Daqui alguns anos talvez a gente dobre a mesma esquina, no mesmo dia, na mesma hora, no mesmo segundo. Pararemos um em frente ao outro, você me olhará como se estivéssemos nos conhecendo pela primeira. Talvez dê um sorriso. Talvez continue sério e silencioso. Será que começará deixar a barba crescer? É engraçado como na minha cabeça sempre imagino essa cena com a barba recém feita e aquele olhar de quem procura paz, mas só encontrou até hoje a guerra. O vento vai fazer questão de misturar nossos cheiros, vou sentir os olhos arderem, e provavelmente vou me esforçar para não deixar transparecer que você ainda me tem. Vou olhar discretamente para seus dedos, e me sentir aliviada se não encontrar nenhum anel perdido no meio deles, e ficar terrivelmente triste por ainda não ter encontrado ninguém capaz de cuidar de você. Daremos um passo para o mesmo lado involuntariamente na tentativa de escaparmos. Manteremos os olhos colados a poucos centímetros. Você irá perceber que o meu cabelo cresceu, e o verão me fez mais bronzeada. Com sorte conseguiremos nos cumprimentar como dois adultos. Iremos para o outro lado ao mesmo tempo mais uma vez, e seremos obrigados a sorrirmos constrangidos, nesse momento, já não vou mais ser capaz de manter o rosto intacto. Duas gotas de lágrimas vão fazer as honras antes das outras começarem a rolar como um desmoronamento catastrófico. Vou lembrar de uma música que dizia sobre a nossa história ter hora para acabar, e vou perceber como teríamos formado uma bela família. Talvez eu esteja com um moletom e um cachecol, e você continue sem muita roupa, e vou lembrar como sempre fomos como o fogo e o gelo. Vou fugir os olhos dos seus, envergonhada, por estar fazendo tantas caretas enquanto começo a encharcar o chão com tantas emoções guardadas por tanto tempo. Desesperada, vou focar os seus pés para tentar fugir, e vou achar engraçado como eles são encantadores e grandes comparados os meus. Você não vai saber o me dizer, como sempre, e vou pensar no quanto certas coisas não mudaram. Vou imaginar suas mãos no meu rosto, enquanto sussurrava para eu sorrir, mas as únicas mãos que sentirei serão as minhas tentando inutilmente limpar o rímel borrado. Darei um passo sozinha para o outro lado, você não vai me acompanhar dessa vez. Começarei a caminhar. A câmera frontal do celular mostrará que você estará parado de costas, me deixando mais uma vez ir embora. Vou sorrir ao ver que ainda tenho coração, porque ele estará doendo muito.