─ Desculpa, mas realmente não temos horário, só em fevereiro. Gostaria de marcar?
─ Não. ─ respondo secamente. Obrigada. ─ completo e desligo.
Hoje é 19 de novembro de 2020 e este é o quarto consultório psiquiátrico para o qual eu liguei. O último que aceita o meu plano de saúde. Por incrível que pareça, fevereiro é a data mais próxima que eu consegui. Mas não adianta marcar para fevereiro, eu preciso dessa consulta para dezembro, no máximo início de janeiro. Sendo sincera, eu preciso dessa consulta para amanhã. Para agora. Sinto que a qualquer momento eu posso surtar, enlouquecer de vez, ficar completamente lé-lé da cuca.
Acendo meu quinto cigarro do dia. Faz poucos meses que eu comecei a fumar, entre uma crise e outra, nem lembro quais. Trago-o algumas vezes enquanto penso no que fazer. A fumaça entrando e saindo dos meus pulmões. Queria ligar para Jéssica, a secretária em que acabei de desligar o telefone na cara, pedir desculpas e dizer que sim, eu quero marcar uma consulta em fevereiro. Mas a raiva toma conta de mim.
Pego o cigarro aceso e pressiono-o contra o meu braço esquerdo. Deixo queimar por um tempo, o máximo que eu posso aguentar, enquanto aproveito a dor. Meu corpo grita para eu parar, enquanto a minha mente goza com isso. Com o tempo se aprende a não sentir e nem ignorar a dor, mas a aproveitá-la. Dou mais uma tragada e jogo o cigarro fora, pela metade mesmo. Eu sou uma péssima fumante.
Meu apartamento está uma zona, meu cabelo cheio de nós, minhas roupas todas sujas e o meu home-office é uma mentira. Minha vida está uma bagunça. Preciso decidir se minha janta será um miojo ou uma torrada com manteiga, as únicas duas refeições que eu tenho disposição para preparar. Ao invés disso atualizo o feed do Twitter. Nada de novo. Bolsonaro falando merda, apagão no Amapá, algumas esposas assassinadas, algumas meninas estupradas, mais um negro morto por um policial. Nada para me animar. Miojo, então. Se ele estivesse aqui nós com certeza teríamos um jantar. Mas não valeria a pena.
É quase noite, o sol está se pondo e eu não comi nada o dia inteiro. Não sinto fome ultimamente. Coloco a água para ferver enquanto tento imaginar de que forma eu posso perder a cabeça. Seria da próxima vez que algum cara me cantasse na rua? Eu poderia partir pra cima dele, é uma forma bastante digna de enlouquecer de vez. “Como se eu tivesse a capacidade de matar alguém com minhas próprias mãos”, digo em voz alta para mim mesma, sarcasticamente. “Eu posso andar com um canivete a partir de agora.”
E de repente é impossível afastar de minha mente a seguinte cena: eu dando diversas facadas em um homem sem rosto enquanto grito coisas sem sentido o mais alto que eu consigo. Completamente fora de mim. Quanto mais eu parecer louca melhor.
A água começa a ferver e eu observo bolha por bolha surgir e rapidamente estourar. Não sei quando tempo se passa, quanto tempo estou aqui fitando a panela, mas sinto que já faz muito e que ficarei ali para sempre, olhando, até que a água seque e eventualmente a panela pegue fogo, depois o fogão, as cortinas e o armário, aos poucos incendiando o apartamento comigo dentro. Talvez eu até consiga queimar o prédio inteiro. Lembro do luquinhas, meu vizinho de 6 anos e desligo o fogo. Um surto meu provavelmente não duraria tanto tempo de qualquer forma, nem seria tão calmo. Eu sempre acreditei que seria rápido e intenso. Eu piscaria os olhos e de repente estaria na cadeia, no hospício ou no cemitério.
Jogo a água fora. Eu realmente preciso comer uma refeição de verdade. Comida de verdade. Quando se tornou tão difícil se alimentar, uma necessidade tão básica? Cheiro minha própria roupa e não está tão ruim. Faço uma trança em meus fios embolados com bastante dificuldade, passo um desodorante e coloco meu cardigã listrado de verde-escuro e azul-marinho. Nem está tão frio a esse ponto, mas o casaquinho faz eu me sentir abraçada.
Automaticamente eu me lembro da sensação de realmente ser abraçada e quero chorar. Alguns abraços, os melhores abraços, ficam guardados na memória com o cheiro da pessoa. A sensação dos pelos do braço roçando em minha pele. O cheiro dele quando eu afundei minha cabeça em seu peito. Olho para o teto, tentando fazer com que as lágrimas não caiam, eu prometi a mim mesma não chorar mais por ele. Mas a lembrança do abraço continua ali. Empurro-o (imaginariamente) com o máximo de força que posso, como se ele realmente estivesse ali. Como se ele pudesse cair por cima da mesa com o meu empurrão e me perguntar o que estava acontecendo, sonso, enquanto me olhava com a expressão de quem não entendeu nada, como se realmente nada tivesse acontecido. Porque apesar de tudo, do que me faz falta, é melhor estar sozinha. Até imaginariamente.
