornar o protestantismo realmente mundial.
- Numa expressão algo mais institucional e organizada, o Metodismo surge como um Pietismo britânico, vindo dos holiness clubs de jovens fervorosos como os Irmãos Wesley. Na Inglaterra, a expressão calma dos Morávios conhece mais criatividade no louvor dos crentes.
- Mas é na América que a busca de avivamento vai ganhar um termo concreto, nos "revivals". Neles, a fronteira entre denominações dissipa-se a favor de uma ênfase na procura da renovação espiritual prática. Os Great Awakenings britânicos, da primeira metade do Século XVIII, terão as suas chances concretizadas do outro lado do Atlântico, com homens como Wesley e Whitefield, mostrando como esta dinâmica atinge tanto arminianos como calvinistas. O carácter menos institucional destes entusiasmos faz nascer questões como a pregação feminina.
- Os protestantes mais tradicionais receiam que a sua fé seja tornada fanatismo mas não era caso para tanto (e ilustrativo é por exemplo a atenção que o assunto toma na vida de Jonathan Edwards). "The evangelicals' achievement was to place themselves on the side of the new. (...) These were children of the Enlightenment". A ideia de avivamento tornou-se parte do ritmo protestante.
- O oitavo capítulo chama-se "Slaves of Christ" e trata de como os protestantes lidaram com a questão da escravatura.
- Em quatro séculos os traficantes de escravos movimentaram 12 milhões de pessoas no Atlântico. A maior parte deles foram traficados por um país protestante, a Grã Bretanha (dez a quinze por cento morriam no trajecto).
- Alguns protestantes desde o início apontaram a escravatura como errada, perspectiva que finalmente os colocaria no processo de a finalizarem.
- O que tornou a escravatura ocidental única foi a sua escala imensa e a categora praticamente sub-humana a que na prática pertenciam os escravos.
- Na Idade Média a escravatura tinha-se transformado em servidão e em países como a Holanda e a Inglaterra tinha desaparecido completamente. Os primeiros protestantes, portanto, cresceram em sociedades sem escravatura, o que era diferente do que acontecia desde 1430 com países católicos em expansão marítima como Portugal e Espanha. Os protestantes meteram-se nesse negócio lucrativo já ele ia de vento em popa em 1590.
- A posição teológica protestante, como por exemplo oficializada nos Cânones de Dortdt, era adversa à escravatura, mas quando os Holandeses conquistaram em 1630 a colónia portuguesa do Recife, no Brasil, o negócio de uns tornou-se o negócio de outros. No final desse século, também a Inglaterra ocupava uma posição dominante no tráfico global.
- Algumas vozes contrárias vieram com posições Quakers, por exemplo (num manifesto de 1688). Mas as razões poderia sem tão diversas como a defesa dos trabalhos dos brancos como a chegada de tantos pagãos negros às terras cristãs. Wesley também era contra sem conseguir mobilizar a maioria dos Metodistas. Outros casos, como o do ex-escravo tornado primeiro pastor protestante africano Jacobus Capitein, eram peculiares porque defendia a escravatura mas defendia a evangelização dos escravos. Essa evangelização passou a ser uma preocupação, na prática mais sentida na Europa do que na frente missionária. Os donos de escravos, independentemente de serem cristãos, rapidamente se tornaram contra a evangelização dos seus escravos. Acumulavam argumentos como o medo de uma rebelião violenta (algumas aconteceram), o perigo de aprenderem a ler e, mais desesperadamente, uma defesa teológica do estatuto do africano como o povo amaldiçoado canaanita, descendente de Cam, filho de Noé.
- O que mudou então? Foi preciso a escravatura ser tida como um sinal do pecado de um povo. O abolicionismo começou por ser falante de inglês, como Metodistas, Baptistas e Presbiterianos na linha da frente. Os Holandeses, que avançaram mais rápido, foram imitados pelos ingleses na campanha de William Wilberforce em 1787. Os ingleses rejeitaram a escravatura como causa do seu sofrimento pela perda da América, e finalmente a América rejeitou-a como causa do seu sofrimento na Guerra Civil (apesar de o Sul tomar essa derrota como um castigo pelo modo infiel como eles lidaram com uma instituição que, escravizando, não era inerentemente má).
- Nos Estados Unidos, até onde foi possível, denominações não se dividiram por causa desta questão e, quando se dividiram, foi para que os do Sul pudessem preservar esta instituição sem serem acusados de infidelidade bíblica (os Presbiterianos em 1837, os Metodistas em 1844, e os Baptistas em 1845). Ambos os partidos usavam a Bíblia para justificar a sua posição. "Pro-slavery Protestantism did not lose the argument; it lost a war".
- Tudo isto enfraqueceu o testemunho missionário, que maioritariamente tendia a silenciar-se diante do problema da escravatura.
- Mais tarde o Protestantismo arrependeu-se. "They will tear up cherished interpretations of the Bible if they have to". Essa é uma das suas virtudes, a da flexibilidade.
- O nono capítulo chama-se "Protestantism's Wild West".
- O mundo nunca tinha visto nada como os Estados Unidos da América, um país nervoso na sua declaração de independência (em 1776), num pequeno caleidoscópio de dois milhões e meio de gente, com línguas, nacionalidades e crenças completamente diferentes, ansioso por esticar-se para Oeste. No seu idealismo, os americanos olhavam para o seu país como a correspondência política ao que o cristianismo era na moral. A sua criatividade religiosa tornou-se sem par e o modelo da era democrática.
- A América pós-revolucionária era popular e desconfiada das elites, sobretudo do clero institucional. A simplicidade valia mais do que a subtileza, numa verdadeira encarnação do espírito protestante. Igrejas mais institucionais como a Congregacional e a Episcopal não acompanharam o país na sua expansão para Oeste. São as denominações mais "leves", como os Baptistas e Metodistas que têm bagagens pouco pesadas e capazes de acompanhar um ritmo de viagem assim. A doutrina fundamental era mantida ao mesmo tempo que se aliviava as cargas eclesiásticas (com a ironia de aqueles que queriam ser pós-denominacionais se tornarem rapidamente uma nova denominação em si - "an anti-sectariam movement becomes a sect".
- William Miller nasceu no Massachusets e combateu na Guerra Civil, quando recuperou uma fé que julgava ter abandonado. No entanto, e como desprezava a minúcia das questões teológicas, encontrou a emoção da sua fé numa leitura excitada e dada a cálculos matemáticos em cima do profeta Daniel - Cristo regressaria em 1843! Em 1839 arranja um parceiro em Joshua Himes, que organiza e exponencia as suas teorias escatológicas, arranjando uma tenda que albergava mais de 4 mil pessoas (que inspirará o circo de P. T. Barnum). Os Milleristas não queriam ser uma denominação. Quando o regresso de Cristo falhou, recalculou-se para 22 de Outubro de 1844, pretexto apenas para o "Great Disappointment". Miller acalmou-se com previsões, regressou à Igreja Episcopal, mas tornou-se o catalisador do movimento Adventista.
- A partir daí o movimento informal estava vivo. Desenvolveu-se posteriormente sobretudo na sua expressão comunal, trazendo uma nova característica ao protestantismo (americano). A dinâmica era agora separar-se do mundo, dissolvendo a propriedade privada (e eventualmente o casamento!). Líderes mais excêntricos aparecerão entre os Quakers (como Ann Lee, crente que seria uma segunda encarnação de Cristo) e os Shakers, procurando uma santidade (?) que claramente os demarcasse.
- Hiram Edson vai pegar na herança de Miller para reinterpretar a data de regresso de Cristo não como o regresso visível mas como a entrada no santuário celeste (afinal, Cristo tinha entrado nele em 22 de Outubro de 1844!), permitindo aos Adventistas continuar a acreditar na previsão ao mesmo tempo que explicavam o aparente fracasso. Ellen Harmon (mais tarde White por casamento), joven de Portland no Maine, de 17 anos vai pegar no fio para não perder a meada, adicionando duas doutrinas: a da porta fechada (o propósito não era converter pessoas mas chamar os crentes tresmalhados) e a do Sétimo Dia. Tudo isto à custa de visões, claro está. A prioridade já não era datas para o fim do mundo mas a tal santidade destacada, visível até num corpo entregue o máximo possível à saúde (bom dia, vegetarianismo!). A Christian Science apareceu também neste contexto, ainda que com inclinações para o ocultismo e rejeitando a medicina. Os Adventistas do Sétimo Dia conseguiram tornar-se uma denominação mais calma, comparada com o seu ínício, namorando o estatuto de "protestantismo tradicional", se bem que nunca abandonando a sombra dos seus líderes originais.
