- Mano, vai lá comprar mais bebida, não posso sair daqui agora.
- Tá, só preciso do dinheiro e eu vou.
Eu não aguentava mais ficar ali. Natal sempre é estranho, ainda mais quando você não está em casa. Na verdade, meus natais sempre são assim, fico rodeado de estranhos. É que eu não tenho família por perto, sempre acabo parando em alguma festa de natal de amigos. Dessa vez vim para a casa do Pedro, um cara que conheci na faculdade, fizemos algumas matérias juntos. Ele é legal, mas é incrivelmente diferente de mim. Sempre rodeado de pessoas, se veste bem, fala com todo mundo. Eu sempre fui meio na minha, já me disseram que pode ser por conta da minha autoestima, talvez seja mesmo.... Sei lá.
Peguei o carro do Pedro e fui ao supermercado, sempre tem um que fica aberto para aproveitar esse tipo de situação, pessoas que esqueceram de comprar algo ou que precisam comprar bebidas. Mais cedo, antes de ir para a festa de Natal, passei em um supermercado e a atendente me dissera que o estabelecimento iria ficar aberto até uma da manhã. Na verdade, ela não me disse, foi mais uma reclamação. Algo como: "Todo mundo se divertindo e eu tenho que ficar aqui neste lugar...".
Ao chegar fui direto na parte de bebidas. Era uma variedade muito grande de cervejas, vinhos, vodkas e outras bebidas alcoólicas. Fiquei pensando o que comprar. Será que as pessoas queriam cerveja? Ou um vinho tinha mais cara de natal? Acho que vodka é algo mais para ano novo, né? Dei um suspiro e peguei algumas garrafas de vinho e uma caixa de cerveja, tinha certeza que o dinheiro não dava para comprar tudo o que eu havia pegado, mas eu não queria chegar na festa e perceber que tomei a decisão errada.
Me encaminhei para uma das filas que se formavam nos 5 caixas que estavam abertos. Pensava como essa época do ano não tem significado real nenhum, mas, no fundo, tem todo o significado do mundo. Não importa a simbologia que as pessoas usam, só de todo mundo querer estar mais feliz é algo que faz toda diferença.
Entrei na fila para pagar, tinha mais gente que eu imaginava, a maioria comprando bebidas. As pessoas falavam alto e riam entre elas. Em uma primeira vista pensei que eu era o único sozinho ali, não me incomodei, ou foi isso que eu disse para mim mesmo. Continuei olhando em volta e vi mais um cara sozinho. Ele estava a três filas de distância de mim, mexia no celular com a mão direita e segurava um carrinho de compras com a outra. Eu sentia que o conhecia, como se fosse alguém que passou pela minha vida a muito tempo e ficou perdido na minha memória. Fiquei olhando tentando saber quem era, parecia que de alguma forma era importante. Depois de um tempo deixe para lá, pensei que talvez fosse só eu tentando dar valor a minha própria solidão, criando simpatia com outra pessoa na mesma situação. Rapidamente voltei a pensar se tinha tomado a decisão certa em relação aos produtos que havia escolhido.
Alguns poucos segundos mais tarde uma mulher chegou ao lado do homem que estava sozinho, ela trazia algumas coisas na mão, colocou no carrinho de compras e deu um beijo nele. Ele guardou o celular e Ela sorriu. Foi aí que soube quem ele era.
O cara não era importante, mas Ela um dia foi para mim. A quanto tempo que não a via tão perto de mim? 2 anos? 3 anos? Acho que não importa, a presença dela é pesada de qualquer forma.
Meu corpo tremeu, tentei fingir que não havia acontecido nada e voltei meus olhos para a garrafa de vinho que eu estava segurando. Eu não tive essa reação devido a sentimentos remanescentes em relação a Ela, nem me incomodei de vê-la com outra pessoa. Tive essa reação pelo simples fato de que Ela é como um símbolo das minhas falhas. A pessoa em si não é o problema, mas a figura sim.
Uma vez, quando era bem novo, eu me apaixonei por uma professora. Ela dava aulas de literatura, tudo o que ela falava me parecia genial. Hoje sei que me apaixonei mais pela matéria que ela ministrava do que por ela em si. Bom, o fato é que eu pensei que estava apaixonado e, como um jovem inconsequente que era, confessei minha paixão depois de uma aula. Lembro que ela falou umas coisas que eu nunca esqueci, era algo assim: “Você não está apaixonado por mim. Sei que parece meio grosso, mas a gente nem se conhece direito. Você está apaixonado por alguém que você acha que eu sou, sendo assim, eu nem precisaria existir. Sua paixão é pela pessoa que você criou na sua mente”. Claro que eu não entendi quando escutei, só fiquei triste pela minha paixão juvenil não ser correspondida.
Bom, Ela é isso para mim. Algo que eu criei na minha mente. Algo que me lembra de tudo o que não sou e de tudo que eu queria ser. Mais confiante, ter um emprego melhor, ter escolhido outra profissão para poder ter mais dinheiro, malhar para, quem sabe, ser mais bonito.... Ela é como um fantasma. E meu fantasma estava logo ali, bem perto de mim.
- Próximo! Eí, você é surdo?
Como se não bastasse toda a erupção de pensamentos e sentimentos que sentia consegui chamar atenção para mim. “Espero que Ela não tenha me visto! Espero que Ela não tenha me visto! ”. Fiquei pensando enquanto pagava as bebidas. Evitava ao máximo levantar os olhos, focava minha visão no dinheiro e no produto. Nem sei qual era o rosto da atendente irritada que me chamara há pouco.
Ensaquei todos os produtos e sai apressado. Quando sai pela porta me senti aliviado, parecia que a gravidade havia diminuído. Sensação que durou pouquíssimos segundos, pois logo eu escutei:
- Eí, você realmente está meio desligado, em?
Parei de andar e senti um frio na espinha. Ela ouviu a mulher do caixa me chamando e reparou que eu estava ali. Não queria falar com Ela... não porquê eu tinha problemas com isso, é que não é simples. Enfim, já expliquei isso.
Virei lentamente e, para minha surpresa, não era Ela que estava falando comigo. Era a moça do caixa, segundo minha carteira ela me olhava com um sorriso meio debochado. Na pressa devo ter deixado em cima do caixa. Caminhei na direção da mulher dizendo:
- Poxa, obrigado. É que eu queria voltar logo para festa, sabe como é?
- A festa deve estar boa.
- Pois é... – Eu disse com um sorriso meio amarelo.
- Você não é o cara de mais cedo? Que comprou umas cervejas? Eu estava reclamando bastante de trabalhar hoje...
- Sim, passei aqui mais cedo. Nem reparei que estava reclamando, as vezes sou meio desligado.
- Percebi. Bom, de toda forma está aqui sua carteira.
- Obrigado, – Tentei ler o nome dela no crachá – Jéssica.
Peguei a carteira e me virei para sair do supermercado. Por algum motivo eu olhei para trás, na direção que Ela estava. Nossos olhares se cruzaram, tenho certeza que Ela me viu e soube que eu a vi.
Entrei no carro, coloquei a chave na ignição e comecei a dirigir. Dois minutos depois de ter saído do supermercado eu estava gritando sozinho no carro.