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Jep Gambardella, um dos personagens mais estilosos do cinema. O verdadeiro bom vivant. #agrandebeleza #movie #filme #menstyle #menswear #moda #modamasculina #gentleman #gentlemans #bonvivant #style #stylish #instagood #lifestyle #guiaestilomasculino
“É assim como sempre termina. Com a morte. Mas antes tem a vida. Escondida atrás do blá-blá-blá Está tudo ali, no meio do zum-zum e do rumor. Silêncio e sentimento. Emoção e medo. Os surrados e inconstantes clarões de beleza. E então a humanidade esquálida e miserável. Tudo coberto sob a capa do constrangimento de estar no mundo." #agrandebeleza #paolosorrentino
Anotações sobre a passagem de Jep Gambardella pelo Rio de Janeiro
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Um dos filmes lançados nos últimos anos de que mais gostei foi A Grande Beleza. Gostaria de escrever uma resenha sobre ele, mas estou sem tempo e numa ressaca braba da festa maravilhosa de ontem, na Urca, na residência de amigos. O casal acaba de se mudar para o bairro. Linda vivenda. Ontem, os garçons não deixavam os copos chegar na metade, fossem de cerveja, uísque ou espumante. Foi prudente terem deixado os papeletes de Engov no banheiro. Tomei um antes, um no meio e um depois da festa. Posso afirmar, o Engov já não é mais o mesmo, ou eu é que não sou.
Bom, dei um google e encontrei as informações básicas sobre o filme. A Grande Beleza é um drama/comédia, de 2013, dirigido por Paolo Sorrentino, com o roteiro dele e de Umberto Contarello. Vou copiar e colar aqui a sinopse: em Roma, durante o verão, o escritor Jep Gambardella reflete sobre sua vida. Ele tem 65 anos de idade. Desde o grande sucesso do romance "O Aparelho Humano", escrito décadas atrás, ele não concluiu nenhum outro livro. A vida de Jep se passa entre as festas da alta sociedade e os luxos e privilégios de sua fama. Quando se lembra de um amor inocente da sua juventude, Jep cria forças para mudar sua vida e, talvez, voltar a escrever.
Também fiz questão de anotar algumas frases ditas por Jep de que gostei muito:
“Para esta pergunta, quando éramos crianças, meus amigos todos sempre davam a mesma resposta: vagina. Eu respondia: o cheiro da casa dos velhos. A pergunta era: o que você mais ama na vida? Eu estava destinado à sensibilidade. Eu estava destinado a ser um escritor. Eu estava destinado a me tornar Jep Gambardella.”
“Os trens das nossas festas são os melhores de Roma. Eles são os melhores porque rodam rodam e não levam a lugar nenhum.”
“Foi lindo não fazer amor esta noite.”
“É assim que sempre termina: com a morte. Mas primeiro há a vida, escondida sob o blá-blá-blá. Está tudo resolvido de acordo com a vibração e o barulho, o silêncio e o sentimento, a emoção e o medo. Os abatidos flashes inconstantes de beleza. E então a miserável e infeliz humanidade. Todos enterrados sob a capa do constrangimento de estar no mundo, blá-blá-blá. Do outro lado, é o que está além. E eu não sei lidar com o que está além. Portanto, aqui começo este romance. Afinal, é apenas um truque. Sim, é apenas um truque.”
Mas por que eu estou trazendo essas informações do nada?