Mas de fato não tem ninguém comigo e eu preciso sair rápido desse apartamento. Tenho lembranças demais aqui. Pego minhas coisas e fecho a porta atrás de mim saindo disparada pelo corredor. Será que eu tranquei a porta? “Não importa. Deixa isso pra lá. Só vá embora. Para o mais longe possível. Nunca mais volte.” Mas eu precisarei voltar, em algum momento eu precisarei, e isso me assombra. “Mas não vai ser agora. Vá embora.” Agora eu só preciso decidir, elevador ou escada?
Escada. Andar é bom, ajuda a pensar. Sendo que tudo que eu preciso é não pensar. Pensar menos. Ou pensar mais claro. Andar ajuda a pensar mais claro, vou de escada. No elevador eu provavelmente ficaria andando de um lado para o outro, de outro para um lado, a câmera me filmando inquieta, o porteiro me achando uma esquisita. Talvez um morador entrasse no elevador e me pegasse no meio do ato. “Não, andar é bom”, eu penso enquanto já estou descendo as escadas. Andar é bom, teve uma época que eu andava 8km para ir trabalhar. Quatro para ir, quatro para voltar. A empresa me dava dinheiro para a passagem, mas eu preferia andar. E guardar todo o dinheiro da passagem pra poder pedir demissão. Aquele era um dos lugares em que desde o primeiro dia se pensa em se demitir. Mas também, é difícil que qualquer coisa seja boa quando você já está mal. Eu andava bastante aquela época. Meus pés tinham calos, minhas pernas doíam, era verão e o calor me dava náuseas, mas eu andava.
Eu poderia me jogar escada a baixo. “Tropeçar” em um dos degraus, e rolar por eles até que eu quebrasse o pescoço e fim. Cadeia, hospício ou cemitério. Eu não precisaria voltar para o apartamento assim, mas a escada já acabou e eu estico o braço para abrir o portão do prédio. Sinto meu braço doer, é a queimadura de cigarro. Estou finalmente na rua, finalmente do lado de fora, finalmente em liberdade. Liberdade? Livre pelo menos de determinadas memórias. É o que eu acho. Inspiro fundo a poluição e sinto a brisa artificial criada pelo movimento dos carros. Quero me queimar novamente, mas não posso. Só quando essa queimadura melhorar para assim eu fazer outra por cima. Uma ferida que nunca cicatriza, assim como minha dor. Tem que ser assim, tem que ter regras. Se eu puder me queimar sempre, se eu puder me queimar em qualquer lugar do corpo, é impossível que não notem alguma hora. Minha casa é bagunça, mas esse braço de queimaduras não.
Viro à direita, mas eu sequer sei para onde estou indo. Estou indo em direção a multidão parece, à lugares movimentados, lugares em que vão embarrar em mim, lugares em que vão me sujar, lugares em que vão me derrubar bebidas, lugares em que algum conhecido irá me chamar e eu vou fingir não ouvir, lugares em que vão passar a mão na minha bunda, lugares em que o barulho for alto, lugares em que eu sou só mais uma, lugares em que for impossível me ouvir chorando, lugares em que.
Decido atravessar rua e ao iniciar o ato me imagino tropeçando nos meus próprios pés e caindo em frente a algum carro, sendo atropelada. Ou será que eu me joguei? Consigo sentir a roda passando por cima da minha cabeça, ouvir o barulho do meu crânio explodindo, o grito da moça do outro lado da rua enquanto seu namorado a abraça com força. Abraços. Um pouco do meu cérebro no cachorro quente daquele menino que parece ter 12 anos, um pouco do meu sangue no vestido azul florido daquela senhora, já idosa. Um monte de traumas. Isso é um desejo ou um medo? Eu temo atravessar distraída essa rua e causar tudo isso, ou eu o quero? Cadeia, hospício ou cemitério.
Espanto esse pensamento enquanto atravesso a rua um pouco às pressas, o que não evita que os carros buzinem e joguem o farol em cima de mim. A rua não é larga, tem uma mão só, mas é bastante movimentada. Não faltam bares, restaurantes, faculdades e lojas por aqui. Agora já anoiteceu, os postes estão acesos, menos um que parece estar queimado. A rua é longa e eles formam um arco bonito de luz até o horizonte de asfalto. Passo pelo casal e ele está brigando com ela por um motivo estúpido. Ele a chama de egoísta e mimada o que me da mais certeza que o motivo É estúpido. Talvez eu devesse empurrá-lo na frente do carro, ele está bem no meio-fio, um pé na rua e outro na calçada.
