Diálogo entre uma vidente e um cego
“Tu já tocou num trombone?”
“Sim, sim, já...”
E ela, mesmo assim, começou a descrever o trombone e seu modo de operar, mexendo as mãos e articulando pensamentos. Não só imaginando, mas (re)criando as superfícies do objeto — fez isso para ele também sentir e rememorar os toques que o permitiram o conhecimento/a aprendizagem do trombone. Há algo de bonito aí: a situação despertou uma memória coletiva.
Notas:
i. O relato — que, como afirma De Certeau (1994), “não exprime uma prática. Não se contenta em dizer o movimento. Ele o faz. Pode-se, portanto, compreendê-lo ao entrar na dança” — foi inventivo, energizou sensações e memórias de um corpo e, consequentemente, pôde aproximar sujeito/objeto.
ii. Foi uma invenção por fragmentos e lenta, entendendo aqui que o conceito “implica uma duração, um trabalho com restos, uma preparação que ocorre no avesso do plano das formas visíveis. [...] É uma prática de tateio, de experimentação, e é nessa experimentação que se dá o choque, mais ou menos inesperado, com a matéria” (KASTRUP, 1999). Seria complicado inventar o objeto de uma só vez pela narração;
iii. Enquanto a visão facilita uma “apreensão totalitária” do objeto, o tato requer cuidado, intimidade e corpo. A visão contempla enquanto o toque apalpa, esfrega, roça e suja.
iv. Não existe mundo dado. As formas, cores e texturas emergem a partir do momento em que as criamos.
Não esquecer: para tatear é preciso estar perto.