- Charles Russel ocupa um lugar parecido mas, neste caso, para as Testemunhas de Jeová. Calculou que o molénio começava em 1914, e não se deu assim tão mal na medida em que, Cristo não tendo regressado, lhe foi oferecido uma Guerra Mundial. O título da denominação só foi assumido em 1931. O seu propósito era chamar os verdadeiros cristãos à consciência escatológica, integrando os 144 mil, através de uma rede de publicações forte e eficaz (em 1884 estabeleceu a Zion's Watch Tower). Rejeitaram o trinitarismo, distinguindo-se assim do cristianismo ortodoxo e são hoje o movimento cristão mais perseguido. O objectivo da proclamação é a própria proclamação e não tanto a conversão, daí que sejam tão rígidos e compulsivos na sua manifestação nas ruas. Como se guardam para a Batalha do Armagedão, são pacifistas, proíbem transfusões de sangue, dizem que Jesus foi impalado, etc. Foram perseguidos por nazis, pelo Império Britânico, não tem pretensões intelectuais e não respondem a críticos.
- Joseph Smith em 1823 viu um anjo que lhe ditou o destino das tribos perdidas de Israel no território americano e, a partir daí, fundou o Mormonismo. Apesar de teologicamente não poder ser considerado cristianismo (os homens nem sequer foram criados por Deus mas são deuses em potencial, entre um dos exemplos mais significativos), cresceu com a dinâmica protestante americana, migrando para Salt Lake City e lá ocupando um poder eminentemente político. Smith acabu por morrer na cadeia, depois de ter orquestrado um ataque a uma publicação anti-mórmon, onde foi alvejado. Em tantas excentricidades, vale ainda a pena referir a poligamia e a proibição de pastores negros (entretantos alteradas por novas visões).
- Grupos que emergem de contextos obscuros, quando são nas vistas, já cresceram a uma escala mundial - esta é uma lição protestante.
- O décimo capítulo chama-se "The Ordeals Of Liberalism".
- 1799 foi um ano de actividade escrita para Friedrich Schleiermacher, um alemão numa época em que os perigos para o Protestantismo pareciam vir não tanto do velho aqui-inimigo Catolicismo mas do cepticismo e secularismo crescentes, que ameaçavam tornar qualquer expressão religiosa apenas um resto de superstição.
- O espírito da época, à custa do Iluminismo era, no abraçar da tolerância religiosa, uma desvalorização da doutrina e uma ênfase à moralidade. O que importava o dogma complicadinho da Trindade, por exemplo, quando a ética de Kant parecia um ideal mais urgente de concretizar?
- Os sectores mais radicais do Iluminismo, como na expressão da Revolução Francesa, tinham até substituído a crença em Deus pela crença e culto do Ser Supremo que deveria ser preocupação do estado.
- Muitos protestantes cerram fileiras, preocupando-se ainda mais com a defesa da doutrina. Outros, porém, seguem outro caminho: é daqui que nasce o Liberalismo.
- "O projecto da Teologia Liberal era conciliar o melhor do Cristianismo com as críticas seculares. Nesse processo, deram molde ao Século XIX e orientaram o Século XX numa guerra de trincheiras".
- Duas coisas orientavam o Liberalismo: a crença de que só assim as críticas do secularismo poderiam ser respondidas e que só assim a civilização cristã se salvaria mantendo o poder do evangelho na vida das pessoas. Esta mensagem também era recebida do campo missionário.
- Isto não significava que o Liberalismo era puramente pragmático. No fundo, não eram só as dúvidas dos outros que os liberais queriam responder; eram as suas próprias. Concordavam com a dicotomia que separava o amor de Jesus da rigidez doutrinária das Igrejas. Por exemplo, como era possível continuar a defender o pecado original diante de uma romantização crescente da infância? Para já nem falar no Inferno...
- Os Liberais acreditavam que defendiam mais eficazmente o Protestantismo, não necessariamente aceitando a agenda intelectual céptica mas tentando cercá-la para que ela se convertesse à fé.
- O Racionalismo Teológico tinha tornado a fé árida, retirando à Escritura qualquer coisa sobrenatural ou aparentemente fantástica. As Igrejas sobreviviam apenas como instituições religiosas para questões morais. Schleiermacher, que tinha tido uma educação morávia, desejava algo mais, uma fé que fosse além do que se pensava para o terreno realmente explosivo do que se sente. Não defendendo milagres, ela acreditava, ainda assim, que o verdadeiro crente encontrava milagres e revelações em tudo.
- Os críticos de Schleiermacher acusavam-no, com alguma justiça, de panteísmo, mas o seu projecto era voltar à história de amor entre crente e Deus que o Protestantismo sempre tinha defendido, neste caso, livrando-o da "mania da sistematização". Era preciso de quebrar a pedra no coração dos crentes, no fundo, voltando à sua educação pietista.
- Um cristianismo que enxotava o peso de afirmações dogmáticas para se concentrar na experiência emocional parecia livrar-se das críticas dos cépticos. Mas, bem vistas coisas, também poderia significar apenas uma "deificação das suas convicções morais". Theodore Parker, seu leitor atento, dizia que ou um cristão se torna Cristo, ou ele não é cristão de todo.
- O Liberalismo, até por esta capacidade de abstracção muito particular, nunca se tornou um movimento de massas mas sobretudo a expressão de uma elite intelectual. Por isto, havia Liberalismo teológico presente nas iniciativas políticas mais arriscadas, fossem elas feitas na Alemanha ou nos Estados Unidos. Onde houvesse um progressismo político, havia também Liberalismo teológico. O que não significa que a maior parte dos Liberais alinhasse em grandes ricos ideológicos, não fizessem eles parte do status quo...
- As Igrejas europeias não recuperam do Liberalismo porque ele em grande parte projecta nelas a suspeita constante de tirania.
- O desafio a esta espécie de nova ordem política não vem dos Liberais mas dos Conservadores. Por exemplo, em Inglaterra, o Anglo-Catolicismo (de Newman e de outros), é uma reacção, como é também um ressurgimento evangélico mesmo dentro das Igrejas mais institucionais (formando, por exemplo, na Escócia uma saída concretizada na Free Church).
- O Liberalismo apoiar-se-á em conceitos como o de revelação divina sucessiva (ou progressiva). Ao olharem para as Escrituras com o desconforto de terem de encontrar nela ausência de erro, enfatizam o elemento afectivo em que o espírito é mais importante do que o resto. Isso não significa que não usassem a Bíblia também como arma, coisa que fizeram por exemplo dizendo que a leitura alegórica medieval poderia fazer dela o que cada um quisesse. A questão é que o sentido bíblico não era óbvio, tendo a Bíblia tantos textos narrativos. A alternativa era respeitar essa diversidade de géneros literários lendo-a não assim tão diferentemente como qualquer outro texto seria lido. Logo, aquilo que a teoria da literatura dissesse naquela época poderia e deveria ser aplicado igualmente à Bíblia. Numa época em que as teses literárias apontavam defeitos às Escrituras, o Liberalismo juntou-se à festa: por exemplo, o alemão Friedrich Delitzsch resumia todo o VT a textos babilónicos mais antigos. "Skeptical scholarship did not debunk the Bible, but it did make it possible for lay-people honestly to conclude that the Bible had been debunked". Não havia best seller como o livro que reescrevia a vida de Jesus segundo uma perspectiva completamente fora da ortodoxia (entre 1874 e 1906 publicaram-se em Inglaterra mais de cinco mil Vidas de Jesus).