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Há alguns meses, recebi esta mensagem: oi, oi, tudo bem? Já nos falamos de forma rápida várias vezes na Livraria Arte & Letra, mas acho que nunca fomos apresentados formalmente. Tenho uma espécie de coletivo com mais dois amigos, e resolvi lançar esse ano uma série de 10 contos no nosso site/página. Cada conto deverá retratar o encontro de dois (ou mais) personagens do cinema fora do seu universo narrativo. E ganhará a ilustração de um artista visual. Estou convidando e tentando fechar o “elenco” de escritores para cada conto. Queria saber se você tem interesse de estar com a gente. Os personagens seriam de sua escolha. Não colocamos limite de páginas. Podemos marcar um café se quiser saber mais. É isso. Beijo. Vicky
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Não foi preciso marcar café nem nada. Não que eu não acreditasse que uma boa conversa pudesse sair do encontro. Mas acabei sendo bem objetivo e respondi a mensagem dizendo que, sim, eu topava escrever um conto para o projeto. Vicky me disse qual era o prazo. E eu furei, não entreguei a tempo. Ela então insistiu e me deu mais um mês para a entrega do texto. Bom, amanhã é o dia final. E aqui estou eu, produzindo às pressas o conto que sequer cogitei ao longo dos últimos três meses, desde que fui convidado e topei o desafio. Não sabia sobre o que escrever até esse momento. Mas para minha sorte acabo de ler no jornal O Globo que Jep Gambardella está no Rio. Não, não o ator Toni Servillo, que interpreta Jep no filme, mas o verdadeiro Jep Gambardella, a pessoa em quem o personagem foi completamente inspirado, sim, é ele quem está no Rio. Poderíamos dizer até que o filme de Sorrentino, menos que uma ficção, é praticamente um documentário bastante fiel da vida de Jep Gambardella, o da vida real. A matéria diz que Gambardella veio para as Olimpíadas, gostou e foi ficando. Não chegou a assistir muitas competições. Também diz aqui no jornal que ele não quis se hospedar no Copacabana Palace. Onde então? Não revela. Até agora aproveitou um pouco das praias e muito da boemia carioca. É claro que o escritor e jornalista laureado foi bem recebido por aqui.
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No feriado da semana passada, Gambardella esteve na festa de aniversário de um ator global. Ele diz não se recordar qual era o nome do anfitrião. Lembra apenas que esteve numa bela casa num bairro com o pitoresco nome de Itanhangá. Gambardella conta que bebeu demais naquela noite, mas não deu nenhum vexame. O ator e sua esposa não o deixaram pegar um táxi de volta para Zona Sul. Fizeram questão que ele dormisse por lá. Generosamente, o instalaram na suíte de hóspedes, com todo conforto do mundo. Na manhã seguinte, de banho tomado, vestindo o mesmo terno creme de fio da noite anterior, Gambardella desceu as escadas em direção à farta porém saudabilíssima mesa do café da manhã. Com a cabeça ainda latejando um pouco, sozinho, óculos escuros, olhando o verde jardim e a piscina, fez uma refeição frugal que o revigorou. Em seguida, pediu à secretária da casa que chamasse um táxi. Para o casal de anfitriões, que, segundo a secretaria havia saído cedo, deixou em agradecimento um bilhete escrito em italiano. E partiu.
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Pesquisando mais sobre a estada de Jep Gambardella no Rio, deparo-me com o seu site pessoal, onde encontro sinopses e resenhas de seus livros, além de entrevistas e outros textos apenas publicados ali. Um desses textos é a reprodução do monólogo do taxista que teria trazido Gambardella do Itanhangá para a Zona Sul naquela manhã. Entre o divertido e o atônito, na introdução, Gambardella narra que ao entrar no táxi o motorista assistia a um vídeo no celular com um corpo nu todo cheio de feridas abertas, verdadeiros rasgos parecidos com mordidas de tubarão. Fui legista na outra encarnação, por isso gosto de ver essas coisas, teria dito o motorista. Gambardella conta que logo de saída soube estar diante de um homem complexo. E que então, por força do ofício, como quem não quer nada, ligou o gravador do seu celular e o manteve na mão esquerda apoiada na perna, com a entrada do microfone apontada para frente. Tranquilamente, recostou a cabeça no banco e deixou que o taxista monologasse à vontade, respondendo apenas vez em quando de modo monossilábico ou com rápidas interjeições em um português italianado ou num italiano aportuguesado.
Sua conhecida editora de Roma, conhecida não apenas por ser talvez a única editora anã de toda a Europa, mas também pela sua competência, ética e profissionalismo, encomendou a Gambardella um artigo com o tema machismo no Rio de Janeiro. Gambardella conta que, dados os compromissos sociais que a cidade tem demandado, não teve como se dedicar a uma pesquisa. No entanto, acreditava que o monólogo que ora publicava em seu site, poderia contribuir com o tema de algum modo.
O que eu havia esquecido de mencionar, e esta informação o próprio Gambardella dá em sua entrevista para O Globo, é que durante o café da manhã na festa do ator, no Itanhangá, Gambardella teria contado para a secretária da casa que estava fazendo uma pesquisa sobre o machismo na cidade do Rio de Janeiro, perguntando se ela não teria alguma indicação, alguém que ele pudesse entrevistar. Machismo, é?, teria dito a secretária, o taxista que eu vou chamar pro senhor é meu ex-marido. O senhor vai conversar com ele até a Zona Sul, aí sim vai saber o que é machismo.