A roda passando por cima da cabeça dele, o barulho de seu crânio explodindo, o grito da namorada dele vendo seu suposto amor, sua suposta alma gêmea, morrer. Ela gritaria? Um pouco do cérebro dele no cachorro quente daquele menino que parece ter 12 anos, um pouco do seu sangue no vestido azul florido daquela senhora, já idosa. Um monte de traumas. Isso é um desejo ou um medo? Eu temo num impulso empurrar esse sujeito e causar tudo isso, ou eu quero empurrá-lo? Será que é assim que eu vou enlouquecer? Cadeia, hospício ou cemitério.
Pisco e dou um passo para trás, voltando à realidade. Aqui tem muito barulho, muitas vozes, muitos gritos, risadas, tosses. Muitos cheiros, muitas luzes, muito tudo. E era isso que eu queria, não era? Um monte de tudo para eu me esconder por entre, para eu ser insignificante. Se alguém pintasse um quadro desta cena, meu rosto sequer seria mostrado. Eu não seria mais que uma silhueta. Eu não sou mais que uma silhueta.
Sim, era isso que eu queria, mas agora estou ficando confusa. É perigoso estar aqui, entre outras pessoas. Eu preciso estar atenta e não com a cabeça em outro lugar. Com a cabeça pensando em minha morte ou na morte de outros. Há tantos desníveis aqui, tantas pessoas esbarrando em mim o tempo todo. Me distrair pode significar um tombo. Eu posso não me levantar, continuar no chão, sentir quem passar andando por cima de mim, para lá e para cá, vagarosamente esmagando os meus órgãos, fraturando meus ossos, como se eu não existisse, como se eu não estivesse deitada debaixo dos pés deles. Ser lentamente pisoteada até a morte. Cadeia, hospício ou cemitério. Não. Talvez eu devesse me sentar para comer.
“Comer, foi isso que eu vim fazer”, me lembro. Comer algo decente, que vá me fazer bem, me nutrir. Faz algum tempo que é difícil não me perder em meus pensamentos repetitivos. As mesmas frases e situações sendo vividas de novo e de novo.
Me sento na primeira mesa de madeira que está ao meu lado e quase imediatamente um garçom baixo, careca e de cavanhaque deixa um cardápio sob ela. Leio o título gravado em alto-relevo no couro escuro da capa. Estou no RestauranteEmQueEuComiaComEle. Memórias. “A gente é tão sortudo que o melhor churrasco misto da cidade é tão perto do seu ap” Churrasco misto, o prato preferido dele. Nunca comi nada aqui que não fosse isso. Abro o cardápio, talvez pela primeira vez. Agora eu posso escolher minha própria refeição. Apesar de tudo, do que me faz falta, é melhor estar sozinha. Esse é o meu novo mantra.
Eu poderia ir para outro restaurante, não é como se faltassem mais desses por aqui, mas por algum motivo desconhecido eu fico. Eu me torturo. Então volto minha atenção ao cardápio, quero algo especial, algo que vá me alegrar. O que é contraditório, eu nunca escolheria esse lugar para isso, não me recordo de ter sido feliz aqui. Mas é como se o lugar tivesse me escolhido, então decido não ir embora.
As opções são: frango morto grelhado; carré de um porco que costumava brincar na lama, feliz, até alguém assassiná-lo; bicho morto; mais bicho morto etc. Eu não sou vegetariana, mas tenho pensado compulsivamente sobre morte. A morte. Um círculo vicioso (talvez você já tenha notado). Apesar de tudo, do que me faz falta, é melhor estar sozinha. Nesse ritmo a única coisa que vai conseguir me alegrar é a salada de palmito.
Decido por um macarrão ao molho branco e olho para o interior do restaurante em busca do garçom. Meus olhos escapam, me desobedecem e fitam em direção a mesa onde costumávamos ficar, na última janela. Eu o vejo, está com uma moça de cabelo curto e loiro. Meu peito aperta, não pode ser. Ele não pode estar aqui, eu sei disso. Será possível? Na nossa mesa!
Sinto raiva e depois medo. Tudo em que consigo pensar é em correr, só não sei se dele ou em direção a ele. Eu quero checar se ele realmente está ali, se eu não estou maluca. Preciso ver com meus olhos, sentir com minhas mãos a presença dele, ali tão perto de mim, em nossa mesa. Ou onde era nossa mesa. Ao mesmo tempo, eu não quero que ele me veja. Eu tenho medo que ele me veja. E se ele quiser vingança? Quanto tempo já faz? Duas semanas? Não é tempo suficiente para perdão. Não pelo o que eu fiz.