- Para Coleridge a Bíblia continha a religião revelada por Deus, em vez de a Bíblia ser a religião revelada por Deus. Era um registo humano e falível da infalível Palavra de Deus.
- Para os Liberais, a fé estava mais viva com eles do que nos museus arcaicos e sem vida da rigidez doutrinária dos conservadores.
- Por exemplo, a literalidade da criação do mundo do Génesis tornou-se um problema com o que a ciência mineira vinha revelando acerca das rochas. Para uns a solução era deixar de ler a palavra "dia" como literal e mais representativa de uma época, e para outros era reconhecer que a terra apenas parecia mais velha do que realmente era, como uma característica que Deus assim fez (o zoólogo Philip Henry Gosse).
- Alguns seguidores de Darwin foram mais longe afirmando que simplesmente toda a existência de Deus ficava revelada como impossível. Os cristãos, por outro lado, dividiam-se entre aqueles que assumiam completamente a oposição a Darwin e outros que tentavam compatibilizá-lo com a sua fé. Nesse sentido, mais facilmente o Liberalismo tinha mecanismos de justificação de conciliação de aparentes opostos. Nascia escondido um espírito de auto-congratulação pelo progresso de uma época que defendia a evolução como facto e princípio, e um desconforto com qualquer coisa que fosse vista como não-evoluída, fraca, pobre, pouco desenvolvida. A ciência eugénica nasce neste contexto.
- O facto é que não podemos entender a Primeira Grande Guerra sem o papel que o Liberalismo também assumiu nela. O Protestantismo Alemão apreciou a ideia de um novo homem alemão, defendendo Lutero não pela justificação pela fé mas pela sua rejeição do Papa. Contrariando o socialismo, o atraente era um novo nacionalismo germânico, defendendo a superioridade da cultura e raça alemã. Os teólogos liberais estavam presentes na defesa do conflito em 1914, com Adolf Von Harnack nas suas fileiras. Tornando a fé uma questão de intuição, por que razão uma febre nacionalista não poderia ser uma genuína experiência religiosa? Com tanta flexibilidade a ler a Bíblia, até o princípio do amor aos inimigos poderia ser reinterpretado. Do lado inglês, também os teólogos a defendiam pelas razões contrárias de fazer frente ao medonho pecado egomaníaco alemão. Os alemães de tal modo se intoxicaram em darwinismo social que o estado deixava de ter moral, diziam ingleses.
- Na América, considerada a Nação do Futuro, também muitos teólogos liberais se viram na obrigação de pregar a religião do futuro. O abolicionismo inspirou que agora a tarefa fosse uma reforma moral sem precedentes, impedindo álcool, divórcio, jogo, comercialismo, etc. O progresso moral era imparável.
- Os teólogos conservadores americanos mostravam-se contra a Guerra, ao contrário dos Liberais. Mas com o tempo tiveram de se juntar à maioria que apoiava a guerra.
- O Liberalismo não recuperou da Primeira Grande Guerra. "All Protestants adapt; the difference is that liberals admit it".
- O décimo primeiro capítulo chama-se "Two Kingdoms in the Rird Reich".
- A tragédia do Nazismo aconteceu no berço do Protestantismo. Apesar de alguns protestantes se terem notabilizado na sua oposição, a verdade é que muitos mais funcionaram como seus cheerleaders. Ryrie crê que para entendermos o Protestantismo actual devemos entender o que permitiu esta divisão.
- O Nazismo em si nunca foi religioso nem anti-religioso. Hitler nunca renegou a sua educação católica mas também nunca escondeu o seu anti-clericalismo. Por outro lado, denunciava o ateísmo como uma corrupção tipicamente comunista, fazendo-se valer até de reavivamentos de paganismos nórdicos. Defendia um "Cristianismo positivo" como oposição ao individualismo e o "espírito materialista judeu". Preferia substituir a compaixão cristã pelo heroísmo germânico. Havendo divindade, mais facilmente ele se encontrava na raça ariana do que em qualquer Deus concreto. Apesar de o Nazismo de modo algum poder ser cristão, tentava lucrar com o infeliz anti-semitismo que sempre tentou a Cristandade (por exemplo, nos escritos de Lutero).
- Para muitos protestantes politicamente conservadores os judeus tornaram-se símbolos de ateísmo, socialismo e materialismo. No caso do Liberalismo teológico, as novas teses académicas que contextualizavam a natureza judaica das Escrituras como algo a ser eventualmente separado do que deveria ser redimido nelas, oferecia também uma ligação ao anti-semitismo. Por exemplo, Harnack considerava que o verdadeiro cristianismo já tinha ido tão além do Judaísmo que mais valia que o Velho Testamento não fizesse parte da Bíblia dos cristãos.
- Como o socialismo e o ateísmo pareciam colocar em risco os valores ocidentais, o discurso defensivo facilmente conquistou em Julho de 1932 o voto de muitos protestantes, ainda mais do que nas regiões católicas da Alemanha. A reacção protestante ao Nazismo também apareceu em forma da Confessing Church, provavelmente melhor descrita não tanto em termos de anti-nazismo mas de não colaborarem com ele - nessa medida, talvez tenham-se tornado seus cúmplices ainda que tal não desejassem. Isso viu-se, por exemplo, na violência Nazi da primavera de 1933, com centenas de judeus assassinados e o "Parágrafo Ariano", impedindo-os de cargos públicos: no encontro nacional do Comité de Igreja Protestante havia incómodo com o assunto mas preferiu-se ser discreto, sublinhando-se a separação entre os assuntos eclesiásticos dos assuntos do Estado. Por outro lado, defender os interesses alemães era, de facto, algo que tomavam como necessário.
- Dietrich Bonhoeffer foi um dos mais destacados protestantes na oposição ao Nazismo. Isso não significava que Bonhoeffer não concordava que a questão judaica era nacional.
- A Confessing Church pôde existir mas era frequentemente assediada hostilmente pelo poder, não matando mas moendo. Para demonstrando que nada disto aconteceu linearmente, vale a pena recordar que a própria Confessing Church escreveu em 1936 uma carta a Hitler, alertando-o para os excessos do regime, confiante que ele não saberia tudo o que se passava (em 1941 havia um rumor que dizia que Hitler se teria convertido ao cristianismo).
- Noutros contextos, huve protestantes que apoiaram o Nazismo de coração - os chamados German Christians. Em 1933 Hitler apontou como seu ministro Ludwig Muller, um pastor desconhecido, que encorajou a Igreja Protestante a adoptar uma estrutura centralizada orientada por um Bispo do Reich. Tentou-se uma expressão cristã organizada a partir dos ideais raciais nazis, concentrada no Volk e não tanto na alma individual. Ironicamente, com a ênfase que o Liberalismo tinha colocado nesta vida e não na eterna, tudo ficava mais fácil. Muitos judeus étnicos foram repelidos do baptismo cristãos, favorecendo congregações somente arianas. Uma tradução da Bíblia apareceu em 1940 chamada "A Mensagem de Deus", utilmente desjudaizando as Escrituras.
- A luta anti-nazi do próprio Marin Niemoller, autor da frase: "primeiro vieram buscar os judeus...", foi lenta e preguiçosa: votou nos Nazis em 1924 e finalmente organizou a Pastor's Emergency League, defensora das Escrituras como base de acção, e desafiando o "Parágrafo Ariano" como intromissão do Estado nos assuntos da Igreja. Defendeu mais a sua independência do que propriamente uma oposição ao poder Nazi. Em 1937 foi preso mas em 39, como militar que tinha sido, ofereceu-se a Hitler para lutar na Guerra.
- Niemoller brilhou tanto porque a estrela da Confessing Church, Karl Barth, era mais um teólogo do que um representante seu concreto. Era suiço, com uma teologia mais calvinista do que luterana, que justamente apontava que o Liberalismo teológico, com a sua obsessão na experiência humana, acabava a louvar mais a imagem idealizada da humanidade do que o próprio Deus [não resisto a comentar que o próprio Barth não conseguiu realmente ir além desta auto-congratulatória cristologia humanizada]. Em termos práticos, defendeu a neutralidade da Suiça que lhe dava um poiso mais seguro do que a Alemanha.
