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Xuebing Du

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sanguedejesustempoder:
O silêncio das ruas e sua destruição eram, aliás, sempre muitíssimo excitantes para seu cão mais idoso e consequentemente tornava-se complicado para o sacerdote mantê-lo próximo de si e dos menores, mas ainda que fosse preocupante o animal era inteligente o bastante para não avançar sobre quaisquer defunto, porém somente esconder-se entre pulinhos por entre os escombros da cidade. Por isso, Osiris tentava abrir a porta de um automóvel aparentemente abandonado, pensando que seu cachorro estivesse sobre o seu interior quando sentiu o produto rijo tocar-lhe na traseira, fazendo-o virar minimamente para a sua lateral esquerda, com os braços minimamente levantados em rendição.❝ — O meu cachorro costuma refugiar-se em lugares inapropriados. Eu só estava conferindo, rapaz. ” dito isso afastou sua silhueta do veiculo alheio, e então finalmente tornara-se frente a frente com o outro, e durante a mesma ocasião percebera sobre as feições que lhe encaravam, e logo as lembranças invadiram seu cérebro.❝ — Mateo, é você. ” afirmara ainda que a dúvida perdurasse, agora pouco importando-se sobre o paradeiro de seu animal.❝ — Céus, rezei para a sua família por anos e agora você está aqui, garoto. Deus me ouviu. ”
Reconheceu a voz antes mesmo de ver o rosto do homem diante de si. Perguntou-se quais seriam as consequências morais para a sua alma caso atirasse em um padre– se é que tinha uma alma. Permitiu-se conjecturar aquele cenário em pensamento: Alejandra não precisava saber, bastava puxar o gatilho e então arrastar o corpo para longe de seu carro. Colocando na balança a contribuição daquele homem ao mundo e o quanto ele o irritava, o peso do quão insuportável era Osiris parecia superior... por algumas centenas de toneladas. Mateo odiava todo e qualquer tipo de religião: era difícil acreditar na existência de um Deus que o havia abandonado quando era não mais que uma criança. Quando os Rubio tornaram-se um quarteto de órfãos, fora o sacerdote quem tentara os prestar algum tipo de apoio emocional, mas seus monólogos sobre os planos de uma divindade que parecia incapaz de qualquer tipo de piedade haviam feito o sangue de um pré-adolescente desacreditado ferver. Por ele, el clérigo podría meter sus oraciones por el culo. “Go on with the religious bullshit and I’ll help you meet your maker.” Ameaçou prontamente, apesar de ter baixado e guardado a arma a contragosto. Quando mais novo, o havia dado o tratamento de silêncio mas, infelizmente, talvez aquele homem soubesse algo sobre suas irmãs, de maneira que precisou o conceder uma dádiva da qual não era mecedor: o prazer de ouvir sua voz. “Have you seen my sisters?”
every reunion is a type of heaven — mateo&marisol
cldcst:
Não conseguia parar de chorar, tremer e de o tocar, incapaz de fechar as portas da barragem que tinha construído em sua mente, agora que elas estavam abertas. Era como se os sentimentos de todos aqueles dias viajando do lado de Alejandra tivessem sido guardados num pequeno compartimento em seu cérebro e, agora que estavam tendo oportunidade, todos estavam saltando para fora, desesperadamente quer ver a luz do dia. Seu coração batia tão rápido que parecia explodir, respirar parecia difícil quando o próprio oxigénio queimava os seus pulmões ao ponto de doer. Sua mente se dividia entre felicidade por ele estar ali, são e salvo, em seus braços e a culpa que ainda dilacerava seu próprio ser, por o ter deixado para trás. Por não o ter insistido, por não o ter esperado. Deveria tê-lo protegido também, como fizera com Alejandra, mas falhara-lhe de uma maneira que nunca o poderia recompensar e nunca lhe poderia pedir para a perdoar, porque, no lugar dele, não estava certa se seria capaz de o fazer.
Quando se afastou, o fez a contragosto. Ainda não lhe parecia real. Que ele estava ali. Bem ali. Foi o nome que escapou dos lábios dele que a trouxe de volta para realidade. Alejandra. O motivo que ela tinha sobrevivido e a única e principal preocupação de todos eles. ❝ — Ela está bem. A salvo. — ❞ Tranquilizou-o, aos poucos retomando sua calma, limpando seu rosto com a manga de seu casaco. Se arrependeu de imediato por ter perdido a calma daquele jeito, porque odiava sentir-se daquele jeito. Fraca. Vulnerável. A levava para a mesma noite que quase tinha perdido sua vida, com o quanto inútil se sentira, incapaz de tirar as mãos do seu pai de seu pescoço, incapaz de parar Apolo antes que ele jogasse sua vida no lixo por eles todos. A lembrava de uma altura de sua vida que ela não teria sido capaz de salvar sua irmã mais novo, capaz de a manter viva.
E, a pior parte de tudo aquilo, era que era incapaz de esquecer o quanto inveja de Alejandra tinha, por vezes.
Tinha colocado esse sentimento em particular num canto de sua mente, fechado a sete chaves. Por vezes, parte dele se escapava, devagar, entre as frinchas de sua prisão, fazendo-a odiar-se um pouco mais só por o sentir. Ali, na frente de seu irmão, era incapaz de não o sentir. Era infantil querer a atenção dele para si, quando era óbvio que ele perguntaria. Alejandra era a prioridade deles. De todos eles. Ela sempre seria a favorita, a pequena protegida. A menos quebrada de todos eles. A que ainda tinha uma chance, mesmo no mundo quebrado que os rodeava. Se perguntava se ela sabia o quanto sortuda ela era.