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No site há duas versões do monólogo, a original em italiano e outra traduzida para o português. Gambardella conta que fez questão de pedir a sua amiga Juliane Tiorezi que traduzisse as falas anotadas do taxista.
Ligo o gravador.
O senhor vai pra onde? certo, Bairro Peixoto, é gringo, né? o senhor é gringo, Itália, sei, opa, desculpa, não era pro senhor ter visto o vídeo, eu gosto de ver, mas os passageiros não tem nada com isso, é o corpo do rapaz que caiu da pedra ontem, no tiroteio com a polícia, tinha que ver que espetáculo, o helicóptero triturando os vagabundos lá de cima.
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Nunca pensei que eu ia dizer isso, mas infelizmente tô dizendo pra todo mundo, perdi dezoito anos da minha vida, tudo bem que ela foi companheira, foi legal no início da relação, nos primeiros dez anos, nos cinco primeiros a gente praticamente se encontrava todo dia, eu passava lá, subia, entendeu, acabei me incomodando porque os filhos dela foram crescendo, ela tem um casal de filhos, era, era recém separada na época, a menina tinha quinze anos, o carinha tinha dezessete, imagina, aí ficou todo mundo adulto, se eu ainda acho ela bonita? não, bonita, não, gosto dela porque tem aquela coisa, né, eu não sei se eu sou acomodado ou o que que é, mas as minhas mulheres se ficarem comigo sem me encher, eu fico com elas direto, vou ficando, a mãe do meu filho, por exemplo, a mãe do meu filho, mesmo ela brigando comigo feito o demônio, eu ainda ficava com ela, é que a minha família toda é assim, pegou a primeira mulher, já casou, entende, dos meus treze irmãos, eu tenho dois deles que só tiveram uma mulher a vida inteira, imagina, a maioria é evangélico na minha família, aí eu pensei, vou ficar com a minha namorada mesmo, até falei pra uma passageira, uma que cuida de uma idosa, eu carrego elas pra lá e pra cá, a baixinha, bonita, e eu pensei que se eu fosse fazer alguma coisa com a baixinha ia dar no mesmo, porque é todo aquele nhenhenhém, então nhenhenhém por nhenhenhém, eu fico com a minha namorada mesmo, já que é pra ficar na mesmice, fico assim, eu gosto de ter um relacionamento sério, mas não quero saber de ficar junto o tempo inteiro, o dia inteiro, tem um colega que, rapaz, o relacionamento dele dá até raiva, a mãe, quer dizer, a mulher dele, eu conheço eles tem trinta anos, e tem trinta anos que a mulher tá do lado e tá segurando a mão do cara, não solta pra nada, onde for tá lá segurando na mão, ela é francesa, metida que dá um treco na gente, o cara é português, vai passear, pega na mão, vai trabalhar, vai qualquer coisa, pega na mão, eu acho muito chato, com a minha namorada eu faço isso porque ela exige né, é, ela exige, mas é um dia, de sete em sete dias ou de quinze em quinze só, namorado tem que andar abraçado ou de mão dada, ela diz, isso é coisa que a gente vê direto com o pessoal aí na rua, a mulher tá aqui e o cara tá lá na frente, já viu? aí não, aqui no táxi mesmo, quantas vezes o cara senta aqui na frente e deixa a mulher sozinha atrás, são relacionamentos que vão acabar amanhã ou depois, não tenha dúvida, a mulher tem uma hora que ela fica irritada com isso, aí eu fiquei falando sobre tudo isso com essa menina, com a baixinha, e ela me falou um negócio que eu não gostei muito, que meio que me tirou da jogada, que é o seguinte, mulher tatuada e mulher com negócio de moto, pra mim é tudo mulher desvirtuada, eu disse isso e a baixinha ficou bolada, a minha irmã botou uma tatuagem, ela disse, aí eu disse então virou piranha a tua irmã, rapaz, ela ficou puta comigo, a baixinha, mas que que eu posso fazer? mulher que fala que adora moto, que faz vrum vrum vrum, ah então tá bom, vou te dar o zap zap de um colega meu que tem uma Harley, mas ela também fica toda cheia de charme pra cima de mim, a pequeninha, eu fico pensando o seguinte, é que eu já vejo a coisa lá na frente, se eu tivesse visto essa desgraça que a gente tá, passando por essa situação financeira terrível, a crise né, claro que sim, culpa deles, de quem mais? crise no país inteiro, se eu tivesse visto como vejo um relacionamento, eu olho lá na frente, ainda mais esse negócio da minha mãe, quer dizer, da mãe do meu filho comigo.