- O grupo religioso mais perseguido pelo Nazismo foram as Testemunhas de Jeová, realmente consistentes na sua oposição a Hitler (nem o "Heil Hitler" se permitiam dizer) e prontos para morrer pela sua fé, mal dez mil foram enviados para os campos de concentração. Houve Mórmons a distribuir folhetos anti-nazis.
- Houve desconforto das Igrejas com o Action T4 Program de Setembro de 1939, que matou milhares de deficientes em hospitais, e vários protestantes e católicos tentavam, dentro do sistema, boicotar o plano, até que, mais tarde, o Reich recuou nele.
- "Só há ma razão porque não partilhamos da culpa [dos protestantes alemães no Nazismo]: não estávamos lá."
- O décimo segundo capítulo chama-se "Religious Left and Religious Right".
- A história recente do Protestantismo ocidental é a da resistência à chegada da secularização. Geralmente o tom é sombrio, como se fosse inevitável o seu declínio. A verdade, todavia, é que é hoje mais difícil sustentar esse mito do que seria há um século. Se o número de protestantes arrebitou nos anos 50 do Século XX caiu vertiginosamente a partir dos 60, a partir dos 70 as diferenças entre América e Europa são grandes: na segunda a hemorragia continua ao passo que na primeira a luta é grande.
- A Revolução Russa deu ao protestantismo conservador o novo papão do comunismo.
- Na América o proibicionismo foi visto na década de 20 como uma vitória moral, um sinal de que os Estados Unidos lutavam pela honra da democracia nas suas conquistas contra o que corroía o espírito de um povo.
- A World's Christian Fundamentals Association (WCFA) foi fundada em 1919, reverenciando os manifestos anti-modernistas publicados entre 1915 e 1929 chamados "The Fundamentals", defendendo a inerrâncias das Escrituras e a salvação pessoal contra o que viam um desvirtuamento no chamda Evangelho Social. É daqui que veio o termo "fundamentalista".
- Este movimento fundamentalista atravessava várias denominações protestantes tradicionais, e a sua novidade era menos o conteúdo (que basicamente era a velha ortodoxia evangélica) mas a forma, o feitio: o desejo de reconquistar a alma do país. Os fundamentos da América estavam ameaçados e era hora de lutar por eles.
- Há uma coincidência entre o surgimento do fundamentalismo e ressurgimento do Ku Klux Klan (movimento terrorista do sul dos Estados Unidos da década de 60 do Século XIX em que os membros se vestiam de túnicas brancas simbolizando os fantasmas da Guerra da Conferederação). Negros, judeus e católicos eram vistos como inimigos naturais do povo americano. Apesar de os Fundamentalistas condenarem o KKK, tinham adversários em comum. O evolucionismo era um deles (guerra abraçada por pessoas na direita e na esquerda).
- William Jennings Bryan concorreu 3 vezes à presidência pelo Partido Democrático, opôs-se à entrada na Primeira Grande Guerra, defendeu a Proibição, e empenhou-se numa campanha pela ilegalização do ensino da Evolução nas escolas públicas. Em 1925 a American Civil Liberties Union (ACLU) convenceu um professor de Liceu do Tennessee chamado John Scopes a desafiar uma dessas leis e a provocar um teste à iniciativa. A WCFA topou o desafio e indicou como procurador Bryan. A imprensa nacional cobriu o caso exaustivamente, caricaturando Bryan e os fundamentalistas como obscurantistas, e a derrota deles na sua tentativa de ilegalizarem o ensino da Evolução serviu perfeitamente para o enquadramento, geralmente conhecido pelo "Monkey-Scopes Trial".
- A meio da década de 20, a Proibição, orgulho protestante conservador, fomentava mais desrespeito pela lei do que renovação moral. A América educada e metropolitana olhava para o Fundamentalismo como inevitavelmente condenado e obrigado à saída de cena.
- De certo modo, a neo-ortodoxia de Karl Barth foi como que uma alternativa protestante à dicotomia liberal-fundamentalista americana, com parceiros nos irmãos Reinhold e Richard Niebuhr e no exilado alemão Paul Tillich, desejosos de mostrar que a ciência moderna e a crítica bíblica era compatíveis com o Evangelho - o Realismo Cristão (o mal está tanto nos indivíduos como nas estruturas sociais e cabe aos cristãos lutar contra eles sem ceder à utopia ou ao desespero, no fundo a Doutrina dos Dois Reinos mas com maior ênfase no cepticismo do que na obediência).
- Os Realistas tomaram conta do idealismo ecuménico pós-Primeira Guerra. Rolava junto com a ideia da unidade natural das três maiores religiões americanas: protestantismo, catolicismo e judaísmo. Quando a Segunda Guerra Mundal chegou foi testada esta unidade numa vigorosa participação confessional nas capelanias, tornando-se a Guerra a educação moral dos líderes espirituais desta tripla (a história dos "four chaplains" é ilustrativa). O resultado foi um sentido de vitória moral sobre o fascismo a partir da unidade tripla destas forças religiosas. Na Europa o mesmo espírito foi vivido, salientando-se na Alemanha o papel da Confessing Church e, no pós-Guerra, o papel dos partidos democrata-cristãos. No Reino Unido a assistência nas Igrejas Anglicanas também subia.
- A frase nas notas americanas "In God We Trust" foi acrescentada em 1954. No ano anterior a média da assistência à Igreja alcançou um valor histórico: 59,5%. A venda de Bíblias duplicou e os estudantes universitários faziam parte do vigor religioso.
- A elite das Igrejas Mainline gostava de se ver como crítica quer do comunismo, quer do capitalismo, mas não rejeitava o conforto do último quando estabeleceu o centro da sua National Council Of Churches num arranha-céus de Manhattan. Ainda assim, o NCC tinha sido crítico da criação do World Council of Churches em 1948 e do seu espírito "anti-imperialista".
- Por outro lado, o Fundamentalismo não estava morto. Muitos membros de igrejas tradicionais preservavam desconfiança contra a modernidade e os seus males, acabando por formal uma contra-cultura inesperada. Por exemplo, o programa de rádio de Charles E. Fuller chamado "Old Fashioned Revival Hour" era imensamente popular. Em 1943 a National Association of Evangelicals foi criada, baseada num conservadorismo teológico académico.
- O símbolo deste optimismo conservador era um jovem pregador baptista carismático chamado Billy Graham, focadíssimo numa mensagem de conversão individual. No reconhecimento do dilema entre o fundamentalismo e liberalismo, Graham escolheu agarrar-se à Bíblia e inesperadamente tornou-se uma figura unificadora. Conseguiu resistir quando mais liberais o tomavam como pouco sofisticado e chegou mesmo a ganhá-los (Niebuhr, por exemplo).
- Mas nem todos os protestantes reagiram à modernidade da mesma maneira: muitos olharam para o cristianismo como carente de preservar a sua mensagem livrando-se do que era tomado como periférico: igrejas, hierarquias, liturgias, sacramentos. etc. Por exemplo, W. T. Stead foi um jornalista britânico que teve uma conversão em que se sentiu chamado "a não ser cristão mas a ser Cristo", defendendo sobretudo uma fé cívica.
- No Verão de 1944 dúvidas parecidas assaltavam Bonhoeffer, levando-o a buscar por "um cristianismo sem religião", servindo o mundo a partir da fraqueza da cruz. Bonhoeffer não teve tempo de dar mais carne a este osso mas do outro lado do Oceano não eram poucos a procurar uma expressão semelhante em que a ideia de "autenticidade" se tornava sagrada (Joseph Wesley Mathews, por exemplo).
- Neste contexto, podemos entender o impacto de Martin Luther King, vindo do fundamentalismo mas depois educado pelo establishment liberal portestante e apaixonado pela não-violência de Gandhi, buscando um ideal da ética do evangelho de amor em acção. King, no meio de circunstâncias violentíssimas, conquistou o "America's moral high ground", tornando-se uma figura inequívoca de confronto com a injustiça. O seu movimento permitia aquilo que qualquer movimento protestante inevitavelmente prega: uma oportunidade de arrependimento (nos anos 50 até os Presbiterianos e Baptistas tiveram de começar a tornar os seus seminários para brancos e negros).
