Bom dia ansiedade latente, passou a manhã e você ainda tá aqui, né? Ah, vai ficar pro almoço, é? Beleza, mas eu tô meio desocupada para ficar ocupada contigo, sabe? Vou cochilar um pouco.
(dorme sem despertador, está desde o meio dia sem usar o celular, deu bom dia para mãe, para os amigos, enviou e-mail e desligou-se, acorda desnorteada, rosto quente, está sol, fez-se uma poça de baba entre sua boca e o travesseiro).
Ah, você ainda tá aí é? Que saco, achei que iria embora enquanto eu dormia, olhe, vou seguir fazendo minhas coisas e você fica na tua, não me atrapalha. Vou limpar as coisas, vou organizar minha rotina, vou beber mais café, vou beber água para conseguir cagar, vou me ocupar até esquecer que você tá aqui. Vou sair de casa, pegar o remédio da Gabi, fazer um estoque de vinho e café, arranjar uma desculpa para poder pedalar de bike e sentir o vento no rosto.
(pega sua bicicleta, é feriado e o comércio está fechado, pouquíssimas pessoas na rua, vê alguns ciclistas e caminhantes e não entende porque ainda tem gente saindo só para se exercitar, a cidade está vazia e paira no ar o perigo do coronavírus, o ar pesa paranóia e medo, mas as pessoas que trabalham no supermercados pareciam estar tranquilas como se fosse um dia normal, ela desvia das pessoas enquanto anda nos corredores, respira o ar tensa como se conseguisse repelir o vírus com a força da mente, acredita no potencial do seu nariz e inspira concentrada, o corpo está rígido)
Não posso tocar meu nariz, não posso tocar meus olhos, não posso tocar minha boca, não posso morder meu piercing, não posso me esquecer de me higienizar em casa, não posso me esquecer de colocar a roupa suja no cesto, não posso me esquecer de limpar meus cartões, não posso me esquecer de higienizar minhas frutas, não posso, não posso. Ansiedade veio comigo fazer compras, parece um encosto, eu vou pular, sacudir os braços e a cabeça para ver se eu a espanto. Nada. Vou assobiar, cantarolar Anitta na cabeça, fazer qualquer coisa idiota para me distrair, nada. Comprei um pacote de uvas que custou o meu cu e nem me dei conta.
(sai do mercado, corpo pesado de ansiedade, paranóia e compras nas costas, respira o ar pesado, inala tensão e expira raiva, xinga o corona, o sistema, o governo, a cidade, xinga enraivecida e deseja que todos tomem no cu - mas tomar no cu não é um bom xingamento - outro mercado, compra o necessário, está cansada, quer chegar em casa logo, quer se fechar em casa e nunca mais sair, ficar enfurnada no quarto até tudo isso acabar)
Você tá aqui, não me importo mais, que se foda você, quero só entrar em casa e me lavar, tirar sapato, tirar a roupa, entrar no banho, esfregar bem o corpo, colocar a roupa no cesto, tirar as comprar, passar álcool em gel em tudo, desinfetar as comidas, guardar as sacolas, ignorar alguns cuidados excessivos como higienizar as sacolas de plástico, um mamão e ainda não caguei, cu preso de ansiedades. Expus que a ansiedade tá aqui para a Gabi, que ela tá me enchendo o saco e que ainda não foi embora.
(deita na cama, bebe água, fotografa a bagunça acumulada da cômoda, a planta colhida ontem no condomínio e seu ódio cansado estampado na cara, esquece de fotografar pela manhã o momento que ficou sentada na cadeira de praia fumando com a Gabi e conversando sobre afetos e família, esquece de fotografar o almoço de arroz com lentilha que fez, esquece de fotografar a xícara de café que acompanhou seu momento de organização e planejamento, esquece de olhar para aquilo que foi agradável do seu dia, seus olhos estão grudados na ansiedade)