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Puta, que trânsito, é por causa da Praça dos Patins ali na Lagoa, a gente pode virar, é opcional, pra direita, aqui, ou lá na frente no clube do Flamengo.
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Tem um irmão meu que é obeso, meu deus do céu, meu deus do céu, suportar é difícil, qualquer cochilo que o cara dá parece uma orca perdida no meio do oceano gritando, deve ser pra tentar achar o grupo, os filhotes, sei lá, ele é obeso mesmo, tem um duzentos e trinta quilos, além disso, é aquele cara, sabe, insuportável como pessoa, e eu tenho um outro irmão meu, que também mora junto da minha mãe, ele é deficiente mental, lembra o Costinha, da televisão?, aquelas caretas que ele fazia, lembra?, meu irmão deficiente mental é assim o tempo inteiro, é a doença dele, não tem jeito, não adianta você querer melhorar isso, é a doença dele, coisa neurológica, então, esse meu irmão obeso fica implicando com o outro, que ele tem que mudar a cara, pra ele ficar bonito porque ele é muito feio, sabe aquela implicância que não leva a lugar nenhum, e já não são mais crianças os dois, o mais novo, este que é obeso tá com 38, o deficiente, o que é deficiente tá com 55, rapaz, gente boa demais o cara, aí você a alma pura dele, eu pintava quadro né, e ele era meu vendedor de rua, ficava lá no meu painel tomando conta o dia inteirinho, ali na estação Carioca do metrô, vendia, pegava dinheiro, pegava cheque, o endereço que a pessoa escrevia, eu pintava quadro, dá pra acreditar? vivi quinze anos da minha vida na rua, ah, por exemplo, eu pintava impressionista e pintava também cópias, depois passei a pintar abstrato, retrato, um monte de troço, pintava tudo, não saía aquela coisa de obra de arte, mas saía vendável, entende, até hoje se eu pintar um quadro, colocar um cavalete ali, pintar essa árvore e tal, você vai achar que é legal, era interessante porque era uma pintura rápida, com manchas e tal, não tinha aquela coisa exatamente como tá ali, ó, a natureza, é, bem impressionista, bem largado, vendia barato, pra sobreviver na rua, eu vivia assim, dormia em cubículo, a gente alugava o espaço, vários artistas de rua, cada um pegava um cubículo lá de dois metros quadrados e ia ficando, quinze anos nessa, na praça, no táxi já tô tem doze anos, direto.
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Um dia eu tava, a minha namorada, veja bem, ela me ajuda muito porque não atrapalha, não perturba querendo saber onde eu tô, onde eu não tô, então você vai vivendo a vida tranquilamente, no dia tal você liga, ou então ela liga, não tem aquele cobrança, é porque ela sabe que eu não traio, porque eu não tenho tempo nem dinheiro pra isso, você sabe que só existe um tipo de homem fiel, foi feita uma pesquisa na Inglaterra e chegaram à conclusão que existe um tipo de homem fiel, o homem que é pão duro e machista, eu já tive uma mulher que me bancou e não quero mais saber de mulher me pagando nada, por exemplo, o machista não quer que a mulher pague nada pra ele, o pão duro não quer gastar, é uma questão de lógica, como é que ele vai namorar uma mulher se ele não pode gastar nem ganhar nada? é pesquisa dos gringos, dos teus vizinhos lá, imagina, eu tenho essa pesquisa comigo, parceiro, quando eu vi isso, pensei, caramba, sou eu, eu não traio, essa menina, essa de cinquenta anos, a baixinha que eu falei, se ela quiser um relacionamento comigo, é porque