- Na Inglaterra a história de John A. T. Robinson merece destaque: tornou-se conhecido por apoiar a publicação do livro de D. H. Lawrence, "Lady Chatterley's Lover", publicou em 1963 "Honest to God" e fez da necessidade de adaptar o discurso cristão às questões contemporâneas uma bandeira. Tornou-se pouco capaz de afirmar razões que tornavam necessário que alguém permanecesse na Igreja.
- No Reino Unido o Student Christian Movement passou de testemunha nas universidades a uma organização que em 1965 assumia o seu carácter "revolucionário", perdendo praticamente toda a adesão (o mesmo aconteceu com a sua versão americana, a University Movement Christian).
- O World Council of Churches em 1968 proclamava que "the world sets the agenda", num gesto que tomavam como anti-imperialista e anti-racista, apoiando até as guerrilhas no Norte de África.
- James Pike foi um episcopal americano que começou por questionar a Trindade e o nascimento virginal de Cristo e em 1966 formou a Foundation For Religious Transition, interessada em demonstrar que Jesus era, de facto, um revolucionário político. Numa viagem para Israel perdeu-se no deserto com a sua mulher e morreu.
- Nas Igrejas negras eram vários os pastores a defenderem ideais de Black Power e virarem-se contra as chamadas políticas imperialistas do Governo.
- Em 1972 descobriu-se que a Igreja Episcopal dava dinheiro a grupos revolucionários violentos.
- Muitos dos que pregavam uma mensagem que dizia que a Igreja não era importante, acabaram por fomentar o abandono da Igreja e acabarm por abandonar eles mesmos a Igreja, exemplificando talvez não o exemplo pretendido do "cristianismo sem religião" de Bonhoeffer.
- As Igrejas que têm resistido na Europa não são historicamente representativas mas funcionam como uma minoria contra-cultural e autónoma.
- Nos anos 70, a América teve uma resposta diferente na Califórnia: os Jesus Freaks (Arthur Blessit), pouco ligados ao jargão e estrutura eclesiásticos mas agarrando-se a uma doutrina conservadora. É neste contexto de ressurgimento que, por exemplo, o livro de Hal Lindsey se tornará um êxito subterrâneo ("The Late Great Planet Earth"), e uma acha para a fogueira dispensacionalista, em que depois do arrebatamento viria a Grande Tribulação, alimentadora dos terrores apocalípticos. Este dispensacionalismo entraria independentemente das denominações.
- Em 1974 Billy Graham organiza o Primeiro Congresso de Lausanne, ocupando o vácuo do Conselho Mundial de Igrejas (WCC). Uma reunião realmente mundial, trouxe o contributo de latino-americanos mais susceptíveis a influências marxistas. No final, o apelo era à evangelização mundial ao mesmo tempo que chamava os evangélicos à acção social. Podia parecer que o futuro do conservadorismo protestante estava na esquerda.
- Mas não. Depois da eleição do democrata born-again Jimmy Carter, Reagan (um fraquíssimo presbiteriano) atraiu a nova christian right, ansiosa de uma afirmação que não ficasse de rabo entalado por questões como o aborto (estupendamente mal tratado pelo Partido Democrático). A chamada esquerda religiosa nunca mais conseguiu afirmar a sua identidade cristã de um modo convincente, sempre demasiado receosa que a sua fé possa ofender alguém.
- Não deixa de ser curioso que a Igreja Negra continue a fazer o seu percurso independentemente desta dicotomia de esquerda-direita.
- "If Protestants (...) can find a way os asserting their religion's meaning and power whole maintaining their hard-won commitment to a genuinely inclusive society, then a new chapter in the history of religion in the West will begin".
- O décimo terceiro capítulo chama-se "Redeeming South Africa" e dá início à terceira parte do livro, chamada "The Global Age".
- Só no Século XX o Protestantismo se tornou realmente uma religião mundial. A mudança tem sido mais dramática em África, onde até há pouco tempo o cristianismo pouco tocava e agora é dominado por ele.
- À medida que os Impérios Europeus se retiraram de África nos anos 50 e 60, mais surpreendente é reconhecer que o cristianismo, em vez de ser reconhecido como um fóssil colonial, não só foi mais abraçado como lhe foi dado uma expressão verdadeiramente local. Esse crescimento não foi tanto dependente de missionários mas sobretudo de Igrejas autónomas e independentes.
- Como África é grande, é melhor não generalizar. Há histórias diferentes. Neste caso, concentramo-nos na da África do Sul, o país africano com maior população europeia, o primeiro com presença protestante e que é hoje um dos países africanos mais protestantes também.
- O sistema conhecido desde 1948 como Apartheid foi tragicamente justificado também em termos protestantes. Os protestantes justificaram um dos piores sistemas políticos recentes e os protestantes ajudaram a destruí-lo.
- Em 1501 os portugueses construíram uma capela na África do Sul mas só em 1652 os europeus estabeleceram-se realmente lá, com os holandeses. O povo Khoikhoi não demonstrava apetência para o protestantismo dos colonos, e os pouco os colonos se preocupam em transmiti-lo a eles. Também, diga-se em abono da verdade, que não passava pela ideia converter sem exigir submissão. O tempo era outro.
- Quando em 1618 a lei proibia que escravos baptizados não podiam ser vendidos, essa tornou-se uma razão para menos evangelização.
- Chamava-se "boers" aos agricultores holandeses na África do Sul. Permaneceram brancos, europeus, sem se misturarem, "afrikaners" e cristãos como parecia que os africanos lá não podiam ser. Identificavam a sua própria identidade com a dos exilados judeus nas Escrituras, predestinados na doutrina calvinista a manterem-se o povo do pacto com Deus no meio de um contexto pagão. Os missionários morávios que por lá passavam tinham uma política diferente que os levava a evangelizar os africanos, mas nunca permaneceram no lugar como eles.
- Os britânicos também não seguiram o exemplo dos holandeses e concretizam na África do Sul, no final do Século XVIII, missões protestantes aos africanos. O privilégio no território era ainda da Dutch Reformed Church mas outras iniciativas davam origem a um cristianismo que ganhava acolhimento nos africanos, naturalmente abertos, por exemplo, à linguagem bíblica do sacrifício, do sangue, da água, entre outros elementos. Os cristãos africanos reagiam na sua fé com um fervor muito próprio, com uma expressão emocional vivíssima. O protestantismo já tinha encontrado a sua experiência africana.
- Os holandeses reagiam ao que lhes parecia uma injusta equiparação aos africanos, que viam como naturalmente pagãos. Por volta de 1830 empreendem um êxodo da Colónia do Cabo para norte e leste. Quando em 1838 são atacados por zulus, obtêm uma vitória à qual chamam "Blood River" e mitificam na sua identidade patriótica. Em 1857 a Dutch Reformed Church decide que é melhor que as comunidades cristãs se desenvolvam separadas, entre afrikans e africanos (formando a separada Ducth Reformed Mission Church).
- É neste contexto que acontece a guerra dos britânicos contra os boers, onde a violência inglesa cria os primeiros campos de concentração.
- Em 1914 é formado o National Party, como símbolo de resistência holandesa, e nem sempre fica claro onde o NP se distinguia da DRC.
- Depois da vitória britânica de 1902 é prometida uma unidade branca, base da recém-formada União da África do Sul. As antigas colónias afrikans seriam controladas apenas por europeus/brancos. A questão é que todos os direitos de não-europeus começaram a diminuir ao ponto de a maior parte das propriedades agrícolas ficarem exclusivas à posse branca. Apenas nas igrejas falantes de inglês havia alguma excepção a este espírito, havendo uma expressão multi-racial e líderes negros treinados. Como, ainda assim, o controlo era europeu, criaram-se as African Independent churches (termo "Ethiopian" era usado como referência da primeira expressão africana bíblica). O governo vigiava estas comunidades com medo de algum tipo de rebeldia. Elas acabaram por contribuir inadvertidamente para mais separação.
