O BRASIL DAS INCLUSÕES EXCLUDENTES
O dia em que Adriana veio ao mundo foi o mesmo em que sua mãe o deixou. Após um parto com complicação decorrente de uma pré-eclâmpsia que não foi devidamente identificada e tratada no pré-natal nas raras consultas que sua mãe conseguiu marcar e ser atendida na rede pública, sua mãe veio à óbito, entrando para estatística de mortalidade materna de mulheres negras.
Sua tia Leci, que recebeu este nome porque a avó de Adriana era muito fã de uma das grandes vozes da música brasileira, a Leci Brandão, foi quem a acolheu em casa e a adotou como filha do coração, quase que em substituição da filha que ela havia perdido há poucos meses em decorrência de problemas no parto, porém, ao contrário da mãe de Adriana, Leci sobreviveu e sua filha não.
Elas moravam em uma casa bem humilde em um bairro do subúrbio do Rio. Leci trabalhava como costureira e fazia de tudo para não deixar faltar nada para Adriana.
Quando Leci recebeu uma oferta para trabalhar em uma empresa que fabricava roupas, Leci viu nisto uma oportunidade para aumentar a renda da família, além de uma certa estabilidade financeira de poder contar mensalmente com o salário que receberia da fábrica.
Então, Leci saiu em busca de informações sobre creches públicas na cidade para poder matricular a Adriana em uma. Ela se dirigiu à creche mais próxima de sua casa e lá foi informada que não havia vaga. Orientaram que ela procurasse a secretaria municipal que a informou haver poucas vagas nas creches e a colocou na lista de espera.
Sem muito o que fazer, Leci pediu ajuda às suas vizinhas para saber se elas poderiam cuidar de Adriana enquanto ela estivesse em seu novo emprego. Solidariamente, o pedido foi aceito por uma delas que estava no período de licença-maternidade.
O tempo foi passando e Leci se viu obrigada a tentar mais uma vez uma vaga na creche para Adriana já que sua vizinha estava pronta para voltar ao trabalho após o término de sua licença. Desta vez, Leci conseguiu uma vaga, contudo, a creche ficava em um bairro muito distante de sua residência.
A rotina de Leci e Adriana passou a ser bem sacrificante. De segunda a sexta-feira, Leci acordava às 04:30h da manhã, preparava o café da manhã, tomava banho (quando tinha água em casa) e se arrumava. Em seguida, ela acordava a sua sobrinha para dar banho, arrumar e alimentá-la. Às 05:30h em ponto, elas saiam de casa rumo à creche.
A trajetória para chegarem na creche contava com uma caminhada de vinte minutos até o ponto de ônibus, onde passava o transporte que fazia o itinerário específico. O lotação passava cerca de meia em meia hora e por isso, sempre estava lotado. Adriana, ainda sonolenta, quase sempre dormia em pé no ônibus. Às vezes, uma alma caridosa, oferecia o seu lugar ou o seu colo para que a menina sentasse e pudesse dormir ao menos sentada. O trajeto levava quarenta minutos. Depois de descer no ponto de ônibus, Leci e Adriana ainda caminhavam mais dez minutos até a creche. Normalmente, nos dias em que nada incomum acontecia, elas chegavam com dez minutos de antecedência. Leci se despedia de Adriana e seguia para o seu trabalho que ficava há uma hora da creche.
A volta para casa era outro suplício, Leci saia às 16h depois de cumprir as oito horas de trabalho, sem descanso, sem almoço, apenas comia uma banana ou um biscoito entre uma costura e outra. Quase sempre, ela conseguia chegar às 17h para buscar a Adriana, porém, eventualmente, por questão de trânsito, pneu furado do ônibus, ou por implicância de sua chefe, ela às vezes chegava atrasada e ouvia muita reclamação das funcionárias da creche.
Apesar do cansaço e de várias atribulações que a impediu de em um primeiro momento reparar no tratamento dado a sua sobrinha no educandário, Leci notou que tanto a Adriana quanto os demais coleguinhas negros não eram tratados como as outras crianças de pele clara que eram consideradas brancas. Ela percebeu que as crianças negras daquele local não recebiam os carinhos e afagos das funcionárias. Muitas delas, inclusive, olhavam com certo desdém para estas crianças.
