A reação do rapaz havia sido muito melhor do que o esperado, arrancando de Violet uma risada melodiosa. Assustar o próprio amigo não deveria ser motivo de orgulho, mas era exatamente desta forma que se sentia. Sempre que tinha a oportunidade de se divertir como uma pessoa livre, valorizava cada pequena conquista. Além disso, conhecendo muito bem o ambiente no qual Anders havia passado grande parte de sua vida, não existia a menor possibilidade de magoá-lo com a conduta. Poucos sabiam como se divertir como os Hooks! “Você daria mesmo um soco nessa doce heroína mascarada?” Virando o corpo de um lado para o outro, exibiu a fantasia que trajava como um verdadeiro troféu, sendo ela mais um avanço a ser adicionado em sua lista. Não demorou para que sentisse a necessidade de retratar-se, expressando um pouco de arrependimento através do olhar lançado a ele. “Me desculpa, não resisti.” A atmosfera da comemoração era uma justificativa irrefutável. Com os olhos semicerrados, fingiu analisá-lo após a confissão. “Se transformar em um vampiro, uh? Nunca te enxerguei como alguém que desejasse a vida eterna, mas a estética até que combina contigo.” Já teorizava que Anders, possivelmente, seria o vampiro mais carismático a colocar os pés naquele planeta. Assentiu, compartilhando o interesse pelos rituais propostos para os convidados do baile, ainda que estivesse incerta sobre sua contribuição para os mesmos. O que sua mãe diria caso vendesse sua alma para algum demônio por acidente? Focando a atenção em sua companhia, admirou a caracterização alheia com brilho nos olhos, então levando a mão até sua gravata borboleta para ajustá-la rapidamente. “Você está uma gracinha! Gostei principalmente da gravata e dos cabelos grisalhos, acho que já pode apostar neles para o futuro.” Independente da escolha que fizesse para os fios, continuaria a ser uma homem charmoso. O nome citado a fez investigar os arredores, procurando pela garotinha que agora fazia parte da vida de Hook. “E por onde se meteu a Nerissa? Ia te perguntar se ela não tem medo de andar por aí, mas é mais fácil que esteja aterrorizando os monstros, não o contrário.”
O riso que saiu de si foi tão sincero quanto possível, já que a reação alheia quanto ao seu comentário foi cômico - tal qual sua ação de movimentar o corpo para que ele lhe analisasse. Ao balançar negativamente com a cabeça, não precisou se alongar na resposta, que já era retórica por si só. “Vou precisar de alguns meses pra ponderar sobre a vida eterna. Muito complexo, sabe?!” Puxou o ar entredentes, espremendo os olhos no ato breve. Para Anders havia, mesmo, uma complexidade em jamais morrer, porém, tocar no assunto em meio a um encontro que não parecia nem um pouco fadado à melancolia parecia burrice de sua parte, ainda mais se tratando de um assunto que possuía tanta intensidade assim. Claro, com Violet não tinha restrições do tipo, mas odiaria estragar o humor dela daquela forma. De pensamentos afoitos que se perdiam no vão de sua cabeça, até o presente momento em que a Flowers se aproximou de si, ele foi naturalmente esticando o pescoço apenas para dar espaço para que ela o ajeitasse. “Uma gracinha.” Debochou do elogio com um sorriso muito forçado e inteiramente divertido. “Talvez eu deva aderir mesmo. Isso é... se eu conseguir viver por tanto tempo assim. Quem sabe fiquem mais sedosos que o da Fada Madrinha.” Riu ao término do comentário, fazendo o favor de aderir a ação de afastar a máscara do rosto dela para cima, a fim de livrar o ‘mistério’ do semblante alheio. “Adorei sua fantasia, mas prefiro assim. Sabe, é o costume.” Não mentia, afinal havia conforto em ver um olhar conhecido, ainda mais um que ele respeitava e adorava há tantos anos. Era até estranho e afrontoso da parte dela que cobrisse o rosto na presença de Anders, pois gostava de manter o contato visual com pessoas que estavam naquele patamar de suas conexões. Com a recordação da filha, rapidamente abriu o sorriso genuíno ao mostrar os dentes no ato, soltando um riso nasalado em confirmação. “Eu tenho certeza que ela ‘tá fazendo exatamente isso, acredita?” Pressionou os lábios e inclinou a cabeça para o lado, evitando que o sorriso prolongasse por muito tempo. Achava muito engraçado que a garota havia virado uma versão sua e a lembrança através do comentário de Violet lhe deixava alegre. “Mas não tenho com o que me preocupar. Ela consegue se virar bem melhor que eu até. Acho que se adaptou muito mais fácil à vida de pirata do que Anders Hook em vinte anos.” Brincou, soltando o ar pelo nariz, dessa vez demonstrando um pouco da melancolia - aquela mesma que ele não queria instaurar - lhe tomar à medida que ia recordando. “Bom, eu finalmente atingi o nível de flacidez emocional que disse que nunca atingiria.”