- Depois da Primeira Grande Guerra o medo do comunismo estava espalhado também pela África do Sul. Por outro lado, existiam sectores com alguma admiração pelas teorias raciais nazis. Ainda assim, a semente do Apartheid foi mais teológica, numa interpretação calvinista, do que política, baseada em superioridade racial - um desenvolvimento separado. Por exemplo, o casamento interracial foi proibido.
- Hipocriticamente, a economia desenvolvia-se na mão de obra negra barata e a construção das townships do SoWeTo (South-West Townships de Joanesburgo) foram slums criadas para manter os negros afastados da riqueza branca. Houve reacção no aparecimento de movimentos como o Pan-African Congress e o mais moderado African National Congress.
- A DRC foi denunciada como participante na política racista do seu país, no Concelho Mundial de Igrejas. A pressão internacional aumentava. Os anglicanos africanos têm em Desmond Tutu uma voz de oposição.
- O NP não tinha como resistir, por muito que lutasse e que o sistema durasse até à década de 90.
- Em 1980 77% da população declarava-se cristã (sete oitavos eram negros), sinal da vitalidade e crescimento das igrejas independentes, geralmente pentecostais, que se mantiveram apolípticas durante o Apartheid. Ainda que se tenham declarado arrependidas de não terem tomado mais partido durante esse conflito, a verdade também é que, em vez de lutarem por uma liberdade política, quiserem dar às pessoas resposta para os problemas diários que atravessavam, nem sempre condizentes com uma solução traduzida em termos ideológicos, fossem esses problemas a doença, feitiçaria e pobreza.
- "South Africa's independent churches have prospered, not because they collaborated with the apertheid regime, but because through them many of its victims discovered a power and a dignity which defied anything that regime could throw at them. Who can say that they were wrong?"
- O décimo quarto capítulo chama-se "Korea in Adversity and Prosperity".
- O primeiro protestante coreano foi baptizado em 1879. Um século depois os protestantes eram perto de 20% da população coreana.
- A Coreia é, a seguir aos Estados Unidos, o país que mais missionários envia.
- A maior igreja protestante do mundo é coreana, de Seoul: a Yoido Full Gospel Church com mais de 600 mil membros e um auditório que senta 30 mil.
- A sua história missionária é, no entanto turbulenta.
- A Dinastia Choson era pró-China e governou a Coreia desde 1392 com um Confucionismo rígido. O Catolicismo chegou à Coreia no Século XVII e em 1800 haveria à volta de 10 mil católicos coreanos. Depois de tentativas alemãs e galesas, só com a entrada norte-americana em 1882 o cenário mudou um pouco, sobretudo a partir da iniciativa missionária na vizinha China.
- Na Coreia a língua usada é o Hangul, tido como um dialecto para mulheres e ignorantes. Mas foi este o idioma escolhido pelos protestantes para comunicar a fé e traduzir a Bíblia, contribuindo eles para que na Coreia o Hangul seja hoje fonte de orgulho nacional.
- A presença missionária, que ainda era proibida nessa ocasião, foi amaciada através da intervenção médica de muitos missionários lá, sobretudo no contexto das elites políticas. Em 1885 foi dada liberdade aos missionários de estabelecer um hospital em Seoul e em 92 tinham 4 escolas (2 Metodistas e 2 Presbiterianas). Cobravam pouco e aceitavam alunos de qualquer proveniência social. Apesar de não poderem fazer proselitismo, a sua influência positiva foi reconhecida a longo prazo. Eram críticos do confucionismo, conservadores na doutrina, e escandalizavam-se pelo tratamento das mulheres. Não é por acaso que mais tarde mulheres-pregadoras se tornam uma das forças do protestantismo coreano.
- O trabalho era lento, e sobretudo feito a partir do apoio alimentar. Em 1890 Presbiterianos teriam 100 conversões e Metodistas 9. Talvez a solução passasse por transmitir essa responsabilidade missionária aos próprios coeranos. Assim aconteceu e lentamente resultado começou a surgir. Com o facto de os coreanos tomarem conta da sua própria evangelização, também surgiu algum sectarismo e inovação doutrinária. Afinal, Coreia tratava da Coreia à maneira da Coreia.
- A Guerra Sino-Japonesa de 1894-95 deixou a Coreia sob influência do Japão. Procuraram equilibrar a situação junto dos Estados Unidos, tornando-se os missionários americanos lá um recurso fundamental para estas esperanças. A religião americana passou a ser vista como uma resistência patriótica à presença agressiva japonesa. Em 1905 já haveria quase vinte mil protestantes na Coreia, um número pequeno mas numa taxa de crescimento assinalável.
- Procurava-se reavivamento e a Coreia arrebitou, tornando-se Pyongyang a capital protestante do país, numa conferência em 1907 em que as expressões de arrependimento e busca de santidade se exprimiam de um modo intenso. Nesse ano houve 30 mil baptismos e um efeito de expansão a outros lugares da Coreia. A palavra de ordem era reavivamento. Por exemplo, a prática de orações pessoais em voz alta conjuntas nasce neste contexto.
- Um elemento apocalíptico também se tornou claro, com a influência do dispensacionalismo pré-milenista. Apesar de a tendência ser apolíptica neste contexto doutrinário, a oposição à influência japonesa deu um travo nacionalista à experiência evangélica coreana que crescia. O protestantismo era uma religião da resistência. Perseguição apareceu e repressão japonesa ao protestantismo coreano (The March First Movement em 1919).
- Muitos, que olhavam mais para o protestantismo como resistência política, diante da repressão japonesa, investiram as suas esperanças agora no Comunismo.
- Em 1938, depois da invasão da China pelos japoneses, é imposta na Coreia o culto Xintoísta e as igrejas ficam nas mãos do governo. Muitas denominações foram ilegalizadas. Em 43 são apenas 200 mil cristãos que enfrentam este ambiente.
- A história da Coreia muda inevitavelmente no rescaldo da Segunda Guerra Mundial, quando Soviéticos ocupam o norte e Aliados o sul. O Norte, que não começou por ser necessariamente anti-cristão, passou a suspeitar do protestantismo como um americanismo disfarçado e, em pouco, tempo criava a Christan League of Korea para se apoderar dos recursos e efectivamente mandar nos destinos dos cristãos do norte. No sul, a fronteira entre cristão e anti-comunista ficou pouco nítida. Houve aí alguma influência do Liberalismo (através do Kijang, uma espécie de teologia da libertação à coreana) mas também uma reacção a ele. Houve um golpe de estado em 1963 e eleições livres só chegaram em 1987. As igrejas crescem muito sobretudo no final da década de 70 (as conservadoras, não aquelas influenciadas pelo Liberalismo - conservadores coreanos condenam frontalmente o Concelho Mundial de Igrejas pela sua simpatia com as ideolgias de esquerda). No sul os protestantes chegam a 27% da população em 1990 - perto de 12 milhões de crentes. Ao mesmo tempo, no espaço de uma geração a Coreia passou de ser um dos países mais pobres do mundo para se tornar uma das economias mais ricas. É difícil não pensar na relação disto com o protestantismo.
- Desde os movimentos revivalistas de holiness, do início do Século XX, o passo foi pequeno para as Igrehas do chamado Full Gospel ou Puro Gospel, alinhando-se com o vigor pentecostal que soprava noutras partes do mundo. Salvação pessoal, regresso iminente de Cristo, curas, rejeição da probreza, e desinteresse pela política eram características. É neste contexto que nascerá a Igreja de Cho Yonggi (e outras, menos ortodoxas como o movimento Moonie).
- A Coreia do Norte tornou-se provavelmente o regime político mais agressivo contra o cristianismo, com expressões formais dele que são fachada de uma liberdade inexistente. Existem campos de educação que funcionam como campos de concentração, Bíblias são proibidas, e até execuções sumárias podem ser o que acontece a quem se suspeita de cristianismo.
- O décimo quinto capítulo chama-se "Chinese Protestantism's Long March".
- O protestantismo cresce mais na China do que em qualquer outro lugar do mundo.