Uma vez, quando a Leci foi buscar a Adriana na creche, ela ouviu a reclamação de sua sobrinha que alisava a cabeça dizendo estar sentindo dor no local. Ao chegar em casa, Leci tentou saber mais sobre a dor que Adriana estava sentindo. Então, com seu limitado vocabulário, típico de uma criança de quatro anos de idade, Adriana explicou que a tia do educandário a machucou na hora em que foi pentear o seu cabelo. Ela puxou com muita força, a Adriana chorou e a funcionária esbravejou que o problema é que o cabelo dela era muito duro e por isso era ruim de pentear.
Leci ficou profundamente triste ao ouvir o relato da sobrinha. Infelizmente, ela constatou que a Adriana havia entrado em contato com um dos grandes males da sociedade que é o racismo. Impotente, Leci não pôde fazer nada além de avisar às funcionárias da creche que não precisavam pentear o cabelo de sua sobrinha, que elas poderiam entregá-la despenteada mesmo que ela daria um jeito. As empregadas do educandário acharam ótimo saber que não mais precisavam desembaraçar o cabelo de Adriana e torceram para que outros responsáveis de crianças negras as desobrigassem também de pentear seus tutelados.
Assim, Leci manteve sua sobrinha na creche até mais uma vez se desapontar com o lugar. O pneu do ônibus de Leci furou quando ela estava se dirigindo para buscar Adriana na escolinha, com isso, ela se atrasou em meia hora. Quando finalmente chegou ao local, avistou Adriana do lado de fora da instituição, ao lado do pipoqueiro que trabalhava em frente à creche. Leci não entendeu nada. O pipoqueiro então explicou que os funcionários da creche deixaram a Adriana com ele, pois alegaram que ninguém poderia ficar aguardando por um responsável pegar a menina, ele tentou argumentar, pedir para que não fizessem isso, mas não teve jeito. Foram embora e largaram a menina na rua.
Neste mesmo dia, Leci decidiu que não ia mais deixar a sua sobrinha naquele lugar, nem que para isso ela tivesse que largar o emprego e voltar a só costurar para as antigas freguesas dela.
No dia seguinte, ela faltou ao trabalho e se dirigiu a todas as creches próximas a sua residência e do seu emprego, contudo, mais uma vez, ouviu de todos que não havia vaga. Desta forma, Leci não viu outra escolha a não ser pedir demissão.
A renda da família despencou quando Leci tomou esta decisão. A sorte é que ela tinha uma clientela fiel que não a abandonou mesmo com os seguidos atrasos na entrega de suas vestimentas por conta da tripla jornada de trabalho de Leci.
Quatro anos se passaram e Adriana está indo para a sua primeira aula no que chamamos hoje em dia de 3ª série do ensino fundamental.
A professora que a recebeu no colégio duvidou que ela tivesse apenas oito anos de idade, porque ela era muito alta e gordinha, mesmo a Leci comprovando a idade de Adriana, a docente cismou que ela tinha pelo menos uns dez anos.
Talvez por influência da professora e dos pais dos alunos, os colegas de classe de Adriana também achavam que ela parecia mais velha. Então, começaram a implicar com ela. Os meninos da escola zombavam dizendo que ela era muito feia, gorda, com cabelo duro e muito preta. Leci cansou de fazer reclamações no colégio pelas vezes em que sua sobrinha chegava chorando e falando sobre as humilhações que havia passado na instituição. Contudo, suas queixas não foram levadas a sério e nenhuma providência foi tomada.
Com a falta de amigos no colégio, Adriana passava o horário do recreio lendo livros que pegava na biblioteca ou que ganhava de alguns adultos que sabiam sobre a sua paixão por livros.
Aos doze anos de idade em um daqueles dias que parecia ser comum, Patrícia entrou na sua classe e foi apresentada a todos como a nova aluna. Todos se acotovelaram, acharam graça por Patrícia parecer meio diferente deles. Patrícia se sentiu deslocada e acuada. Ela não estava acostumada a estudar em um colégio público. Era tudo muito estranho, as pessoas eram estranhas, os professores, a escola...Enfim, ela sentiu vontade de sair correndo e voltar para casa.
Percebendo o desconforto da sua colega, Adriana se aproximou de Patrícia e a convidou para passar o recreio lendo um livro com ela. Patrícia aceitou o convite com certo receio, mas o livro que elas leram foi tão bom, tão divertido que Patrícia gostou muito da companhia de Adriana.