ela quis, porque eu não tô demonstrando pra ela interesse nenhum, é tudo brincadeira e o caramba a quatro, se você quiser eu te arrebento e vai lá, falei, falei na brincadeira, arrebento de fazer, de pôr pra dentro, sabe, é que ela é nordestina, porque eu trato muito com nordestino, e a baixinha é de lá, então a pessoa, com ela eu trato tudo na brincadeira, falo assim as coisas mais objetivas, não tem enrolação na conversa, aí vou falando pra ela e tal, e ela ah mas vocês homens são todos assim, tem quatro cinco, eu falei tá vendo, é isso que é o meu problema, eu converso muito com as mulheres abertamente, aí elas acham que eu tenho muitas porque eu sou um cara extrovertido, só que não, é por causa disso que eu não tenho mulher nenhuma, sim, sim, mas a minha namorada não conta, se houver uma traição da minha parte, eu com a baixinha, a situação vai ser a mais natural do mundo, já até saí do Facebook, é que os colegas do Facebook, os colegas de quadro, vai ter uma exposição de um grande amigo meu que pinta pra caraca, meu irmão, o cara é gênio da pintura, Mano Mandrix, ele vai expor no Casa Shopping agora no final de outubro, divulgou no Face, então o que acontece? quando a gente vai num encontro, todo mundo tira foto e bota onde? Facebook, eu sei que eu não vou botar no meu, mas se o colega botar no dele e me marcar, ou nem precisa marcar, já vai aparecer lá, e a minha namorada de vez em quando dá uma olhada, então eu vou sair do Face pra poder ir na exposição sem ela saber, porque eu vou viajar com ela um dia depois da exposição, então não quero ela bolada com nada, e também esse meio de pintura, não quero ela no meio, porque é um, o papo é outro, a conversa é outra, são mulheres, são relacionamentos abertos, são “qual é meu irmão?” e beija na boca o colega e o caramba, quer dizer, não é lugar pra você ir com a namorada do lado e ela, ó, você olhou, ó, você fez isso fez aquilo, não existe isso no meio da pintura, pô, é coisa de artista, tá todo mundo ali no dane-se e o escambau, respeito mútuo, sabe, nosso papo é outro, é outro clima de galera, as pessoas não entendem, pensam que você tá num sei o quê de intimidade, então essas coisas não podem se misturar, já pensam que é putaria, aí a melhor coisa é o namorado não levar a namorada em evento cultural nenhum, porque tem isso também, se ela souber que você foi, ela fica bolada, dia desses ela chegou pra mim e quem é aquela mulher que tá no teu Face? eu falei pra ela meu amor eu nem olho Facebook, que que você tá falando? aí ela aquilo tudo lá e não sei mais o quê, aí eu ah já sei, é que teve uma filmagem e eu apareci na televisão, TV Futura, uma matéria de jornalistas iniciantes que me pegaram na rua e fizeram uma matéria sobre mim, sobre a minha pintura e o táxi, aí esse pessoal me adicionou no Face, a gente ficou tudo amigo, a minha namorada foi bisbilhotar e viu uma foto, isso lá no perfil de uma jornalista, que tava de biquíni na praia, aí veio querer saber quem era aquela de biquíni e o escambau, rapaz, ãh?, não, parei de pintar, tá difícil, esse meu grupo de pintura, quando eu saio com eles pra pintar é mais assim sem compromisso, mais na amizade, mais pelo encontro que pela pintura, mas eu tô sentindo necessidade forte de voltar, colocar o cavalete ali, ó, por exemplo, e ficar pintando aquele local, tem que ser normalmente em locais assim em que possa rolar uma venda, entende, pintar um monumento, um negócio desses.
