— O que você quer dizer com isso, ein? — cerrou os olhos simulando desconfiança, mas não demorou para rir diante daquela afirmação, porque não duvidava que seu rosto não transmitisse muita credibilidade. Na verdade, seu nome em si já era suficiente para isso graças ao número de vezes que se enfiou em problemas no colégio e a mentira sendo seu grande aliado. Quando o elogio veio, Angelo revirou os olhos agora entendendo perfeitamente a sensação que a garota teve momentos atrás quando a elogiou, porque, sinceramente, estava ridículo com aquele terno apertado de estampa listrada. — Cala a boca, eu ‘tô parecendo um vovô. Só não aderi o look completo porque perdi o suspensório. — riu fraco. — Mas se você curte vovôs, eu posso dar um jeitinho de ser um para você. — ofereceu uma divertida e exagerada piscadela para Sage, embora a intenção por trás de suas palavras fosse bastante verdadeira, porque aos poucos percebia que toparia ser qualquer coisa que ela quisesse e até que estava lidando bem em saber o quão gado conseguiria ser pela morena. A leveza da conversa se desfez ao falar daquele tópico delicado, porém Gray se esforçava para se manter descontraído mesmo que toda a situação de sua família o ferisse, porque, no fim, nada iria mudar e era melhor fazer piada disso do que se flagelar para sempre. — ‘Tá tudo bem, essas merdas acontecem. — deu de ombros tentando fazer pouco caso disso, pois não era lá um assunto que gostava de aprofundar demais até para não transparecer uma imagem indesejada, mas foi inevitável não sentir algo diferente quando a garota entrelaçou seus dedos. Se qualquer sentimento ruim tentou tomar conta de si naquele breve instante, a atitude feminina foi suficiente para expulsar toda essa negatividade e dar espaço a um curto sorriso bobo no semblante de Gray. — Eu sabia… — brincou inflando o peito de maneira vitoriosa, uma postura que podia ser facilmente interpretada de estar atrelada a conversa, mas, na realidade, era sobre o contato de suas palmas. Com a garantia de que Sage também estava com os potinhos, foi necessário apenas encontrar o buffet e as mesas de frios para darem início ao plano idiota. Acomodados numa mesa para não chamarem muita atenção, um deles ia até o buffet para encher o prato com o que julgava necessário e retornava para passar os alimentos discretamente para os recipientes que tinham na bolsa. Claro que na cabeça de Angelo toda a movimentação dos dois não levantava suspeitas, especialmente quando as pessoas já pareciam bêbadas e estavam focando em se divertir na pista de dança, mas óbvio que alguns olhares curiosos e até confusos vagavam sobre as figuras da dupla, afinal, ninguém tinha tanta gula para levantar e se servir exageradamente tantas vezes seguidas. Durante o furto da comida, Gray aproveitava para conversar com a morena não só com o interesse disfarce como também para conhecê-la um pouco melhor, porém evitando retornar o assunto família que parecia desconfortável demais para entrar em muitos detalhes.
Com todos os recipientes cheios de comida, já estava na hora de partirem para seu próximo objetivo: a casa de Colt. A ideia de visitarem o amigo surgiu enquanto trocavam mensagens durante o processo de furto na festa, achando até legal passarem a noite na companhia de mais outra pessoa divertida, mas claro que um lado seu não demorou para se arrepender de aceitar o convite, porque isso significaria dividir a Sage com mais alguém naquela noite. Não que estivesse sendo possessivo, porém não reclamaria de passar as próximas horas apenas com ela. — Quer dormir lá em casa essa noite? — perguntou tentando se mostrar o mais casual possível enquanto buscava a mão dela assim como fizeram ao entrarem na festa. — Se não quiser, tudo bem também. Posso te deixar em casa depois de passarmos no Colt sem estresse.
“o que eu quero dizer é que é impossível você mentir pra mim sem que eu perceba. até porque, um mentiroso sempre reconhece o outro.” moveu os ombros, desinteressada. rir logo em seguida foi uma reação automática. poderia não ter cem por cento de certeza diante aquela afirmação, mas gostava de pensar que sim. o tempo que passavam juntos só estreitava ainda mais a relação que tinha, portanto não parecia impossível começar a perceber algumas de suas características. o que também servia para si. “viu só? quando é com você é sempre diferente. isso não é justo.” uniu as sobrancelhas, em uma expressão teatral de tristeza. “eu gosto de suspensórios, na verdade. fica mais fácil de te puxar pra mim.” deu risada, um dos seus típicos risinhos cínicos que estava começando a se tornar um hábito. só não sabia se era bom ou ruim. “apesar de ser completamente errado te imaginar como um vovô, eu gostei da parte onde você realiza os meus desejos.” entender só a parte que lhe convinha ou deturpar algumas informações para lhe favorecer era algo que sage sempre fazia, e não tinha a menor vergonha em admitir. principalmente quando se tratando de angelo, o seu objetivo era fazer com que as coisas girassem ao seu redor, mais ainda ao perceber que começava a gostar mais do que o programado da atenção que recebia. “bom, eu sei que é uma droga, mas você pode sempre contar comigo quando as coisas complicarem. mesmo se não quiser conversar sobre isso, eu posso só te fazer companhia.” deu de ombros, mais porque fazer a linha séria não era muito a sua praia, tanto que até preferia levar os problemas de seus pais na esportiva, eram poucos os que sabia das dificuldades que enfrentava em casa. e ela preferia que as coisas continuassem assim, mas com ele era diferente. mais ainda depois de conhecer aquele lado ainda que de maneira silenciosa e indireta. poderia não ser a melhor com conselhos ou qualquer tipo de apoio emocional, mas queria que ele soubesse que estaria ali, para qualquer momento. “você é bem convencido, sabia disso também?” o alfinetou, para também não ter que dar o seu braço a torcer. focando-se assim no único objetivo que tinham e o que levou os dois até lá: roubar um pouco de comida. ou talvez muito, se levado em consideração o quanto a sua bolsa parecia cheia agora.
sair ilesa e sem ter sido descoberta foi a maior vitória de sage. àquela altura já não estava mais tão preocupada com a comida que roubaram, teria que admitir. estava feliz por ninguém tê-la visto usando o vestido da sua mãe. um pensamento egoísta? sim, mas não estava com muito tempo para se preocupar com isso quando claramente saíam às pressas de lá com potes cheios. se surpreendeu um pouco com a pergunta, um sorriso satisfeito decorando a sua boca. por ser tão folgada, às vezes pensava que poderia estar o incomodando. aquela era a confirmação de que talvez estivesse errada, certo? “hm, deixe-me pensar.” fez uma cara pensativa, segurando a mão alheia com firmeza ao entrelaçar os dedos aos dele mais uma vez. tinha que admitir que estava começando a gostar daquilo. “entre dormir sozinha com aquele bicho de pelúcia horroroso que você me deu e ficar te enchendo o saco à noite toda... acho que eu prefiro dormir sozinha mesmo.” brincou, dando risada. “é claro que vou dormir na sua casa. eu já iria pra lá mesmo sem o convite.”