No início da amizade delas, Adriana e Patrícia tiveram que ouvir gracinhas sobre a aparência da dupla, enquanto Adriana era negra, alta, acima do peso, tinha cabelo curto e crespo, Patrícia era o seu oposto, ou seja, branca, baixinha, muito magra e seu cabelo era comprido e liso.
Com o tempo, Patrícia contou à Adriana que o motivo de ela ter ido estudar naquele colégio público foi porque seu pai havia ficado desempregado, com isso, a renda familiar ficou escassa.
Os anos foram passando e as melhores amigas eram sempre destaque na escola. Com a situação financeira melhorando, Patrícia mudou de escola e voltou a estudar na rede privada de ensino, enquanto que Adriana, com muito esforço de sua tia Leci, se mantinha no colégio público.
Patrícia passou a frequentar um cursinho pré-vestibular muito bem conceituado, começou novas amizades e a chamar cada vez mais a atenção dos rapazes. Adriana se mantinha focada no estudo, às vezes, pegava emprestado o material de Patrícia para tirar cópia e estudar para o vestibular, isso quando sobrava um dinheirinho.
Quando saiu o resultado da classificação para a faculdade de administração de uma universidade federal, ambas comemoraram. Patrícia passou em primeiro lugar geral, Adriana passou em primeiro lugar também, mas como cotista. Ela fez parte da primeira turma de cotista da universidade.
Leci ficou muito orgulhosa de ver a sua sobrinha conseguir algo que até então nenhum membro da família havia conseguido que era cursar o nível superior. Elas comemoraram muito orgulhosas pela conquista. Familiares e amigos até as parabenizaram, mas acharam um exagero tanta comemoração. Até então, para eles a felicidade se resumia em casar e ter filhos, estudar não tinha tanto valor. Uns até zombaram entre eles dizendo que aquilo era um prêmio de consolação porque homem nenhum iria querer se casar com o que eles chamavam de “A Brucutu”.
Os pais e amigos de Patrícia comemoraram muito e a parabenizaram pelo feito de conquistar o primeiro lugar. Como prêmio, seu pai comprou um carro usado para Patrícia.
Os zelosos pais de Patrícia ficaram com medo de ela ficar andando pela cidade de carro, com risco de ocorrer algum acidente ou até mesmo um assalto, além do cansaço das idas e vindas da faculdade, eles preferiram alugar uma vaga em uma república próxima a universidade e pediram que Patrícia usasse o carro somente nos momentos de lazer.
Passada a felicidade inicial, Adriana passou a ter uma nova preocupação, ela não sabia como faria para ir e voltar da faculdade e como ela se alimentaria. Adriana e Leci colocaram na ponta do lápis todas as despesas que tinham e as que teriam com a Adriana tendo que ir para faculdade todos os dias da semana. Além disso, seria necessário gastar com materiais de estudo. Desta forma, Adriana só tinha duas soluções: ou ela abandonava a faculdade ou ela teria que conseguir um emprego.
As aulas começaram e Adriana mesmo tendo distribuído o seu currículo em várias empresas, ainda não havia conseguido o seu primeiro emprego. Com muito esforço, sua tia juntou um dinheirinho para bancar as passagens de ônibus de Adriana, mas era tudo muito contadinho, tinha data para acabar.
Apesar da questão financeira, Adriana estava radiante com o início das aulas. Ela mal conseguiu dormir na véspera da primeira aula. Ela queria estudar e conhecer novas pessoas junto com a Patrícia. Ela achava que na faculdade tudo seria diferente, as pessoas seriam mais receptivas, mais maduras, todos apoiariam uns aos outros. Contudo, na primeira semana, Adriana pôde perceber que as suas expectativas não seriam correspondidas.
Na primeira festa de confraternização, Adriana e outros alunos cotistas foram excluídos. Depois de submeterem os calouros a um trote no qual conseguiram arrecadar uma quantidade significativa para fazerem uma choppada, os veteranos enfatizaram que só aceitariam que os calouros não cotistas participassem da festa de recepção de novos alunos.
Adriana ficou muito triste com aquela situação. Relembrou os tempos de escola, percebeu que nada mudou.
Patrícia estava toda animada para ir na sua primeira choppada. Ela lamentou que Adriana não pudesse participar, porém, àquela altura, ela já estava cercada de novos amigos, então nem sentiu tanto a falta de sua amiga de infância.