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Eu tava falando da Tijuquinha, é, eu vou ter que sair de lá, o aluguel tá muito alto, tô pagando quase mil reais numa quitinetezinha, tudo bem pequeno, pra morar sozinho até que é ótimo, aí pensei muito em, eu falo isso pras minhas mulheres e elas ficam boladas, mas eu pensei muito em ter uma namorada pra dividir as despesas da casa, o que eu digo é que eu quero me relacionar com uma mulher, que eu namore essa mulher e viva com ela e divida tudo, mas tá difícil de arrumar essa parada, até acho que daria sim numa quitinete, duas pessoas lá seria tranquilo, as mulheres se viram muito fácil, ainda mais a mulher que entrar nesse esquema, não seria uma qualquer, não, seria uma mulher no mesmo nível que eu, já cansei de esperar aquela mulher maravilhosa, acho que o único tiro que eu dei que foi realmente, que eu mirei mirei mirei e saiu mal foi essa minha namorada de agora, é, não de agora, de dezoito anos já, eu tava sofrendo pra caramba com o meu relacionamento, que era com a mãe do meu filho, que me deu uma peruca, tava sofrendo, sim, é, ahã, me traiu, meu filho que me contou, com quatro anos de idade chegou pra mim papai papai quer conhecer o Fino, o amigo da mamãe? e eu já rodando de táxi né, sem tempo, nessa época ela tava parada na casa da mãe dela, eu chegava lá, ela botava meu filho pra dormir, já dormiu, aí a gente ia e dava uma no banheiro, em pé, aquela coisa toda, eu voltava pra dirigir o táxi, não parava, trabalhava dezoito vinte horas direto, mas não tinha condição de morar junto, ele parada na casa da mãe, era uma vida enrolada que era o diabo, aí ela encontrou esse motoqueiro, passou perto dela vrum vrum, ela gostou, ele caiu na frente dela, ela foi ajudar, aí é outra coisa também de pesquisa mundial, se você tiver uma batida de trânsito, qualquer evento rápido, evento de impacto, você esbarra na pessoa no shopping, cai um negócio no chão, pronto, você vai casar com aquela mulher e vai ser um relacionamento rápido, você vai namorar aquela pessoa e vai ser passageiro, é uma relação que assim como acontece a coisa repentina, ela também dura pouco, não tem força de ficar muito tempo, e foi o que aconteceu com o motoqueiro, eu falei pra ela, sim, casado, aquele negócio todo, meu filho com quatro anos, ela já tinha engravidado de mim duas vezes e abortado, quase que eu tive três filhos com ela, ainda bem que não, mas aí ela se engraçou com esse infeliz que caiu de moto, depois eu fiquei pensando, foram minha orações, eu pedi a deus, porque eu e ela era uma relação muito difícil, muito conturbada, de briga o tempo inteiro, ela era capaz de chegar no bar e fazer escândalo, derrubava a minha cerveja, vambora seu merda, essas coisas assim, era uma loucura, a relação era um lixo, aí eu pedi a deus pra botar um homem na vida dela e pra me tirar dali, e deus deu, só que bem no momento em que eu passei a acreditar que eu tava apaixonado por ela, não, não foi na hora errada não, deus dá a coisa desse jeito que é pra ver se você vai aguentar o tranco, espiritualmente o negócio é bem assim, eu conheço um pouco do assunto né, isso, sim, espiritualidade, a minha é muito forte, medo, medo eu tenho só da parte do filho, já vi isso várias vezes, que é o cara não querer saber de ter filho, que foi o meu caso, aí ele conseguir ter o filho e o cara amar o filho loucamente e aí o filho ser morto, também é coisa de deus, agora meu filho já tá com 21, tá bem, tá bem, faz jornalismo, eu pago mil reais por mês pra faculdade dele, mora, mora com a mãe, a mãe arrumou um homem agora, já é quarto homem já, ela?, tá com 51, o cara tem 30, e eu, burramente, pelo tesão, aquela coisa toda, tentei pegar ela um dia desses, e aí que não me deu, não me deu, não me deu, e aí eu fiquei na minha né, depois sem querer eu vi lá no Facebook escrito meus amores, meus amores?, e quem era?, ela com os dois filhos, o meu e o filho do cara, aí eu pensei caraca, eu conheço ela né, vai tirar as calças pra dar dinheiro pro cara, pro filho dele, eu larguei mão e nunca mais fui atrás, ela é assim, faz qualquer coisa pra ajudar alguém, ela tira dela, ela é capaz de, se só tiver dez reais pra colocar combustível, e o cara pedir, ela dá os dez reais e enguiça o carro na rua, ué, fez isso comigo, só