Tem cultura africana em Goiás? Tem!
O Coletivo Babilônia juntamente com Bruno Vieira (Bruno Caveira), DJ e produtor musical, está à frente da organização do evento Afrikaliente, que aconteceu no dia 17 de junho à partir das 20 horas em Aparecida de Goiânia, na Casa Cultural Babilônia. A ideia do evento surgiu quando se pensa no racismo histórico em que a sociedade brasileira ainda é submetida, contrastado com a noção de empoderamento dos afro-brasileiros, traduzida nas tradições africanas ainda presentes em nossa cultura, seja na música, artes ou artesanato. O evento Afrikaliente dá voz à tais tradições e as evidencia, fazendo com que se perpetuem entre o povo brasileiro.
Em entrevista para o Acontece na Cidade, Lara Jordana Brandão, integrante do Coletivo Babilônia, utiliza-se do seu local de fala como mulher negra, para evidenciar a importância de eventos como esse na luta contra o racismo e preconceito. Ela também ressalta que o coletivo é composto por mulheres, mas não se constitui como um coletivo de mulheres negras. Também foram entrevistados dois artistas negros que participaram do evento: Raquel Rocha, modelo da marca Tafá, que tem como proposta o empoderamento étnico e religioso baseado na cultura afro-brasileira e Ritchelly Oliveira, artista plástico que evidencia o corpo negro em suas obras.
Acontece na Cidade - Qual a sua trajetória ante ao movimento negro? Você acredita que eventos como o Afrikaliente podem ajudar a conscientizar as pessoas quanto à condição do negro na sociedade?
Lara - Graças a vivência como mulher negra, desde muito cedo tenho estado presente na caminhada do movimento negro em nosso país, mas atuando, de fato, como ativista/militante, começou a partir de alguns questionamentos que partiram da minha subjetividade, e de alguns influenciadores digitais (Nátaly Nery, Gabi Oliveira, Tia Má, Murilo, PH Côrtes) que militam em prol do assunto e trazem à tona a existência de algo que resiste na sociedade: o racismo estrutural, que precisa mais que urgentemente acabar.
Essa edição do Afrikaliente que aconteceu na Casa Cultural Babilônia vai além de nos conscientizar sobre a condição de pessoas pretas na sociedade, pois a perspectiva aqui é diferente. O evento traz à tona o que temos de melhor, a ancestralidade que alguns estilos musicais carregam, que nos remetem a matrizes africanas e seus ritmos, além da valorização da estética negra e a presença dessas pessoas dentro do movimento artístico, que mesmo devagar, tem ganhado grandes nomes e nos deixando algo importantíssimo: a representatividade.
Ritchelly - Durante muito tempo meu trabalho foi focado nas minhas experiências afetivas, de como eu lidei, e continuo lidando com essas quebras que temos nas nossas vidas amorosas. Mas cheguei a um ponto de que já não era mais suficiente apenas essa fala pessoal. Precisei ampliar essas experiências, trazer voz de outras pessoas. Creio que minha entrada ao movimento negro veio de forma muito orgânica após essa reflexão. Hoje meu trabalho tem uma forte fala desse movimento. E com tudo que vem acontecendo no cenário social, político no Brasil – mas não só no Brasil, no mundo também – é de grande importância dar essa espaço de visibilidade à comunidade negra, que sempre foi invisibilizada na história do nosso país. E poder falar disso no meu trabalho, e trazer de forma pessoal, afetiva, mostrando o lado afetivo de cada um, é de extrema importância não só pra mim, mas para milhares de pessoas que têm suas vozes silenciadas, suas histórias apagadas. O Afrikaliente veio juntamente para somar mais ainda nessa luta. Nossa cidade carece de espaços como este, que dê força e voz para que possamos nos unir através da arte.
Raquel - A minha trajetória no movimento negro começa pela minha descendência, que é negra e índia. Mesmo minha pele não sendo muito escura, eu não sou branca, não tenho os privilégios brancos. Sou considerada a “mulata” brasileira, e dentro do movimento negro, que é muito novo historicamente, você só é negro se tiver a pele escura. Eu já ouvi muito que eu não era negra por ter a pele mais clara, mas ao mesmo tempo meu cabelo é crespo, minha descendência é negra, meus lábios são fartos, meu nariz é largo. É uma crise de identidade, principalmente no cenário goiano, que enfraquece a luta e pode ser bem excludente com quem não se encaixa no padrão esperado para a mulher negra. Eu deixei de partir de uma luta de comunidade para partir em uma luta individual, e eu expresso isso em minhas obras, que são de cunho racial e religioso afro-descendente, eu sou do candomblé, e sofro muito preconceito com isso, por uma religião de raiz africana e não tão aceita pela sociedade e até mesmo por umbandistas.
Considerando-se as obras expostas no evento, que têm uma linguagem e uma expressão nessa linha de cultura africana, pode-se dizer que é um trabalho bem importante, com obras artísticas que abarcam de forma poética e protagonizadora a população negra, porém o evento como um todo não abraça essa temática de uma forma social para a conscientização da sociedade, apenas remete ao tema da África. Exemplos disso são que o DJ escolhido (Bruno Caveira) não era negro, a maior parte do público também não. Durante o tempo em que eu participei do evento expondo, as músicas tocadas também não eram totalmente da cultura africana.