- O Império Chinês nasceu na mesma época do que o Romano. A China ainda persiste surpreendentemente com a mesma identidade fundamental. Esse respeito à sua identidade e unidade cultural também é o que torna a sua preservação através do Estado um fenómeno tão valorizado.
- Historicamente, na China a religião sempre soube o seu lugar; nas tradições estatistas do Confucionismo, com o Budismo e o Daoismo, grupos islâmicos e ídolos rurais e domésticos. O cristianismo chegou lá no Século XIX mas no XX foi reprimido. No XVI, missionários católicos regressaram com ele provando a sua respeitabilidade cultural, não dando muita centralidade ao papel de Jesus e menos ainda à sua ressurreição. Quando o Papa tentou uniformizar o seu pequeno rebanho chinês, o catolicismo foi ilegalizado e sobreviveu apenas numa pquena forma subterrânea. A Dinastia Qing, ela própria de origem estrangeira, da Manchúria, tentou fechar a China à influência exterior.
- O primeiro missionário protestante na China foi o inglês Robert Morrison que em 1807 chegou a Cantão. Aprendeu chinês, que era proibido aos estrangeiros, e traduziu primeiras porções da Bíblia. Quando entre 1839-42 a China perdeu com a Inglaterra a Guerra do Ópio, os portos tiveram de ser abertos e igrejas abriram em quadro cidades costeiras (Cantão, Ningbo, Fuchow e Amoy). Catolicismo e Protestantismo, sempre vistos como religiões distintas na China, tiveram alguma tolerância nessa altura. No Ocidente havia entusiasmo para apoiar essa obra missionária. Em 1823 foi ordenado o primeiro pastor protestante chinês, Liang Fa. Produziu folhetos que foram continuados por um missionário americano, Edwin Stevens. Em 1836 um chinês chamado Hong Huoxiu cruzou-se com um desses folhetos e declarou uma visão em que era arrebatado aos céus onde via um ancião, o Criador do Mundo (Shangdi, o Senhor das Alturas), e outro que seria Cristo. Nessa visão Deus lamentaria que o mundo se dedicasse à adoração do Diabo e Hong sentiu-se renomeado como Hang Xiuquan. Sentia-se também chamado a submeter esse mundo obstinado a uma moral firme e a igualdade entre os homens, sob inspiração dos Dez Mandamentos. Baptizou-se a si mesmo e armou-se de espadas para "exterminar demónios". Em 1844 na sua aldeia começou a destruir santuários e manifestações confucionistas - a chamada God-Worshipping Society nasceu daí. Hong deixou-se influenciar pelo protestantismo sem permitir que ele questionasse a sua autoridade absoluta. Virou-se hostilmente contra a Dinastia Qing e o conflito que daí surgiu saldou-se em 20 milhões de mortos na Rebelião de Taiping entre 1851-64.
- Novas autoridades anglo-francesas chegadas a Pequim significaram mais liberdade comercial e religiosa. Apesar de toda a violenta ausência de ortodoxia, a religião Taiping sugeriu uma reverência pela Bíblia e uma resistência política que tornaram o Protestantismo significativo no futuro e, curiosamente, as áreas onde mais influenciou são as mais abertas ao desenvolvimento protestante.
- A China Inland Mission tinha em 1900 cerca de cem mil conversões, menos do que o catolicismo mas com maior eficácia em alcançar os pobres. Sobretudo as viúvas pobres tornaram-se uma ponta de lança do protestantismo.
- Algumas reacções violentas anti-cristãs atingiram protestantes nessa altura. Cerca de 30 mil morreram (sobretudo católicos).
- Em 1912 a China torna-se uma república, inspirada num modelo mais ocidental com liberdade religiosa. Tal como com a Coreia, a China, que esperava dos Estados Unidos, ressentiu-se quando eles apoiaram o Japão, virando-se também a Rússia e para o Comunismo. A onda anti-imperalista que daí veio concentrou alvo nas igrejas. Criou-se a Church of Christ in China para juntar todas as igrejas chinesas fora da influência negativa do imperialismo estrangeiro, em 1927. Nela, havia alguma influência do Liberalismo mas, noutro contexto mais antigo, defendia-se orgulhosamente o princípio triplo (self-governing, self-propagating, self-self-supporting). The Jesus Family e o Little Flock de Watchman Nee nascem neste contexto. Estas novas igrejas são teologicamente conservadoras, apolíticas, viradas para o milénio, e sem simpatia pelo Evangelho Social.
- Em 1937 o Japão invadiu a China.
- O Partido Comunista ganha mais poder e coopera com outras forças patrióticas como os cristãos. Isto é interrompido com a Guerra da Coreia e os missionários são expulsos como forças de agressão. Os Protestantes formam o Three-Self Patriotic Movement, a concessão que o Governo Comunista lhes permite. Os direitos religiosos diminuíram vertiginosamente, com alguns anos de excepção (Xangai tinha 300 igrejas em 49, 23 em 48 e 11 em 65).
- Em 1966 Mao Tse Tung empreende a sua Revolução Cultural com uma destruição física comparável à da Rebelião Teiping - todas as igrejas são fechadas. Ironicamente, a dificuldade desse tempo parece ter funcionado ao contrário, com o crescimento subterrâneo do protestantismo (cinco ou seis vezes mais). Encontros privados em casas tornaram-se a alternativa. No mundo rural, por haver menos concentração, era mais fácil resistir sem levantar ondas. A Revolução Cultural quebrou paradoxalmente a ligação entre Protestantismo e influência estrangeira, grangeando-lhe uma reputação de carácter. O protestantismo tornou-se realmente a religião dos oprimidos e de modo nenhum dos opressores. Por outro lado, a Revolução Cultural ajudou a diminuir a influência das velhas crenças chinesas.
- O protestantismo ressurgiu do campo e a partir das mulheres. Por outro lado, é portátil. Não precisa de grande logística, como o Catolicismo. É uma religião virada para a acção.
- Em 1976 terminou a Revolução Cultural com a morte de Mao. Maior tolerância veio, permitindo o crescimento das igrejas protestantes, dando até nova oportunidade de vigor ao TSPM. O crescimento das igrejas domésticas dispara, como comunidade não registadas pelas instituições controladas pelo governo (como o TSPM). Todas enchem, legais e ilegais.
- O Protestantismo continua bastante ocidental, o que não é visto como defeito (hinos anglo-saxónicos).
- O movimento das igrejas domésticas conquistou o vigor para ocupar espaços seus, muitas vezes superiores às Igrejas do TSPM. Aliás, hoje haverá muitos mais cristãos lá do que nas do TSPM. A maior parte delas aproxima-se do pentecostalismo, com ênfase em dons extraordinários.
- Calcula-se que haja na China entre 50 a 100 milhões de cristãos (ainda assim, menos de 10 por cento da população). Atraem pela sua rectidão moral, provada em todas as dificuldades, e exemplo de perdão. Por outro lado, mais recentemente o protestantismo tem atraído população universitária, mais intelectualmente curiosa. Atrai pela comunidade, esperança de assistência divina e paz interior que oferece. São reais outsiders com coragem de resistir até à recente campanha de demolição de cruzes e igrejas.
- O décimo sexto capítulo chama-se "Pentecostalism: An Old Flame".
- No início do Século XX dois movimentos dentro do Protestantismo tentavam ocupar a responsabilidade de os Ocidentais terem o privilégio o destino mundial: a World Missionary Conference de 1019 em Edinburgh, que anos depois resvalaria para o Liberalismo (com a criação do Wold Council of Churches em 48) e, nos seus antípodas, o Pentecostalismo, vindo das margens. É o último que vingou, "the most dramatic religious success history of modern times".
- O pentecostalismo ensina os cristãos a procurarem o baptismo do Espírito Santo manifestado sobretudo no dom de línguas.
- Há três ondas do pentecostalismo: a de 1906 de Azuza Street, a dos anos 60 com o movimento carismático a atingir denominações distintas e tradicionalmente fora do pentecostalismo (até no catolicismo), e a dos anos 80 e 90, com registo também em África e na América Latina. Comum é a ideia de um encontro poderoso com o Espírito Santo, ainda que ele possa provocar ênfases distintas.