que na época eu não era um cara que bebia, não era explorador, não era nada, era um cara natural, essa mãe do meu filho, veja bem, eu conheci ela quando eu vim pro Rio, eu fui criado em São Paulo, eu nasci, fui pra lá, quando eu voltei eu tinha dezesseis anos, aí quando eu fiz dezoito anos eu conheci ela, aí a gente começou a namorar e eu não gostava do beijo dela, achava o beijo mole, molenga, aquela coisa, mas também coitada, ela era novinha, não sabia nem beijar né, eu fui o primeiro namorado, aí aquele beijo horroroso, eu não gostava, larguei mão, me separei, e ela viveu a vida inteira, casou, não teve filhos, o marido dela, de tantas brigas, tanta loucura, foi assaltado no 415 no Aterro, o cara puxou a arma é um assalto, com a arma na cabeça dele, e ele vai tomar no cu seu filho da puta, aí o cara atirou, aí o que é que aconteceu? ela hoje tem a pensão desse cara, não é uma grande pensão, mas dá pra comer, só que ela é tão estúpida que o aluguel dela é maior do que a pensão, na Tijuca, ela mora na Tijuca, quer dizer, ela tem que trabalhar de qualquer jeito e o meu filho entra na roda, ela trabalha de empregada doméstica nesse condomínio onde eu peguei o senhor, mas eu não sei em qual casa, ela não quer me contar de jeito nenhum, não quer que eu me meta mais na vida dela de jeito nenhum, o meu filho, sacanagem, ele acaba tendo que ajudar a pagar as contas, eu já chamei o moleque pra vir morar comigo, mas não adianta, você sabe como é, filho quer viver com a mãe, ele dirige também o táxi, esse mesmo carro, olha a cara dele aqui, gente boa demais, tá na faculdade, então não tem tempo pra dirigir tanto quanto eu, entende.
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Olha ali, olha ali, olha essa mulher passando, tá com a roupa que eu gosto, meu deus do céu, qualquer mulher que coloque esse tipo de roupa, fico maluco, é um treco que eu tenho na minha vida, essa loucura por roupa, ó, é tecido mole e fino, ó lá, se brilhar então, meu amigo, uma vez eu acordei de manhã, eu tava num hotel com uma mulher horrorosa que eu tinha ficado na noite anterior só por causa da roupa, ela tava de viscose cáqui, com a calcinha branca enterrada, bonita de ver, depois que tirou tudo, decepção, a minha namorada faz isso, ele tem umas roupas maneiras, e se ela sabe que eu tô tem muito tempo bolado com ela, aí ela vai e veste aquela roupa, mas, voltando pro meu filho, graças a deus, ele tá ótimo, só que cismou agora de namorar uma prima legítima dele, quem é a filha dele?, aliás, quem é essa menina, a prima? filha do irmão da minha ex, a mãe do meu filho, o irmão dela que tentou me matar, é mole? aconteceu uma briga, uma dessas palhaçadas, natural, aí eu fiquei bolado, saí xingando, quer dizer, eu tenho certeza que eu não falei, mas eles dizem que eu falei, então pronto, não tem como eu escapar, dizem eles que eu mandei a velha tomar no cu, a mãe da minha ex-mulher, a avó do meu filho, olha que coisa, aí passou e naquela semana mesmo peguei o carro dela e levei ela, a minha ex, pra Maricá, na casa que ela tinha lá, uma casinha simples, num lugarzinho gostoso, quando chegou por volta de meia-noite, foi só vidro quebrando e revólver na minha cara, amigo, foi o maior susto da minha vida, a irmã dela parecia uma gato desesperado, meu unhou, arranhou aqui a minha cara toda, violência gratuita mesmo, foi uma loucura, e a minha ex, ela ficou na minha frente me protegendo, aí eu peguei uma marreta, aí já viu, eu falei pode atirar, atira, e a minha ex gritando, esse que tava com o revólver na minha cara, coitado, ele tem um filho gay, olha o castigo, e aí tem o outro, que eles são em quatro né, na família da minha ex, ela, a irmã dela, o do filho gay e esse outro que também tava lá na tentativa de homicídio contra mim, ele tem duas filhas gêmeas incrivelmente iguais, pois bem, uma das gêmeas cismou com o meu filho, eu já perguntei pra ele como é que ele sabe qual é qual, periga do moleque comer as duas primas, agora, olha só a cagada, apaixonado pela prima legítima, eu falei pra ele, porque a gente tem que fazer o papel de pai né, eu disse filho, esse amor que você tem por ela, é amor familiar, aí ele falou que não tava namorando ela mais não, só que o telefone tocou e quem é que era?, acha que me engana, moleque da porra.