❝ — Ela está ficando… Com um amigo. Numa fazenda nos arredores da cidade. Torceu o pé, mas está melhorando. — ❞ Explicou, abrindo um meio sorriso. ❝ — Eu posso te levar lá agora. Eu estava voltando de qualquer jeito. Está ficando tarde. — ❞ Como se a pequena explosão não tivesse acontecido. Deu um passo para além dele, deixando que a luz do sol batesse na sua cara, soltando um suspiro tremido. Se ela conseguira passar meses sem se deixar ir a baixo, ela conseguia por mais umas horas. Só o tempo suficiente de deixar Mateo com Alejandra. E depois… Estaria sozinha.
Ouvi-la dizer que a caçula da família estava viva e bem pareceu retirar um peso de seu peito, permitindo finalmente que voltasse a respirar. Se a tivessem perdido, tinha certeza que nenhum dos irmãos seria capaz de perdoar a si mesmo, a mais velha dentre os quatro principalmente.
No momento em que a irmã se afastou, deixando-o desamparado uma outra vez, sentiu falta de Apolo como um sobrevivente de guerra o faria com um membro amputado: sabendo que havia chegado até onde estava sem ele ao mesmo tempo em que a dor fantasma da ausência o assolava. A relação que tinha com cada um dos outros Rubio era única, e todas tão incontestavelmente diferentes entre si. Com Alejandra, sentia que a mais nova precisava de si. Apolo era o exemplo de tudo aquilo que se esforçava para ser sem sucesso algum, e o amava tanto quanto o ressentia; Já Sol, bem... negasse o quanto fosse, era ele quem precisava de Marisol. Sempre havia precisado.
Assistindo-a se afastando, porém, esforçando-se para manter o tom de voz estável e positivo como tantas vezes a havia visto fazer antes, algo dentro de si pareceu se partir de maneira que não tinha certeza ser possível remendar. Sentiu-se um peso então, por fazer com que a irmã precisasse usar uma máscara de coragem e indiferença ao seu redor na esperança de o proteger da realidade. Mateo já não podia ser protegido; havia há muito se tornado parte daquele mundo sombrio e deturpado.
Tomou a mão de Marisol na sua na esperança de a impedir de se afastar. “Drop the ‘brave face’ act.” Pediu, dando um passo na direção da irmã e permitindo que o sol banhasse sua expressão para que ela o visse; verdadeiramente o visse. Havia pesar em seus olhos, raiva na maneira rígida com que havia trincado a mandíbula. Os sinais que entregavam o que realmente sentia eram pequenos, imperceptíveis a qualquer um que não o conhecesse: a testa franzida, o pequeno tremor de seu lábio inferior. Sentia medo.
Não por si, é claro. Por ela. Porque passara todo este tempo se perguntando se a irmã estaria viva e, agora que a tinha ao seu alcance, o medo de a perder diante dos próprios olhos tornava-se algo visceral.
Quando falou novamente, sua voz suava derrotada e exaurida. Entregou, de uma só vez, todos os temores e vulnerabilidades que havia guardado só para si. “Alex can wait. Can you just... stay with me for a while?”
ravxna:
Não fazia muito tempo que havia levado um tiro na perna, o que ainda doía bastante, mas parecia uma eternidade desde que Ravena estava confinada numa fazendo distante de tudo. Ainda poderia sair para olhar o sol, certo? A garota se esforçou para caminhar até a porta, mancando e ignorando o leve incomodo que sentia em sua perna. Abriu a porta de onde estava e caminhou para a varanda, respirando fundo e apreciando a vista. Olhou para dentro de casa, estava apenas com as roupas que a vestiam e ela também não iria longe. Talvez Roy não se importasse se ela fosse dar uma volta por ali. Ela só queria caminhar um pouco, pra variar. O sol estava esfriando, a brisa da tardezinha começava a ficar agradável e a garota saiu. entrou no bosque, querendo sentir o contato com outras coisas que estivessem fora da fazenda, claro que sempre tomando cuidado para não dar de cara com um walker.
Era um apreciador de silêncios. Entre as árvores costumava encontrar não só abrigo, mas o exato tipo de quietude que considerava necessário para colocar os próprios pensamentos em ordem. A sombra projetada pelas folhas, escondendo-o do sol, o fazia sentir invisível – bem, mais do que o habitual, pelo menos. Havia estacionado seu carro nos limites da pequena mancha verde, tendo o cuidado de o esconder antes de deixá-lo para trás, de modo que só o que trazia consigo eram suas armas e a roupa que tinha no corpo. O mundo como havia passado a conhecer lhe dava a impressão de ser algo e fora de lugar, e era somente nas raras ocasiões como aquela que sentia ali pertencer. O pequeno momento de paz que estava se permitindo aproveitar foi interrompido pelo som de passos esmagando galhos e folhagens. Quando a fonte dos ruídos por fim se fez aparente, Mateo há muito já havia sacado sua fiel glock e a apontado em sua direção geral. Ao registrar uma figura humana, – feminina e próxima de sua idade, uma parte insistente de seu cérebro fez questão de acrescentar– seu dedo se afastou quase instintivamente do gatilho, apesar de ter mantido a arma erguida como precaução. “Uh. Hi.” Foi o melhor que pode oferecer como cumprimento. Sentiu vontade de atirar no próprio pé.
aliceoctaviabenenati:
Para um Italiano, a ausência de alimentos podia tornar-se um transtorno. Habituados para além das quatro refeições diárias, qualquer razão é o suficiente para começarem a cercar-se de vinhos, aperitivos e pasta. Um costume cultural que provou, nos tempos atuais, um estorvo. Com a escassez de comida gradualmente a se alastrar por todos os estados do país, vasculhar por itens básicos e tão necessários era de certo fonte de irritação.
Pela segunda vez na semana, Alice encontrou-se em meio a um armazém escuro, com aroma de mofo, a procura de qualquer alimento não perecível. A esta altura, tudo o que o tempo consumia já tornava-se imprestável, e eram poucos os recursos deixados para trás por nômades como ela. Faminta e mal disposta, a morena acidentalmente empurrou um dos seres contra uma estante de metal vazia, enquanto abruptamente retirava uma faca de caça de sua têmpora. O alto ruído provocou-a calafrios, mentalmente a proferir ofensas nada esperadas para uma mulher tão doce quanto uma enfermeira. Mais infectados poderiam ser atraídos pelo barulho e, sem dúvida, ela não era capaz contra uma horda de canibais.
