Na verdade nunca ninguém se importou muito comigo ou com os meus sentimentos. Desde criança que é desse jeito. Primeiro foi o meu pai que deixou a minha mãe quando soube que ela estava grávida de mim, pois ele sempre disse que não queria ter o trabalho todo de cuidar de um filho. Minha mãe simplesmente teve que o deixar ir e desde que eu nasci ela sempre me disse que eu não tinha um pai, que ele nos tinha abandonado e por isso éramos só nós sozinhas no mundo inteiro. Nunca soube exatamente como lidar com toda essa situação, mas eu preferi me encher de mentiras e convencer-me a mim mesma que ele tinha ido fazer uma longa viagem. Mais tarde, entrei na escola e até completar os meus dez anos de idade fui feliz. A partir daí, tudo começou a correr mal. Não tinha amigos, nem amigas, nem pessoas que se interessavam por mim. Nada, nada e nada. Os meus dias eram os piores que alguém já podia ter. Não se passava nada e todos os dias chegava a casa e me trancava no quarto chorando tudo e tudo. A minha mãe nunca soube de nada, só muito mais tarde. Doze anos e lá fui eu preparada para mais um ano de escola, naquela tortura que era não ter ninguém para conversar um pouco ou até mesmo para partilhar uma bala de morango. Cheguei a casa e quando abri a mala da escola, vi que tinha lá um bilhete meio amachucado e com uma letra super feia. Não entendia nada sobre o que estava lá escrito, apenas de tudo o que li, entendi que um alguém gostava de mim. Eu não sabia quem era, mas eu achei que fosse só mais uma brincadeira dos meus colegas por saberem que eu não tinha ninguém. Eu não podia ficar esperançosa de nada, porque eu sabia que aquilo era uma absoluta mentira. Nunca ninguém havia gostado de mim, só mesmo a minha mãe. Mais uns dias se passaram e de novo outro bilhete na minha mala, mas dessa vez era para marcar um encontro comigo atrás da escola. Eu tive medo, mas mesmo assim eu fui, porque queria parar com aquela coisa toda. O meu coração andou acelerado toda a semana e finalmente chegou sexta-feita (o dia do encontro). Cheguei lá e não estava ninguém, apenas duas árvores solitários e um vento absurdo bagunçando o meu cabelo. Resolvi então ficar uns quinze minutos à espera e de repente ouvi alguém falando um olá super baixo e tímido. Parecia como se fosse a minha alma, falando atrás de mim só para me assustar. Virei meu rosto e vi um moço um pouco mais alto que eu, de shorts pretos, camisa branca e umas meias até aos joelhos pretas também. Eu nunca tinha visto aquele garoto em parte alguma, eu acho. Ou até vi, na fila da cantina, no portão do colégio ou até mesmo na fila para o ônibus. Eu não sei, mas resolvi perguntar. Ele disse que se chamava Pedro e que tinha doze anos também e admitiu que tinha sido ele a enviar-me aqueles dois bilhetes. Eu perguntei-lhe de onde ele me conhecia e ele vagamente falou que era do colégio. Fiquei a saber o mesmo. Falamos sobre muitas coisas, mas não entendi o motivo daquele encontro. Fiquei sabendo que ele muito parecido comigo e talvez seja por isso que eu nunca o tinha visto, porque ele se escondia bastante das pessoas. Enfim, era tão tímido quanto eu era. Passou um, dois e três anos até. Nunca mais nos encontramos, nem conversamos sobre nada. Depois de mais uns anos, nos encontramos na mesma faculdade e na mesma sala. Estávamos estudando para o mesmo curso, ciências e tecnologias. Ao início conversamos bastante, mas nem soubemos que já nos conhecíamos antes. Ao fim de umas boas semanas, lá descobrimos e ficamos - sem exagero - três dias seguidos a rir daquela situação. De conhecidos do ensino primário, passamos a amigos da faculdade de ciências e tecnologias, mais tarde tornamo-nos melhores amigos, depois disso íntimos e por fim, acabamos namorando. Ele era melhor que eu em tudo. Sabia melhor as matérias, me ajudava a estudar quase tudo, frequentávamos a biblioteca juntos, íamos ao cinema todas as sextas-feiras, andávamos de mãos dadas pela escola, dormíamos na casa um do outro, jantávamos em restaurantes, íamos até à praia fosse inverno ou verão e quando chegou o baile de finalistas também fomos juntos. Eu de vestido comprido e vermelho com um salto alto enorme e ele de fato preto com camisa branca. Éramos tão diferentes de todos os outros casais. Porque na verdade a gente tinha uma história. Fizemos apenas uma pausa durante uns anos e depois continuamos a construir aquilo que deixamos para trás. Foram três anos seguidos de muito amor, carinho e felicidade. Mas houve uns tempos a seguir em que tudo desmoronou. As brigas começaram a chegar, os ciúmes começaram a aparecer e as saídas sozinhos começaram a ser mais frequentes. Já nenhum de nós tinha controlo naquela relação, mas o problema é que a culpa era sempre minha. Ele me chamava todos os nomes possíveis e imaginários, batia com a porta, partia toda a loiça, deixava a casa numa bagunça e só não me batia porque eu fugia sempre e ele conseguia se controlar. Já não havia mais ternura, amasso, beijos, abraços, sorrisos, partilhas ou até mesmo intimidades. Não havia nada. O paraíso tinha se tornado num autêntico inferno. Então eu resolvi fazer as minhas malas e sair dali de uma vez. Eu não aguentava mais qualquer briga que viesse dessa vez. Tudo estava quase explodindo e antes que isso acontecesse e tudo ficasse ainda pior eu sai e não disse para onde ir. É claro que eu fui procurar a ajuda da minha mãe, mas ela já estava tão velha e doente que uns meses mais tarde acabou por morrer e eu fiquei de novo sozinha no mundo. Tudo estava voltando. A solidão, a tristeza, a melancolia, a monotonia, a leveza, o cansaço… Tudo mesmo. Nada poderia ser pior do que toda aquela situação. O que é certo é que eu larguei tudo e fiquei de novo no meu mundo. Não quis mais saber do garoto que tinha tudo para dar certo comigo. Eu só tinha era que me acostumar que o meu destino era ficar sozinha, completamente só. Porque não havia ninguém no mundo em quem eu podia confiar ou podia desabafar. Nada, nem ninguém. Dessa vez era só eu mesma sozinha no mundo e lutando contra tudo e todos. O que é certo é que eu achei mais garotos que pensei serem o “tal”, mas todos me desiludiram ao pensar que gostavam realmente de mim. É, eu sei, nunca ninguém se importou nem vai importar comigo mesmo. Mas eu também não me importo, sozinha eu sei que não vou conseguir ter mais desilusões. E quem sabe, um dia, apareça uma pessoa exatamente igual a mim, a gente se dê bem e pode ser que tudo vá surgindo naturalmente.