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Vou ter que voltar a morar com a minha mãe, como eu tava te dizendo, vou ter que fazer isso, lá na rua do Senado, no centro, com aqueles meus dois irmãos, vai ser dureza, a velhinha já tá com oitenta e sete anos, doente, dá até dó, com os outros dois lá, eu falo pra ela que sofrimento de vida a senhora tem, e ela fala pra mim só tô esperando Jesus me levar, já meu pai, que tá com noventa e dois anos, veio reclamar pra mim não tá vendo aí a diabete, que coisa, injeção na barriga, aí eu falei pra ele, pai, a frase é do senhor, o senhor sempre disse quem de novinho não vai, de velho não escapa, setenta anos de casados os dois, lá em casa eu sou o único da família que fala as coisas assim abertamente, não suporto hipocrisia, também não convivo com ninguém deles lá não, só o necessário, não tô a fim de conversa, eu falo só com os meus pais né, eu digo caramba, vocês são evangélicos, isso na boa, abraçado com eles e tal e coisa, levando na brincadeira, vou fazer o quê? são evangélicos, rigorosos, o tempo inteiro lá na adoração, aquele negócio, programa de televisão, dízimo e tudo mais, querem ir pro céu mas não querem morrer, como é que vai pro céu sem morrer? tudo bem, ninguém quer morrer, eu também não quero morrer, não é que não quero, é que pra mim morrer ou tá vivo, pra mim é a mesma coisa, não significa nada pra mim, eu sei que eu vou morrer, agora se chegar um cara pra mim com uma arma dizendo tu vai morrer filho da puta, aí é claro, aí sim, é complicado, porque você vai ter aquela sensação ruim, porque aí não é uma coisa normal, sei lá, que acontece de repente, tipo, sei lá, bater com o carro e já era, ou então levar um tiro se você tá num fogo cruzado, numa guerra.
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Olha só, aqui já não tem mais trânsito, complicado é aquela parte ali do Humaitá, que o pessoal parece que anda por ali a meio por hora, eu tava falando da filha da minha namorada, dessa, da atual, dessa que eu disse que faz dezoito anos que estamos juntos, essa filha se formou e disse agora vou arrumar um marido, aí foi tomar um chope aqui, um chope ali, os caras chegavam pra paquerar e ela saía fora, um dia ela tava bebendo em Ipanema, aí chegou esse cara, opa, tudo bem? falando grosso, bancando o gostoso, colocando mais ainda a voz só pra conversar né, resultado, os dois casaram, tiveram um filho que nasceu agora tem uns três meses, caramba, uma vida espetacular, deixaram um apartamento no Humaitá vazio, e foram pra São Paulo, aí eu sacaneei ela, ela não, que ela é meio grossinha, mas eu falei pra minha namorada, que é a mãe dela, eu te expliquei, essa tua filha ganhou na loteria, amigo, essa corrida salvou a minha vida, eu tava lá hoje, duas horas sem sair da fila, eu gostei do senhor porque o senhor é uma pessoa tranquila, e, o que é o melhor, não é estressado, e eu nem perguntei o que é que o senhor faz da vida, escritor é?, que bacana, não, Taxi Driver, nunca vi, é mesmo?, minha cara, é?, o cabelo moicano também?, não acredito, isso foi só uma graça que fiz, uma aposta lá com o pessoal da pintura, que demais, sério?, Travis Bickle, hum, será que não é um irmão gêmeo meu que eu nunca conheci?, já imaginou?, vai que veio um gringo aqui e comeu a minha mãe e ninguém ficou sabendo, essa é boa, boa boa, gostei desse cara aí que você tá falando, agora vou falar pra todo mundo só me chamar de Travis Bickle, a partir de agora eu sou Travis Bickle, quando se dirigirem a mim todos saberão que estão se dirigindo a Travis Bickle.
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Texto de Luiz Felipe Leprevost, revisão de Julie Fank | Esc. Escola de Escrita e ilustração de Abraão Sednanref.
Jep Gambardella foi interpretado por Toni Servillo em A Grande Beleza (La Grande Bellezza), filme escrito por Paolo Sorrentino e Umberto Contarello e dirigido por Paolo Sorrentino em 2013. Travis Bickle foi interpretado por Robert De Niro em Taxi Driver, filme escrito por Paul Schrader e dirigido por Martin Scorsese em 1976.
Sobre Cafés e Cigarros é uma série de breves viagens literárias promovidas por Atomic Tangerine.