De súbito, uma sombra abraçou sua figura. Desprevenida, Alice rapidamente rodopiou em seus calcanhares, de modo a por-se de frente à possível ameaça. Com a faca sangrenta em punho, ela encarou-lhe. E, lentamente, abaixou sua arma. “Da próxima, não esgueira-te por de trás duma gaja com uma faca,” queixou-se ela, a arfar, e em seu rosto a clara falta de assimilação da situação e do indivíduo a sua frente.
It’s like a scavenger hunt, tentava tranquilizar a si mesmo todas as manhãs quando precisava sair para procurar suprimentos, a scavenger hunt in Left 4 Dead 2. O medo era uma constante em sua vida, mesmo que sob controle, desde que o mundo era mundo. Com o tempo aprendera a ignorar em prol não só da própria sobrevivência, mas na esperança de reencontrar as irmãs. Estava sempre coletando alimentos na intenção de prover não só para si, mas também para Alejandra e Marisol quando as encontrasse. Casas abandonadas, fábricas, depósitos, supermercados, restaurantes e até orfanatos: envergonhava-se de já ter saqueado a todos, mesmo que seu compasso moral o impedisse de tomar dos vivos.
Naquela tarde em particular, ao adentrar um enorme galpão onde a luz solar não era capaz de penetrar, recordou-se de uma época em sua infância em que, apesar de todo o inferno que era sua vida doméstica, ainda era capaz de encontrar paz e conforto na companhia dos irmãos. Lembrou-se, em especial, de Apolo, com quem dividia o quarto e a quem incomodava para deixar a luz acesa todas as noites quando tinha medo do escuro. Queria que o irmão estivesse ali agora. Talvez então seu coração batesse tranquilo.
Se perguntava se os roamers eram capazes de ouvir o ritmo frenético de seus batimentos cardíacos. Quando um lançou-se sobre ele a partir de uma das estantes junto às paredes, julgou que a resposta fosse positiva. Na intenção de poupar balas e evitar produzir ruído que chamasse a atenção de outros infectados, desembainhou a faca de pesca que levava consigo junto à panturrilha e a enfiou no olho da criatura até a sentir afundar em seu cérebro.
Um ruído alto, porém, capturou sua atenção tão logo havia acabado de eliminar a ameaça. Virou-se rapidamente em direção à fonte do som e, para o seu mais absoluto espanto, encontrou uma familiar figura feminina diante de seus olhos. Mateo não era o tipo que abraçava no dia-a-dia mas, qual reação seria mais natural que aquela ao reencontrar alguém que se julgava morto? A envolveu com os braços antes mesmo de ter tempo de processar toda a informação– quando o fez, afastou-se com a mesma velocidade. O estranhamento que encontrou no rosto de Alice o pegou de surpresa, porém. Sacou a lanterna de fricção que carregava em seu cinto e a acendeu, iluminando o próprio rosto. “Does that shine a light on your memory?”

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siriusbutnotblack:
“ — Athos revirou os olhos. Estava cansado daquelas pessoas que se achavam os fodões no novo mundo. “Olha só tenho uma arma”, “olha só como eu te ameaço”, “olha só como eu sou o bonzão”. Essas pessoas morriam fáceis e Athos considerava aquilo um alívio. A parte boa daquela merda toda era que: de um jeito ou de outro, o mundo estava sendo limpo de pessoas daquele tipo e quando tudo acabasse, sobrariam aqueles que realmente eram bons sem precisar se gabar ou coisas assim. —— Eu definitivamente não preciso dos seus conselhos, espertão. Na minha frente tem o seu carro e nas minhas costas a sua arma, e eu ainda não aprendi a atravessar objetos sólidos, então abaixa essa merda que eu saio. — voltou sua cabeça para tás, encarando o mais velhos como se ele fosse algum tipo de retardado ou coisa assim. Empurrou um pouquinho o corpo para trás, batendo contra a arma como quem queria dizer para ele afastar logo. —— Anda logo, se fosse me matar já tinha feito, porque não ia ficar perdendo seu tempo com uma arma apontada pra mim quando tem zumbis na nossa volta. — disse, esperando ser liberado, apenas porque não sabia quais movimentos poderiam considerar a sua morte. Uma arma sempre era um perigo mesmo na mão de um babaca. ”
Acabou por rir novamente, pois toda a situação lhe parecia engraçada, em especial ao considerar que o garoto esquisitão sob a mira de sua arma parecia só ser capaz de se locomover para frente e para trás. “Huh. I thought crabs could walk sideways. The more you know.” Utilizando-se da mão pousada do ombro do estranho, o girou prontamente, dando suas costas para o carro e o afastando no processo. O deu um empurrão – não com menos gentileza que o necessário – antes de abaixar a arma, recostando-se contra a lataria do carro no processo. ‘Eu não quero te matar, mas não tenho problema algum em te mutilar um pouquinho caso tente algo estúpido’, pensou consigo mesmo, economizando as palavras que dizia em voz alta. Algo na atitude do garoto, porém – talvez a ligeira indicação de que odiava ser tratado como uma criança – o fez lembrar de Alejandra. Esse foi o único motivo para a oferta estúpida que deixou escapar a seguir. “Quer uma carona?”
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cldcst:
Olhava os quadrinhos sem particular em atenção, perdida em suas próprias memórias, até que seus olhos repousaram sob um em particular. Tentou rir, mas o som foi perdido entre seus próprios soluços ao ver o emblema tão familiar a ela. Se recordava de como o rosto de Mateo se iluminava por um gesto tão simples. Não importava o que tinha de fazer para conseguir aqueles poucos dólares que não significariam absolutamente nada para a maioria das famílias do outro lado da ponte, o sorriso de seu irmão era o suficiente para fazer tudo valer a pena. Não se importava daquelas horas passadas no parque, enquanto ele absorvia cada palavra, cada imagem, sempre lhe explicando animadamente o que estava passando, fazendo-a rir com sua empolgação. Mais preciosamente ainda guardava aquelas de quando ele ainda não conseguia ler direito, esperando sempre pacientemente que Marisol lê-se as curtas palavras em cada quadrinho, rindo de quando ela tentava imitar suas vozes.
