Caro Hans van den Broek: Obrigado por sua carta contando-me da remoção de um dos meus livros da biblioteca Nijmegen. E que ele Ă© acusado de discriminação contra negros, homossexuais e mulheres. E que Ă© sĂĄdico por causa do seu sadismo. A Ășnica coisa que temo discriminar Ă© o humor e a verdade. Se eu escrevo mal sobre os negros, homossexuais e mulheres, Ă© por que os que eu conheci eram assim. HĂĄ muitos âmalesâ â cĂŁes maus, mĂĄ censura, hĂĄ atĂ© mesmo âmausâ homens brancos. Somente quando vocĂȘ escreve sobre âmauâ, homens brancos nĂŁo reclamam. E eu preciso dizer que hĂĄ âbonsâ negros, âbonsâ homossexuais e âboasâ mulheres? No meu trabalho, como escritor, eu sĂł fotografo, em palavras, o que vejo. Se eu escrever sobre âsadismoâ Ă© porque ele existe, eu nĂŁo inventei isso, e se algum ato terrĂvel ocorre no meu trabalho Ă© porque essas coisas acontecem em nossas vidas. Eu nĂŁo estou do lado do mal, como se o mal fosse algo inerente. Em meus escritos, eu nem sempre concordo com o que ocorre, nem vou me afundar na lama por causa deles. AlĂ©m disso, Ă© curioso que as pessoas que gritam contra o meu trabalho parecem ignorar as partes dele que enaltecem a alegria, o amor e a esperança, e hĂĄ essas partes. Meus dias, meus anos, minha vida viu altos e baixos, luzes e trevas. Se eu escrevesse sĂł e continuamente da âluzâ e nunca mencionasse o outro, entĂŁo como artista eu seria um mentiroso. A censura Ă© a ferramenta daqueles que tĂȘm a necessidade de esconder realidades de si mesmos e dos outros. Seu medo Ă© apenas a sua incapacidade de enfrentar o que Ă© real, e eu nĂŁo posso desabafar minha raiva contra eles. Eu sĂł sinto essa tristeza terrĂvel. Em algum lugar, na sua educação, eles estavam protegidos contra os fatos de nossa existĂȘncia. Eles sĂł foram ensinados a olhar de um jeito, quando existem muitas maneiras. Eu nĂŁo estou desanimado que um dos meus livros tenha sido caçado e retirado das prateleiras de uma biblioteca local. Em certo sentido, sinto-me honrado que eu escrevi algo que despertou essas pessoas de seu eu superficial. Mas fico magoado, sim, quando alguĂ©m tem seu livro censurado, pois esse livro, geralmente Ă© um grande livro e hĂĄ poucos desses, e ao longo dos tempos esse tipo de livro tem muitas vezes se tornado um clĂĄssico, e o que se acreditava chocante e imoral Ă© hoje leitura obrigatĂłria em muitas das nossas universidades. NĂŁo estou dizendo que meu livro Ă© um desses, mas eu estou dizendo que em nosso tempo, nesta Ă©poca em que qualquer momento pode ser o Ășltimo para muitos de nĂłs, Ă© condenadamente irritante e incrivelmente triste que ainda temos entre nĂłs a pequenez, as pessoas amargas, os caçadores de bruxas e os declamadores contra a realidade. No entanto, estes tambĂ©m pertencem a nĂłs, eles sĂŁo parte do todo, e se eu nĂŁo tenho escrito sobre eles, eu deveria, talvez o faça, e isso Ă© suficiente. que todos nĂłs possamos ficar melhor juntos, seu, Charles Bukowski