A.C. - Visto a atual situação política do país, é necessário um debate sobre como os negros são vistos e tratados no dia-a-dia. Como é possível trabalhar questões como o racismo estrutural e o genocídio dos negros, dialogando diretamente com a noção de empoderamento de pessoas negras?
Lara - Não sei, na verdade isso é um grande desafio. Conseguir garantir que pessoas negras se empoderem e ao mesmo tempo tentem anular alguns fatos como o de que são elas a maioria nos presídios; a maioria nos trabalhos com as piores remunerações; com homens negros que têm uma expectativa de vida inferior aos dos homens brancos, e mulheres negras que sofrem com o preterimento constantemente em seus relacionamentos. O empoderamento dessas pessoas é um ato de resistência diário, mas infelizmente há muito o que se fortalecer dentro do movimento negro para que esse diálogo tenha realmente uma boa absorção.
Ritchelly - É muito claro no nosso dia a dia - seja na faculdade, na rua ou no trabalho - que o preconceito ainda acontece, e mesmo sabendo que todos deveriam ter os mesmos direitos e oportunidades, na realidade desse dia a dia isso não acontece. Eu acredito que se empoderar e não se deixar calar diante dessa opressão é o caminho para que todos sejam ouvidos e vistos como deveria. Acredito também que falar e mostrar a importância sócia histórica que os negros tem em nosso país é fundamental.
Ao falar sobre empoderamento, podemos observar que o espaço que a mídia dá para pessoas negras, em sua grande maioria, é a partir da hiperssexualização ou marginalização de seus corpos, o que é extremamente agressivo e silenciador. É muito importante que consigamos mudar esse cenário para que esses indivíduos possam estar nestes lugares de visibilidade, levando seus conhecimentos, cultura e história, de modo que não sejam vistos como um corpo marginalizado ou hiperssexualizados.
Raquel - A construção cultural do cidadão deveria ser evidenciada desde a educação primária. O preconceito surge da família, do vínculo social em que a criança está inserida, e a escola deveria ter um papel social muito importante para desconstruir isso. É nela que vão se criar os conceitos formais, e se lá a criança aprende que o preconceito é errado, ela vai ter a referência da escola, vai absorver essa idéia. A família é um ciclo, então a escola tem um papel fundamental na construção do cidadão, ela transforma gerações, não é uma mudança que ocorre de um dia para o outro. E é na escola que a criança sai do âmbito familiar para um âmbito social, com choques de cultura e diversidade. O empoderamento ocorre já nessa época, quando a criança vê que ali ela tem voz, é representada e é um tema a ser tratado.
A.C. - Quando se pensa no racismo histórico em que o Brasil é inserido, contrastado com a divulgação e preservação das culturas africanas presentes na arte, música ou artesanato, como tais tradições podem servir como ferramentas no combate ao racismo?
Lara - A partir do momento em que a cultura da população negra passa a ser desmistificada e valorizada através das artes, o combate ao racismo começa a tomar formas. Pois através desses mecanismos, o que se espera é um outro olhar, o olhar de quem aprecia, valoriza, respeita a ancestralidade e a história de resistência que pessoas negras carregam muito além do seu passado de escravidão e outras violências que sofreram no Brasil. Graças a preservação da cultura africana, as pessoas negras passam a se reconectar com a própria história e aos poucos a visualizar o racismo estrutural que constrói as estruturas sociais. E até mesmo o ato de admitirmos que o racismo é estrutural é uma forma de combatê-lo, porque quando reconhecemos a presença dele sabemos contra o quê devemos lutar, ao invés de camuflarmos ele com falsos moralismos, “mulatismos” e “morenismos” dessa vida.
Ritchelly - Estava justamente esses dias conversando com dois amigos que moram comigo (ambos negros), de como a mídia vem trazendo essa distorção de raízes nesses lugares. A mídia não mostra que a origem ao samba, por exemplo, parte da cultura negra, assim como inúmeros outros movimentos artísticos e culturais. O que me deixa feliz, é ver que ainda temos pessoas negras lutando por visibilidade e reconhecimento de seus lugares e de suas histórias. E acredito que a melhor forma de combater o racismo é fazer com que as pessoas entendam, através da música e da arte, a importância e riqueza dessa cultura que tanto contribuiu e contribui para a estruturação do nosso país.
Raquel - A tradição serve como forma de combate por ser uma forma de identidade. Por exemplo no candomblé, que foi criminalizado por se opor ao cristianismo no qual os negros eram catequizados, já no início da história brasileira. Quando o negro conquista sua liberdade e começa a valorizar sua cultura, suas raízes africanas, a retomar a idéia de que o Brasil não é feito só de culturas européias, cristãs e brancas, é uma forma de afronta às referências na mídia e na arte que se baseiam nessa cultura européia. Quando o negro se vê como agente cultural, praticante de uma cultura que pertence ao Brasil, inserida na construção social do país, é muito importante pois ele se vê como cidadão brasileiro também.