Pegou no quadrinho, o guardando na sua bolsa, como se fosse uma pequena memória sua que pudesse olhar quando quisesse se sentir um pouco mais perto de Mateo. Suspirou, limpando as lágrimas de seu rosto. Não se podia dar ao luxo de ficar muito tempo presa em seus próprios sentimentos. Alejandra a estava esperando e, de momento, ela tinha de ser a única preocupação. Mas um som chamou sua atenção. Engoliu em seco, paralizando no lugar, rezando para que a escuridão fosse suficiente para esconder, quando ouviu a arma se destravando. No entanto, jurava que seu pescoço tinha estalado com o quanto rápido o tinha virado quando ouviu a voz. Aquela voz que lhe era tão familiar, chamando pelo seu nome, como já tinha feito tantas outras vezes. Por momentos, achou que era sua mente lhe pregando uma peça, a castigando por ter falhado com ele. Mas o rosto, meio envolto pelas sombras lhe parecia tão familiar. Tão… Ele.
Deixou cair o taco, em completo choque. ❝ — Theo? — ❞ Sussurrou, incapaz de acreditar que era ele. Era… Impossível. Coincidência demais. Se esqueceu de tudo o que aprendera sobre auto preservação naqueles últimos meses, se aproximando em passos lentos do outro, sem ainda ter a certeza que era seu irmão. Mesmo quando já estava na sua frente, encarando seus olhos doces que pareciam tão chocados quanto os dela era incapaz de acreditar. Tocou seu rosto com ambas as mãos, já sentindo as lágrimas voltarem a escorrer. Ele estava ali. De alguma forma, por muito impossível que soasse, ele as tinha achado. Quando a realidade a atingiu, não perdeu mais tempo em rodear o pescoço do irmão com seus braços, chamando seu nome, uma e outra vez, incapaz de parar de chorar, o agarrando tão forte que o estaria magiado. Soava desesperada, quase como se estivesse aterrorizada com a possibilidade que ele fosse simplesmente sumir, arrancando aquele pequena fagulha de esperança de suas mãos, quando tudo o resto parecia perdido.
Esperança. Quando insistira em ficar em New York por medo de deixar sua zona de conforto, parte de si fora tolo o suficiente para acreditar que Marisol não o deixaria para trás. Não uma segunda vez. Vê-la partir sem ele o ferira mais do que jamais se permitira colocar em voz alta, mas a resignação o impediu de expressar o quão magoado ficara. Não tinha o direito de a julgar por querer proteger Alejandra, posto que tinha o mesmo instinto dilacerador, mas a parte egoísta de si se perguntava se alguma vez alguém o protegeria daquela maneira. Nunca o haviam feito. Mesmo em criança, sempre se esforçara para ser ele quem protegia os irmãos, assumindo uma responsabilidade muito mais grave que seus poucos anos de idade comportavam. Aquela não foi a primeira vez em que teve que enfrentar seus medos sozinhos, mas certamente foi a pior– mesmo depois, quando encontrou companhia em uma figura desconhecida que veio a se tornar um pilar de amizade, a sensação de solidão e abandono seguiu pesando sobre seus ombros e lhe roubando o sono. Ao mesmo tempo em que se sentia esquecido no passado, se culpava por ter ficado para trás e deixado as irmãs desprotegidas.
Depois de elas o terem deixado, houvera dias em que duvidara de sua própria sanidade. Em que se perguntara se tudo o que se desdobrava diante de seus olhos, toda a morte e a destruição, poderia ser verdade. O mundo parecera deixar de fazer sentido no momento em que separara das duas. Ao ouvir a voz que lhe respondeu com um tom de incerteza que espelhava o seu, porém, teve consciência do quão real era aquele momento. A constatação lhe trouxe certa estranheza: aquele era o tipo de cenário que só se permitia devanear sobre em suas noites de insônia; coisas boas como aquela não aconteciam na vida real, não para pessoas como ele. A sensação de um par de braços se arremessando ao seu redor e o envolvendo, surpreendendo-o com o quão tangíveis e familiares eram, deveria ser evidência suficiente de que não estava alucinando. Para além de arrancar o ar de seus pulmões em forma de uma exclamação de choque, deveria tê-lo acalmado o coração.
Permaneceu perfeitamente imóvel pelo que lhe pareceu uma eternidade. Quando finalmente encontrou em si a força necessária para se mover novamente, travou sua arma e a guardou antes de estender a mão e, com certa hesitação, tocar o rosto da irmã. O encontrou molhado.
Era como se cada célula de seu corpo tivesse sido levada à exaustão somente para o proporcionar aqueles poucos segundos em um abraço que certa vez havia sido seu porto-seguro, antes de todo o inferno desabar sobre os dois. Permaneceu em silêncio, parecendo imperturbado na superfície, até que, pouco a pouco, seus braços a envolveram e trouxeram para si como se nunca mais estivessem dispostos a deixá-la ir. Ao pousar suas mãos sobre os ombros de Marisol, percebeu ser incapaz de as manter estáveis.
Ela ainda era capaz de chorar. Pensou em todas as vezes em que fora dormir naquele exato estado, tentando soluçar baixo para que ninguém o ouvisse, antes de aprender a engarrafar as próprias lágrimas e as guardar para si – sozinho, confinado em um abrigo juvenil que mais lhe parecia um presídio. Pensou em todas as mentiras que contara a si mesmo e à irmã. ‘Eu estou bem’, ‘não há porque se preocupar’, ‘são só marcas do treino de futebol americano’.