Infelizmente, não poder participar de festa de confraternização não foi o único momento em que Adriana foi discriminada. Professores e alunos duvidavam de sua capacidade intelectual, debochavam do fato de ela ser cotista, acusavam-na de ter roubado a vaga de pessoas mais capazes.
A cada prova, Adriana precisava provar que era capaz e que merecia estar onde ela estava. Nas primeiras provas, por conta da subestimação que fizeram, por preocupação com falta de dinheiro e por falta de material adequado para estudar, Adriana se saiu muito mal. Isto deu margem para que todos falassem que ela era “burra” e que não iria conseguir. Porém, Adriana não desistiu, aos poucos ela foi se organizando e melhorando o seu desempenho.
A primeira providência que ela tomou foi trabalhar com o que aparecesse já que estava difícil de conseguir um emprego. Então, começou a fazer trabalho como diarista, passou a vender doce na faculdade e peças em crochê. Com isso, a preocupação com a parte financeira foi diminuindo ao ponto de não mais atrapalhar seu rendimento acadêmico.
Assim, ela já conseguia comprar os materiais necessários para se preparar para qualquer prova e pagava o seu meio de transporte para a universidade.
Patrícia também começou a trabalhar, mas por motivo bem diferente dos da Adriana. Ela entregou seu currículo em várias lojas de um shopping que ela frequentava e três delas a chamaram para entrevista e ela pôde escolher em qual trabalharia. Patrícia falou para a Adriana entregar o seu currículo nos mesmos lugares que ela, o que, de fato, Adriana fez, porém, vendedoras e gerentes a olhavam com desprezo, como se a Adriana não fosse à altura das lojas delas. Quando Adriana comentou que havia se candidatado às vagas, mas que nenhuma a havia chamado, Patrícia não falou, mas pensou que a Adriana é quem não havia se esforçado o suficiente para conseguir o emprego.
Adriana se tornou uma referência na faculdade. Muitos admitiam ao menos que ela era muito “esforçada”. Patrícia sempre estudava com Adriana, especialmente as disciplinas as quais ela tinha maior dificuldade. Adriana, muito solícita, ajudava a amiga a tirar boas notas também.
No momento em que foi necessário encontrar um estágio, Adriana, mais uma vez, teve dificuldades. Suas notas eram excelentes, ela era aluna de universidade pública, o que daria a ela certa vantagem já que o mercado tende a discriminar alunos de instituições privadas. Contudo, ela não passava da primeira entrevista.
Patrícia não teve grandes dificuldades. Ela não passou no primeiro estágio que ela tentou, porém, não demorou muito e ela foi contratada para estagiar em uma multinacional ganhando o dobro do que ela ganharia se a primeira empresa na qual ela havia se candidatado a tivesse chamado.
Apesar de perceber toda essa diferença entre ela e Patrícia, Adriana nunca invejou a amiga, pelo contrário, ela torcia e ficava muito feliz quando Patrícia conquistava o seu espaço.
Para cumprir a grade curricular, Adriana se submeteu a um estágio não remunerado que um professor da faculdade a indicou. Ao final do curso, Adriana foi contratada pela empresa na qual ela estagiou, mas com o cargo de assistente administrativo. A companhia alegou estar passando por problemas financeiros e que, assim que saíssem do “vermelho”, ela seria “promovida” à analista. Fato este que nunca aconteceu, mesmo a empresa apresentando grandes lucros. Uma mulher branca foi contratada para o cargo de analista administrativo.
Patrícia também foi contratada pela empresa na qual estagiou, mas como analista jr. e com salário acima do mercado.
O desenvolvimento da carreira das amigas de infância merece um texto à parte e com nome próprio, portanto eu deixarei para contar para vocês na próxima semana. Até lá!
História fictícia que reproduz o retrato da nossa sociedade brasileira.
Quando as crianças negras serão inclusas de verdade nas creches e escolas públicas?
Por que as “tias” das creches não gostam de crianças negras? Até quando fingiremos não ver que há discriminação desde a infância?
É tão difícil criar condições financeiras, psicológicas e estruturais para o acolhimento adequado dos cotistas os incluindo no momento em que se cria um sistema de cotas? Por que as pessoas insistem em achar que os cotistas são incapazes?