Eu não acho que você queira mesmo me ver, sabe? Por isso eu não disse nada hoje. Você prefere quando a gente se encontra e a galera está toda lá, e rola um abraço longo e geralmente dançamos, e é isso, e tudo bem. E no final quase sempre rola um beijo (na última vez não rolou) e a gente troca mensagens dizendo que deveriamos nos encontrar, e que estamos com vontade, e que essa música me lembra você agora. Mas a gente não quer. Você não quer. Nós teríamos ido ao cinema, na livraria, no parque, na droga de uma exposição, e isso tudo numa manhã ou numa tarde, pois sair numa tarde diz tanto, não sei se você percebe isso, ver alguém na claridade, no meio do dia, disposto a estar ali dividindo um tempo tão importante, com o sol sem vergonha, atrasando o relógio, dizendo que vai ficar tudo bem, que ele fará tudo por nós dois. Consigo contar nos dedos as pessoas que eu beijei antes de anoitecer, todas elas foram importantes pra mim. Ontem estive com uma italiana, ela marcou um encontro as dez da manhã, eu achei um absurdo (ao mesmo tempo incrível), como pode essa doida querer topar com o meu rosto antes do almoço, e caminhamos pelo bairro, tomamos um expresso, vimos fotos de indíos em preto em branco numa galeria, almoçamos num lugar caríssimo (e terrível), e procuramos discos raros, e ela meu um deles de presente, pois a nossa moeda não tem valor, ou eu merecia, não sei, mas ela deu, e não eram nem três horas da tarde. Você percebe ou é loucura minha? Não eram nem três horas da tarde, por isso eu sei que ela queria tanto estar ali. Agora ela está em Lyon, sim, ela é italiana e mora na França. E nós aqui, no mesmo país, sem dizer nada. Antes de embarcar ela me enviou uma foto, em que eu estou no restaurante, em frente a algumas plantas, em preto branco, igual aos indíos que haviamos visto. Eu pareço tão feliz, mas eu nunca percebo na hora, só quando me enviam uma foto.