Foi então que sentiu a si mesmo vacilar; o colapso começou de dentro para fora: tinha encerrado suas emoções em si mesmo por tanto tempo que agora elas pareciam transbordar todas de uma vez, o fazendo tremer contra o corpo da irmã conforme a pressionava junto a seu peito. Era como se só o que o estivesse mantendo de pé fosse a presença reconfortante da irmã junto a si. Uma única constante em um mundo que havia se tornado nada mais do que caos e terror.
Não chorou.
Quando recuou para encarar Sol, sua expressão era a de alguém que estava sendo dilacerado pelas próprias dúvidas. Ao mesmo tempo em que queria fazer a pergunta em voz alta, tinha medo da resposta. O medo voltou tão rapidamente quanto se tinha esvaído, trazido de volta por uma ausência que se fez notar. “... Alejandra?”
A verdadeira questão estava nas entrelinhas.
Ela está viva?
every reunion is a type of heaven — mateo&marisol
cldcst:
Havia algo naqueles dias de sol que a perturbava. Talvez por ser a memória de dias melhores que ela saberia que nunca voltariam. Doía olhar para cada canto e ter uma memória nova a esperando. Naqueles momentos, quando estava só e longe de Alejandra, se permitia a pensar em seus irmãos. Pensava em Apolo, como fazia meses desde a última vez que o vira. De como o deveria ter visitado mais, lhe dito todas as coisas que nunca mais teria hipótese de dizer. De como ele costumava ser sua rocha, quando eles ainda viviam em casa de seus pais e não parecia haver uma única fagulha de esperança que a vida deles fosse melhorar. De seu corajoso Apolo e como ele a salvara de ter o mesmo destino que a doce mãe dele. De seu rosto manchado de sangue, da última vez que o abraçara, com lágrimas escorrendo, sem ter a certeza quando o veria de novo. Permitia-se recordar, como não fazia em mais nenhum momento, por causa de Alejandra. Desde o momento que conseguira sua guarda, nunca mais se permitiu a ser vulnerável na frente da irmã. Fazia sempre questão de a animar, de a proteger, de a fazer sentir que estava tudo bem, mesmo quando, claramente, tudo não poderia estar mais errado.
E, por vezes, pensava em Mateo. Esse tema era particularmente doloroso para Marisol, porque sempre que recordava seu irmão, lembrava-se de todas as formas que lhe falhara. Em só ter começado fazendo dinheiro suficiente para prover para ambos quando já era tarde demais para ser tudo aquilo que ele precisava. Do jeito que, quando o visitava, via algumas marcas roxas em seus braços, mas preferia não perguntar. Não perguntava, porque temia a resposta. Temia saber que estava deixando um de seus irmãos sofrer, para que a outra tivesse a vida mais confortável possível. Alejandra era a prioridade de todos, é claro. Mas sempre se questionava se não podia ter feito mais. Arrumado mais um emprego. Ter encontrado aquela vida idiota de acompanhante mais cedo. Sentia falta dele, de sua presença tranquila, dos seus raros sorrisos. Deuses, sentia falta de tudo nele.
E fora enquanto pensava em todos esses pequenos momentos que seu olhar recaiu numa loja de quadrinhos. Porta fechada, mas vidros partidos. Riu, ao perceber que as lágrimas já manchavam seu rosto, ao se lembrar de como sempre juntava todos os seus centavos para comprar o seu favorito, todas as semanas, quando ainda viviam com seus pais. Não hesitou em caminhar até ela, quebrando os poucos vidros que ficaram com seu taco, tendo ter a certeza que não se magoaria ao passar pela janela. Analisou o espaço, avançando com cuidado, se sentindo algo aliviada quando descobriu estar absolutamente sozinha. Passou pelos corredores, deixando seus dedos tocarem as capas empoeiradas de cada quadrinho, finalmente se permitindo perguntar se seu irmão ainda estaria vivo.
O S envolto em um emblema de escudo. O brasão da House of El. Em kryptoniano, significava esperança. Era exatamente do que precisava em um momento como aquele. O pequeno Mateo um dia sonhara em ser o Superman quando crescesse – capaz de salvar o dia, admirado por todos a sua volta; protagonista da própria história. O caminho que a vida decidira traçar para ele fora o exato oposto: coadjuvante em sua própria vida, cresceu entre a sombra do irmão mais velho e a ausência de um afeto que toda a família parecia dedicar somente à caçula. O mais novo dentre os rapazes do clã Rubio era só uma criança quando entendeu pela primeira vez a dureza do mundo a sua volta. Despido de sua ingenuidade, passou a guardar os pensamentos e carências só para si. Tornou-se um adulto em miniatura, dedicado integralmente à segurança e bem-estar da mãe e dos irmãos, e eram poucos os momentos em que se permitia ter uma infância.
As tardes em que Marisol o levava até a pequena e esquecida loja de quadrinhos em sua quadra no Brooklyn eram uma destas excessões. Tinha perfeita consciência dos sacríficios feitos pela mais velha para o presentear semanalmente com as novas aventuras de Clark Kent, o tipo de homem que Mateo entendeu nunca ser capaz de ser quando sequer tinha idade o suficiente para fazer a barba. O tipo de homem que continuava tentando ser mesmo em ocasiões como aquela, em que o impulso primal de toda e qualquer pessoa seria somente o de sobreviver. Reviraria todo o território americano se preciso fosse – só o que importava era reencontrar suas irmãs. As manter a salvo. Ser, pelo menos uma vez, o herói.