A.C. - As culturas africanas ainda sofrem muito preconceito em nossa sociedade? Como você se envolveu na divulgação e realização do evento Afrikaliente?
Lara - Sem dúvidas. A cultura africana por muito tempo foi demonizada, e sendo até um pouco pessimista, acredito que a sociedade ainda tenha uma enorme dificuldade em respeitar a cultura negra. Da estética à religião, tem-se sempre muita intolerância social para aceitar os símbolos negros. O Afrikaliente é inicialmente um projeto do DJ e Produtor Bruno Caveira concentrado na musicalidade das matrizes africanas, no qual através de um convite por parte do coletivo para ocupar a nossa casa cultural, o projeto se expandiu também para as artes visuais. Nesta edição, do início ao fim buscamos conceder o protagonismo às pessoas não-brancas, desde as sonoridades aos trabalhos expostos pelos artistas que representaram em suas obras a negritude, além de terem sido feitas por pessoas negras. Foi um trabalho lindo, que precisa ser mais visualizado e contemplado pelas diversidades.
Ritchelly - Com toda certeza. Vivemos em uma sociedade totalmente patriarcal que diminui a importância da cultura negra no Brasil diariamente. Um grande exemplo disso é uma amiga minha, que é negra, candomblecista e estudante de Letras na UFG, ela dá aula em uma escola totalmente burguesa em Goiânia, em um bairro de classe alta. Todos os meses ela traz relatos de momentos totalmente desconfortáveis nos quais é submetida nesse espaço, e que infelizmente acaba sendo uma faca de dois gumes, pois ao mesmo tempo em que essas situações causam muito sofrimento ela depende do emprego para seu sustento. O preconceito é latente e não atinge só as pessoas negras, mas tudo aquilo que os pertence, independente de sua beleza e importância. Minha participação no evento foi através de uma exposição proposta pelos membros do Coletivo Babilônia, onde chamaram artistas que pudessem desenvolver um diálogo dos seus trabalhos com a conscientização da cultura negra.
Raquel - As culturas africanas sofrem muito preconceito em vários aspectos, desde a mídia supervalorizando a cultura européia até mesmo a supressão das culturas africanas, citando de forma pejorativa por exemplo, terreiros de candomblé. A mídia faz seu papel alimentando o preconceito na sociedade, já que a mídia é uma grande influenciadora. Até mesmo em favelas, os adeptos do candomblé precisam migrar para outras localidades pois os moradores não aceitam, até mesmo com indícios irrelevantes como roupas brancas estendidas no varal. O preconceito também se dá pelo não-espaço, pela falta de visibilidade dessas culturas, só tem acesso quem vai atrás e tem interesse, mas não se pode negar que a cultura africana ainda é muito marginalizada.
A.C. - O Coletivo Babilônia trabalha com temáticas voltadas às partes marginalizadas da sociedade, como mulheres, negros e pessoas com baixa renda social. Como vocês vieram a participar do Coletivo? Qual mensagem vocês procuraram passar com o evento Afrikaliente?
Lara - A Babilônia nasce pela falta, a falta de espaços que realmente queiram incluir as pessoas que estão à margem, e que ao terem a oportunidade do acesso à cultura passem a enxergar suas lutas e vivências com outros olhos. O coletivo é a forma concreta que nós, mulheres, encontramos para arriscar o desafio que seria visibilizar uma região periférica com fortes estigmas ligados à questão de classe social. Eventos como o Afrikaliente são por sua essência símbolos de protagonismos e resgate de ancestralidades, e por si só tocam a subjetividade das pessoas. Aos poucos estamos plantando sementes.
Ritchelly - Recentemente desenvolvi um trabalho para uma disciplina na faculdade, onde teve uma exposição dos trabalhos dos alunos, durante essa exposição fui contatado por uma das fundadoras do Babilônia, a Ilâne que ao ver meu trabalho, percebeu ter uma ligação com a proposta do coletivo, em seguida fui convidado por ela para participar do evento e não tive como recusar. A mensagem que tentei passar no evento, é a mesma mensagem que tento passar todos os dias com meu trabalho, que é sobre a conscientização, o respeito, a visibilidade, e a admiração que as pessoas negras merecem, e poder trazer isso através de suas experiências afetivas.
Raquel - Eu conheci o coletivo através da Ilâne, que viu uma obra minha exposta na FAV, o “Jesus de Oxalá”, que trabalha com o tema de Jesus Cristo mas com adereços da cultura afro, e me chamou para expor. Embora o espaço do coletivo seja muito bom e acessível, com um preço justo para fazer com que a população vá aos eventos e se identifique. existe a possibilidade de ser dominado pelo público alternativo branco de Goiânia. O meu trabalho serve para tentar acabar com o preconceito com o candomblé, trabalhando com as mensagens pejorativas que são dirigidas à nós, e dialogar com a dualidade existente entre o cristianismo e o candomblé.