- Procurar um início oficial do pentecostalismo pode ser complicado porque experiências exuberantes com o Espírito Santo sempre existiram na História, e no Protestantismo em particular. Apesar de não existirem grandes referência à glossolália em particular, o que não falta é registos de orações fervorosas, transes e visões proféticas, entre outros exemplos possíveis.
- O Metodismo, através de Wesley, abraçava a ideia de uma unção espiritual que habilitava os crentes para uma santidade total (Wesley cria no perfeccionismo). Esses movimentos de Holiness dão os antepassados imediatos do pentecostalismo e consagram uma linguagem de "baptismo do Espírito Santo", uma "segunda bênção" ou "baptismo de fogo".
- É conhecido o chamado Avivamento de Keswick, em Inglaterra, buscando por uma "chuva do Espírito Santo". Daí há efeitos na Suécia, em Gales e até na Coreia. Torrey escreve no seu "The Baptism Of The Holy Spirit" que o dom de línguas seria um corolário necessário, mas ainda por verificar na prática. É neste ambiente que o primeiro registo daquilo que se crê ser o dom de línguas se começa a registar, um pouco por todo o mundo. Agora é preciso ter em conta que o dom era tomado na sua acepção missionária inicial, de proporcionar a evangelização dotando pessoas para falar línguas que desconheciam a pessoas que precisam de ouvir o evangelho.
- Charles Parham é um evangelista no Kansas que tem uma experiência assim por volta de 1890 e que trabalha para que o dom funcione evangelisticamente por todo o mundo, instruindo estudantes que ensina. Os seus dois estudantes mais influentes serão negros: uma cozinheira chamada Lucy Farrow e William Joseph Seymour. Este último, apesar de ansioso por exercer o dom, só o conseguirá quando em 1906 assume o pastorado numa paupérrima Igreja do Holiness Movement na Rua Azuza, em Los Angeles (Apostolic Faith Gospel Mission). É aqui que se marca a génese pentecostal, na sua acepção moderna.
- Azuza era o local certo na hora certa: o auge ocidental dos Estados Unidos, em Los Angeles, a cidade que mais crescia, a mais diversa e alheia a estruturas hierárquicas eclesiásticas. O Los Angeles Times faz notícia do fenómeno a 18 de Abril de 19006. A Igreja é pobre; multi-racial (Parham quando a visita fica escandalizado por ver brancos a imitarem a fé dos negros); sem cultos organizados mas num fluxo constante de oração, testemunhos, exortações e apelos. O mundo inteiro quer ver o que lá acontece.
- A generosidade desta comunidade é assinalável, interessada em promover que o mesmo aconteça noutros lugares e não em crescer para dentro (o próprio Seymour sai da igreja em 1912 e morre na obscuridade em 1922).
- No centro da publicidade está o dom de línguas. Parham encoraja-o na acepção missionária, dando origem a muitas tentativas no terreno que se revelaram frustradas (apesar de existirem registos de missionário que sem terem aprendido as línguas as teriam falado sobrenaturalmente no campo de missão, no geral foi compreendido que os missionários teriam de aprender as línguas primeiro). Por outro lado, o vigor pentecostal, mesmo quando frustrado nessa expectativa, era suficientemente vigoroso para ganhar os missionários que já estavam no terreno antes.
- A própria doutrina do baptismo do Espírito Santo, como formulada por Parham, foi sofrendo revisões. O dom de línguas não era necessariamente uma inevitabilidade de quem recebia o Espírito. O seu ponto forte nunca foi teológico mas experiencial, o que casa bem com a personalidade afectiva do Protestantismo. Nesse sentido, torna-se o misticismo protestante possível para muitos, tendo em conta a estranheza que o protestantismo sempre sentiu em relação à contemplação, à fé sem palavras, a uma espiritualidade litúrgica, vista como elitista, ritualizada e hipócrita.
- O movimento pentecostal sempre foi visto como fanático, desorganizado, louco, sem educação ou estatuto. Acabou por se ir tornando mais formal, dando origem a denominações hoje tidas como tradicionais também. Nos anos 50, com a procura pela autenticidade, o pentecostalismo recuperou pertinência e atravessou barreiras confessionais (dentro do Protestantismo e do Catolicismo). Nessa medida, integrou o mainstream europeu e norte-americano e chegou a África e América Latina com estrondo (cerca de 177 milhões de pentecostais em África, e 181 na América Latina, sendo que a maioria veio do Catolicismo - o maior movimento de mudança de uma religião para outra da História).
- Padrões da expansão pentecostal: juventude, vida comunitária, deslocação do lugar de origem para grandes cidades, interpetação dos fenómenos modernos com uma linguagem espiritual antiga (demónios, doenças). "Pentecostalism has become the religion has become the religion of the uprooted: an instant community blithely indifferent to ethnicity whose thousands of varieties include something for everyone."
- Há uma ironia: o protestantismo fazia pouco da credulidade católica com os milagres, e agora o pentecostalismo oferece aos católicos os milagres que eles deixaram de dar.
- A acusação de alinhamento pentecostal com ditaduras de direita pelo mundo (e África e América Latina em particular) vem menos do desejo do pentecostalismo procurar poder político, e mais do desejo de ele desejar que o poder político o deixe em paz. O pentecostalismo, fortemente apocalíptico, crê pouco no envolvimento do cristão na política e mais na necessidade da política deixar o cristão em paz para ele se dedicar às questões espirituais, as realmente importantes. A condenação do Marxismo, ainda assim, tende a ser consensual.
- Ainda que o pentecostalismo afirme que a melhor maneira de a Igreja ajudar os pobres é convertê-los, por oposição ao que dizem católicos, ajuda mais os pobres do que católicos ajudam. Por outro lado, tendem a valorizar liberdade económica e procurarem-na como consequência de vidas renovadas espiritualmente.
- O Epílogo chama-se "The Protestant Future".
- Com 500 anos o protestantismo ainda é adolescente. Para Ryrie, não é teológico porque isso coloca a tónica em excluir. O protestantismo deixou impressões digitais em movimentos como o comunismo, a democracia, o feminismo, o liberalismo político, o capitalismo e o pluralismo.
- O protestantismo deve antes ser visto como uma família conflituosa. O que os une é menos o que crêem e mais "mood and emotion".
- Ryrie que o futuro trará mais enfraquecimento denominacional, sem que isso lhe seja prejudicial; uma constante capacidade de adaptação (traduzida em flexibilidade nas questões de costumes e género, acolhendo a liderança feminina e eventualmente os deireitos gay, do mesmo modo como se adaptaram às questões do divórcio), a vontade de traduzirem em termos de uma "Segunda Reforma" uma nova dinâmica futura; valorização da comida (?); continuação do debate acerca da natureza das Escrituras com mais pragmatismo do que dogmatismo.
- Geograficamente, ainda terá espaço para crescer nas regiões onde tem vindo a crescer, localizando os seu embates mais com o Islamismo (que igualmente cresce). A imagem do protestantismo é hoje definitivamente internacional e não europeia ou ocidental.
[REACÇÃO IMEDIATA A PONTOS FORTES E FRACOS DO LIVRO]
- O ponto mais forte é a sua análise psicológica, a tese de os protestantes serem lutadores e amantes. Nessa medida, incide mais numa leitura sociológica e histórica (as suas áreas, no fundo). Tende a ser vago e tendecioso quando faz afirmações acerca do que a Bíblia diz, e atribui pouca importância às questões teológicas. Nessa medida, exagera e filtra para fora da questão qualquer relevância que uma afirmação teológica tenha na identidade protestante - isso é muito difícil de engolir. Acaba por sugerir uma leitura fundamentalmente pragmática do movimento, o que pode ajudar a não idealizar, mas que não ajuda a valorizar a pertinência do conteúdo do que se crê na vida de quem crê. Tudo fica psicológico, nada conceptual.
- Por último, não haver uma única referência ao ressurgimento calvinista dos últimos 15 anos é todo um programa que confirma a miopia intencional do autor.

