Cruzara o país tendo em mente que nada mais no mundo importava além daquele objetivo. O percurso entre New York e Savannah não o havia preparado para a dura realização que viria a seguir, porém. Ao chegar na pequena cidade e dedicar-se a procurar pelas irmãs por dias, sem resultado algum, veio assomá-lo o terror em sua forma mais pura e febril: talvez as duas estivessem mortas. Quando fechava os olhos todas as noites para tentar dormir, por vezes sentia uma vontade de chorar tão avassaladora que lhe queimava a garganta. O medo era uma coisa interessante – para quem não estava acostumado, poderia ser suficiente para paralisar. Uma vez que se aprendia a conviver com ele, porém, tornava-se uma força propulsora. Explodir os miolos dos walkers, coletar suprimentos, afundar o pé no acelerador: tudo aquilo há muito já havia se tornado mecânico. Era agora parte de sua natureza tal como o ato de respirar. Caminhava entre avenidas desoladas sem piscar duas vezes antes de pisar sobre os destroços. Quando alcançou o que lhe parecia uma rua de comércio, aproximou-se de uma das poucas vitrines inteiras e encarou o próprio reflexo com certo estranhamento. Já não era criança. Há muito o brilho da esperança deixara de incandescer seu olhar, substituído pela dureza da determinação. Ao fitar o que havia além do próprio semblante, o vidro lhe devolveu algo que era, ao mesmo tempo, visão e memória. Havia atrás de si uma fachada violada por mãos humanas, pouco restando de pé além da estrutura principal e da porta. Foi então que notou tombado no chão, castigado pelo tempo, o esquecimento e a umidade: em meio aos emblemas de toda a Liga da Justiça, lá estava o símbolo do Superman, um sinal em neon despido de seu brilho e glória. O pequeno estabelecimento era uma loja de quadrinhos tal como a que costumava visitar.
Pareceu-lhe, então, faltar um pedaço de si. A dor lhe foi quase física. Mesmo para o mais cético dentre os ateus, aquele era um sinal de esperança.
Seus batimentos cardíacos pareceram estender-se infinitamente entre os segundos que levou para cruzar a distância que havia entre ele e o pequeno token de seu passado. O esmagar de vidro sob suas botas entregou a sua presença no primeiro momento. Pôde ouvir dentre os corredores a respiração de alguém. Quando seu instinto de autopreservação lhe disse para sacar e destravar a glock .40 que havia em sua cintura, simplesmente o ignorou.
Não era bom com palavras. A única que lhe escapou foi um nome– não, uma prece. Uma súplica. “Sol?”
lexierjones:
Lexie o encarou enquanto o outro ria, perguntando-se o que possivelmente poderia lhe ser engraçado. “Está se divertindo?” Perguntou ironicamente, levantando ambas as sobrancelhas. Agora foi a vez de Lexie rir, já estando acostumada com ser subestimada. Algumas semanas atrás, talvez, as pessoas estariam certas em fazê-lo, mas agora a garota encontrava-se mais determinada em sobreviver. “Portanto hoje você aprendeu uma lição bastante valiosa sobre não julgar um livro pela capa. Se você tivesse se aproximado sem falar nada muito provavelmente eu teria atirado.” Da última vez que não o fizera infelizmente tivera que pagar muito caro. Observou o garoto da cabeça aos pés, franzindo as sobrancelhas. “Não é daqui, é?”
Ficava desconfortável sempre que sua inaptidão social era percebida, e aquela vez não foi diferente. Enfiou ambas as mãos nos bolsos da calça em uma reação instintiva, calculada para ocultar a própria inquietação. Desviou o olhar para o chão, afundando uma das botas militares na terra fofa que tinha sob os pés. Quando por fim voltou a erguer o olhar para encará-la, foi com a expressão mais distante de uma risada possível. “Oh, I’m having the time of my life.” O sorriso sarcástico que pontuou a resposta à pergunta retórica recebida fazia referência ao fato de que estavam, bem... no meio do fim do mundo. “Eu julguei certo.” Retrucou simplesmente, dando de ombros, indicando com um gesto silencioso de cabeça que o fato de que ainda estava vivo e respirando servia como prova. Percebeu o exato momento em que a garota passou a o avaliar, o olhando de cima a baixo. Sentiu-se extremamente inseguro pelo motivo mais estúpido possível, distante da presente realidade apocalíptica em sua futilidade: do alto de seus vinte anos e repleto de hormônios, ainda se sentia exposto sempre que uma garota o olhava por mais do que dois segundos. “New York, New York.” A informou no ritmo da música de Sinatra. “Você é local.” A frase era uma afirmação, não uma pergunta. “What’s the best place not to die around here?”
siriusbutnotblack:
“ — Athos odiava os dias que acabava sonhando. Era claro, ele sabia que sonhava todos os dias, mas quase nunca se lembrava dele. A coisa era que todos os sonhos do qual se lembrava eram sempre pesadelos envolvendo sua família. Tinha dias que via a sua mãe sendo pega pelos errantes. Era quase como uma lembrança que se repetia em sua cabeça durante as noites. As vezes, eles acabavam pegando Adhara, sua irmã. Era o pior de todos os pesadelos. Era quando se sentia pior e mais inútil. Seu único dever era proteger a vida da criança de apenas dez meses e quando tinha esses sonhos, chegava a acordar chorando e tinha que correr e verificar se ela ainda estava em seu berço. Era sempre um grande alívio quando a via lá, dormindo ou com os olhos arregalados, esperando por ele. Aqueles dias, ele deixava Adhara com Trenton ou Aaron e saía para a rua, era quase como uma terapia matar os zumbis, deixava o rapaz calmo e ainda podia achar coisas úteis pela família. No meio do caminho, com a mochila metade cheia de coisas úteis como fraldas, comida, água e suco porque tinha que pensar na variedade pela irmã, Athos achou um carro aparentemente abandonado, porém muito bem conservado. Precisavam de um, porque as coisas por perto estavam começando a ficar escassas, logo, teriam que começar a ir para mais longe e um carro seria uma mão na roda, literalmente. Estava tentando arrombar a porta do mesmo quando sentiu a arma em suas costas. Automaticamente, ergueu as mãos em rendição, já pensando numa forma de desarmar seja lá quem fosse. —— Tudo bem, tudo bem… Abaixa isso ai. Vamos.. conversar. ”
Pousou a mão no ombro do desconhecido não em ameaça, mas como quem oferece um alerta. “Word of advice: if someone holds you at gunpoint for trying to break into their car, might be wise to step away from the vehicle.” Orientou, a voz dividida entre condescendência e diversão. Mateo era o tipo de pessoa capaz de deixar risadas escaparem nos momentos mais indelicados possíveis; não lhe passava despercebida a noção de que rir enquanto se apontava uma arma para alguém soava como algo que um sociopata faria. Talvez aquilo acabasse por passar a impressão errada – em sua defesa, pensou consigo mesmo que não tinha interesse algum em matar o outro a menos que se fizesse absolutamente necessário. Quando o assunto era tirar vidas humanas, os infectados pareciam estar fazendo um trabalho bom o suficiente sozinhos. “Eu realmente não quero atirar em você, então só... se afasta e segue seu rumo, ok?” As palavras pacificadoras que ofereceu em momento algum o fizeram baixar a guarda. Se havia algo que aprendera da pior maneira possível no abrigo em que fora enfiado quando pirralho, era que um só minuto de distração poderia ser suficiente para que alguém invertesse o jogo e o dominasse.

