É que a noite tem um silêncio estranho.
As luzes dos carros silenciam o retorno para casa.
Os televisores ligados no noticiário silenciam os prédios acordados.
O vento que tira as árvores para uma dança irregular silencia o outono que chegou mais gelado esse ano.
E a sacada do décimo andar a silencia, calada para a lua que em dez minutos irá se esconder atrás do prédio em frente.
E o silêncio. O silêncio das crianças chegando do inglês, das moças arrumadas indo para a academia, do garoto que está aprendendo a tocar guitarra, das ambulâncias com suas sirenes que se aproximam e se afastam a todo momento.
Está bem mais frio que na noite passada. Todos os pelinhos dos braços fazem esforço para mantê-la aquecida. Mas ela divide-se no silêncio que só se fará nesta noite. Não haverá nenhuma outra como esta. Nunca houve uma igual à outra.
O silêncio nunca é o mesmo.
A sacada. A rua. A cidade. A noite. Tudo freneticamente quieto.
O impulso e o salto. Tudo imediatamente quieto.
E o silêncio. Vindo em gotas do céu. Todos, naquele segundo ímpar na vida, silenciam.
A quietude dessa noite é agora mais um disco gravado em sua mente.
Deixa a sacada da forma convencional. Atrás de si, fecha a cidade toda com um estampido da porta de correr.
Serão mais 23 horas, 47 minutos e 14 segundos até o próximo silêncio.
O impulso. O salto. Ela espera.
Um abraço apertado que recebe da solidão.
O silêncio como um presente de consolação.