Eu sei que meu medo é estúpido. Estamos em um local público, com centenas de pessoas, testemunhas, a nossa volta. Ele está jantando com outra mulher (quem é essa mulher, aliás?), ele nunca mostraria para ela do que ele é capaz. Nunca. Só no futuro, quando ela já estiver totalmente presa em sua teia, imobilizada pelas suas garras. Mas eu tenho medo da raiva dele. E se ele não conseguir se controlar? Deus sabe que depois do que eu fiz, ele provavelmente se safaria de qualquer vingança. Ninguém ficaria do meu lado, ele não precisa se controlar.
E justamente por isso eu tenho que ir lá. Eu preciso ver se realmente é ele, em carne e osso. Eu queria conseguir simplesmente ir embora, permitir que essa mulher (eu estou com ciúmes?) seja a nova obsessão dele, para assim ele me deixar viver em paz. Mas eu não vou conseguir viver sem saber se ele realmente está por ai, existindo. Sem saber se há a possibilidade de nos esbarrarmos. Porque eu preciso estar preparada pro caso disso acontecer.
Ao meu lado, ainda com as sujeiras dos últimos clientes, uma faca. Não é o suficiente para eu matá-lo (“eu deveria ter começado a andar com o tal canivete”), mas me imaginar esfaqueando-o na mesa, na frente de todos, na frente da tal mulher, é automático. Cadeia, hospício ou cemitério. Me levanto enfio a faca no meu bolso de trás. Meu coração está batendo a mil. De repente não existe mais barulho, vozes, gritos, risadas, nem tosses. Nenhum cheiro, nenhuma luz, nada. Eu queria um monte de tudo para eu me esconder por entre, para eu ser insignificante. Mas agora tudo que existe é a batida do meu coração, tentando decidir o que fazer. É a única coisa que eu consigo ouvir. Só eu existo, e talvez ele a poucos metros de mim.
Eu não quero matá-lo, mesmo que eu deseje muito que ele esteja morto. Mesmo que eu tenha passado as últimas duas semanas torcendo pra essa ser a verdade. Acabada, devastada, a beira do colapso, passando pela maior abstinência emocional da minha vida, mas torcendo para ele estar morto. Essa é a melhor coisa que poderia acontecer por mim. Porque apesar de tudo, do que me faz falta, é melhor estar sozinha. Eu já disse isso?
Ando devagar, olhos fixos em quem eu penso ser ele, minha mente tentando calcular qual a probabilidade. Pé ante pé. Qual era a altura mesmo? 315 metros, eu já pesquisei diversas vezes. Pé ante pé. Que bom, porque eu não poderia olhar meu celular agora, tirar meus olhos dele agora. Pé ante pé. Ele pode ter rolado só alguns metros, se não tiver tido impulso suficiente. Pé ante pé. Será que eu não o empurrei com força suficiente? Pé ante pé. Mas eu o empurrei e ele sabe disso. Pé ante pé. Ponho minha mão no bolso, o que está com a faca. Pé ante pé.
E estou na porta. Consigo vê-lo claramente agora. Não é ele. Seu cabelo é mais claro, a barba mais branca, o nariz maior. Tiro a mão do bolso e me adianto para o banheiro. Tranco a porta e choro, um tanto por culpa, mas principalmente de alívio. “Não é ele”. De repente a memória que venho me esforçando tanto para espantar ressurge. Uma trilha, um passeio para fazermos as pazes, reatarmos pela milésima vez, um lugar romântico na natureza. “Vamos ver as estrelas”, ele disse. Estávamos muito perto da beirada e ele me segurou pelo punho com muita força, como ele sempre fazia. Eu odeio altura, mas ele era ótimo em me colocar em situações que me deixavam desconfortável. E então ele começou a gritar comigo e eu não sabia do que eu tinha mais medo, dele ou do precipício. Como aquilo tinha se tornado uma briga?
Eu me afastei e ele me puxou, tentando me trazer ainda para mais perto, para onde eu teria ainda mais medo. E eu achei que ia morrer, que eu passaria direto por ele em direção ao precipício, que ele finalmente iria me matar. Ele falou que “iriamos ver as estrelas”. Então eu me segurei com força e o chutei, e quando ele me soltou eu o empurrei, e ele caiu. Eu ouvi o barulho de algo rolando, folhas e galhos mexendo. Alguns “crecks” e “cracks”. Eu o ouvi gritando, gemendo de dor, até que em algum momento a voz dele parou. Eu o chamei, não tive resposta. Então eu fui embora.
Ele está morto. Eu o matei e me odeio por isso. Será que eu mereço estar morta também? Provavelmente. Mas eu amo o fato de que ele não exista mais. De estar viva e livre dele. Que ele veja as estrelas.