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Sua rotina era basicamente a mesma desde que o mundo ameaçara acabar. Depois de passar a noite entocado, saía em sua lamborghini gallardo roubada à procura de provisões e combustível, fazendo paradas em toda e qualquer casa que parecesse remota ou abandonada. Procurava pelas irmãs avidamente, ao mesmo tempo torcendo e temendo encontrar alguém a quem pudesse perguntar sobre elas. Costumava levantar-se tão logo o sol começava a tingir o céu de laranja pelas manhãs, verificar as armadilhas que montava ao redor de si e seus pertences e então partir, funcionando com a base primal em seus instintos de sobrevivência e proteção para com a família. Naquele amanhecer em particular, porém, o destino pareceu se entediar com toda a repetição, e o enviou um novo e curioso acontecimento para o tirar do cotidiano. Tendo saído para urinar, ao se reaproximar do carro encontrou uma figura tentando, de maneira pouco gentil, abrir a porta do veículo. Apesar de ser um esportivo, a tinta preta da lataria estava coberta de poeira e sujeira tal como qualquer outro carro em meio ao apocalipse; talvez o pobre ser humano desavisado o tivesse julgado abandonado. Em uma rápida escolha, decidiu dar-lhe o benefício da dúvida. Para não desperdiçar as balas do rifle caso se fizesse necessário atirar, sacou a glock .40 que guardava na cintura e a apontou para as costas da pessoa desconhecida. “I wouldn’t do that if I were you.”
pooranne:
A maneira como o outro se portou diante suas palavras foram reconhecidas rapidamente pela morena, Anne havia tido as mesmas reações diversas vezes quando estava em busca do irmão e a frustação que adquiria por nunca receber respostas positivas sobre a situação dele era grande, mesmo que conseguisse esconder isso. “Oh!” Ela começou a assimilar as informações recebidas e um aperto grande lhe tomou conta, conseguia muito bem entender o que estava acontecendo com ele e, de quebra, podia se enxergar nas palavras esperançosas que ele proferiu. “Suas irmãs.” Ela murmurou a afirmação dele. De fato, ela entendia a situação em que o rapaz se encontrava e não demorou muito para que uma ideia lhe pairasse na mente. Anne, depois de longos dias angustiados, sorriu de forma genuína e esperançosa para ele. “E se eu te ajudasse a procurar elas? See, we have something in common, both of us are looking for someone. So, I think that we should join our forces and go on finding them.”
A encarou com certo estranhamento ao processar as palavras que lhe haviam sido direcionadas. Seu contato com outras pessoas vinha sendo raro e raso já fazia algum tempo; era apenas natural que desconfiasse um pouco ao ouvir uma oferta de ajuda vindo de uma completa estranha. Era difícil acreditar que ainda havia pessoas boas quando todas as últimas com quem topara o haviam tentado saquear ou fazer algum tipo de mal. Ainda assim, o sorriso que a morena lhe ofereceu parecia tornar o impossível provável. O menino ingênuo que havia em Mateo, que com tempo havia aprendido a se esconder sob a superfície, queria acreditar que fosse verdade. Que duas pessoas poderiam ter sucesso onde uma só estava falhando. Se a menina também estava procurando alguém, havia outra motivação que não o altruísmo por trás de sua ação, o que a tornava lógica e racional no contexto em que estavam vivendo. Acabou por aquiescer silenciosamente, acenando com a cabeça de maneira positiva. Sorriu. “Okay.” Pareceu quase... feliz ao concordar em voz alta. Esperançoso. Algo mais humano do que vinha tentando parecer. “I’m Mateo, by the way. Mateo Rubio.” Acrescentou, tirando uma das mãos do bolso para a oferecer em um cumprimento.
pooranne:
Para Anne aqueles dias estavam sendo possivelmente uma das piores fases em que já viveu, até mesmo na sua adolescência quando passou uma boa parte dela preocupada com o irmão e a outra parte sendo rigorosamente controlada pelos pais. O fato era que não conseguia imaginar o quão louco e estapafúrdio o mundo poderia se tornar, os conceitos que uma vez foram necessários para uma convivência já nem sequer eram usados e a humanidade estava cada vez mais escassa. Todos os pensamentos juntamente com as emoções estavam pesando para a morena, principalmente a falta que seu irmão lhe fazia - raramente ela pensava nos pais, embora não demonstrasse que sentia raiva ela era uma humana e o suícidio dos progenitores lhe deixara tão abalada ao ponto de ter sentimentos das quais nunca pensou que era possível sentir -, sem sombra de dúvidas queria muito reencontrar com o irmão e cansada de ser apenas uma garota frágil tentando sobreviver, decidiu sair das quatro paredes que havia se escondido por muito tempo e enfrentar o que quer que o mundo estivesse se tornando.
A situação, por mais estranho que fosse, estava calma e sem walkers a vista. A Viella estava com todos os sentidos aguçados pronta para qualquer coisa que pudesse acontecer, mas havia se esquecido de se preparar psicologicamente para um possível encontro com humanos - mesmo que parecesse impossível encontrar pessoas vivas - e ao ouvir a voz do outro, Anne levou a mão imediatamente à boca para abafar o grito devido o susto que levou. “H-hm, i-it’s ok… I guess..” A voz saiu quase em um sussurro, respirou fundo e encarou-o ligeiramente antes de seu foco ir para a foto que o rapaz tinha em mãos. “Sinto muito, não vi nenhuma delas… Pelo menos, até agora. São suas amigas?”
Inclinou-se instintivamente na direção da garota ao ouvir o que lhe parecia um sussurro incoerente. Um par de segundos depois, ao perceber que estava perto de invadir seu espaço pessoal, recuou, se forçando a enquadrar-se na norma social. A segunda parte da resposta recebida, dessa vez em voz alta, o fez enfiar ambas as mãos nos bolsos, guardando a foto no processo antes de erguer os olhos na direção do sol como quem questiona a Deus sobre os porquês da vida. Talvez estivesse sendo castigado por arquitetar, mesmo que acidentalmente, a morte do pai. Quando por fim baixou o olhar para encarar quem estava diante de si uma outra vez, o desânimo parecia pesar-lhe sobre os ombros. Era difícil manter-se positivo e esperançoso quando o objetivo de encontrar Marisol e Alejandra mais e mais lhe parecia intangível. “Minhas irmãs.” Respondeu simplesmente, dando de ombros. Não era bom com meias conversas. “They’re here somewhere. They have to be. I just have to find them.” A segunda parte mais parecia um diálogo consigo mesmo do que com a estranha que lhe emprestava os ouvidos.
lexierjones:
Lexie caminhava com a alça do rifle em um ombro e a mochila no outro. Estava aprendendo a atirar, em um progresso um tanto lento demais, e agora sentia-se mais confortável em carregar a arma. Não sentia mais tanto medo de andar sozinha, e era assustador o quão rapidamente acostumara-se com a solidão. Saqueava casas todos os dias, — aquilo já havia se tornado parte de sua rotina — atrás de qualquer coisa que lhe pudesse ser útil. Havia experimentado a fome e não era uma experiência que gostaria de repetir.
Estava em um bom humor particularmente estranho naquela manhã, que pareceu desaparecer rápido demais quando um estranho a abordou. Já estava acostumada com aquilo, também, o problema é que a maioria das pessoas vinham mal intencionadas. Lexie instintivamente apontou o rifle para o garoto, como um animal selvagem que mostrava as presas quando ameaçado, e abaixou ao perceber que ele lhe oferecia apenas uma fotografia. A morena baixou os olhos para a foto rapidamente e voltou a encarar o estranho. “Não sei de onde está vindo, mas tomaria mais cuidado se fosse você. Não pode mais sair parando as pessoas por aí pedindo informações como se estivesse em um posto de gasolina. Isso aqui não é exatamente a Disneyland.” E então suspirou, balançando a cabeça negativamente. “Não as vi, sinto muito.”
Uma risada lhe escapou antes que pudesse a conter. Era péssimo em todo e qualquer tipo de interação social, e era típico dele rir no meio da porra do apocalipse – não só por ser algo que devia contrariar pelo menos cinco convenções sociais distintas, mas por ser o tipo de ação que mostrava de relance o garoto otimista e positivo que um dia ele fora, e que há muito aprendera a guardar só para si. A mudança em suas feições se desfez tão rapidamente quanto havia aparecido, substituída por um semblante um pouco mais grave e urgente. “Não sou estúpido, é claro que estou armado.” Retrucou prontamente, indicando com um aceno de cabeça que havia uma pistola em sua cintura por julgar que a mostrar seria indelicado. “You just... didn’t strike me as the type to shoot first and ask questions later.” Confiar no meu julgamento não costuma compensar, pensou consigo mesmo. Guardou a fotografia, deixando um suspiro de exasperação escapar no processo. Levar ambas as mãos ao rosto, pressionando suavemente as têmporas, foi tudo o que fez para extravasar suas emoções turbulentas. “Desculpe pela inconveniência, então.” Acrescentou ao se lembrar do conceito de ‘educação’.
Encontrar alguém podia se mostrar um desafio e tanto quando uma ligação telefônica não era opção. Sua busca por Marisol e Alejandra, de quem se separara, mais parecia uma caça ao tesouro. A viagem até Savannah envolvia cruzar cinco estados, e foi uma prova de fogo por si só. A saída de New York foi a pior parte: teve que costurar entre as multidões de pessoas que há muito haviam perdido o que quer que fosse que separava a humanidade de seus instintos animais; a ideia de roubar um carro esportivo de luxo para fazer o trajeto, antes pensada como capricho e extravagância, passou a lhe parecer quase estratégica. O número de infectados diminuía conforme avançava em direção ao interior do território nacional; como estava armado, aquilo lhe proporcionava a oportunidade de saquear casas vazias na mesma medida em que o obrigava a se esconder em meio a construções abandonadas e florestas.
Pareceu levar uma eternidade até que alcançasse a cidadezinha na Georgia em que as irmãs eram supostas estar. Só o que tinha como meio para as encontrar era uma fotografia tirada antes do começo do fim, que o mostrava ao lado das duas e de Carlos sorrindo. Passou dias sem topar com viva-alma – somente os mortos pareciam querer um pedaço dele. Quando por fim encontrou alguém, aproximou-se com ambas as mãos erguidas na intenção de mostrar não ser uma ameaça. Tinha a imagem em uma delas. “Hey, não estou aqui pra causar problemas, só estou procurando duas garotas. Você as viu?” Perguntou, estendendo a foto para que esta pudesse ser vista com clareza.

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