O cheiro da sua comida ainda é uma das minhas lembranças mais recentes.
Lembro daquela vez que você me convidou para ir para sua casa, conversamos sobre as teorias mais complexas da vida humana e até mesmo contestamos Deus. Lembro do seu sorriso cínico ao meu ouvir falando sobre coisas a qual você não acreditava tanto assim e sua voz aguda em uma tentativa falha de imitar a minha. Você adorava implicar comigo. O que rolou depois disso tudo só nós dois sabemos, ou talvez só eu hoje em dia. Naquele dia lembro de ter me questionando sobre a conexão que as pessoas poderiam ter com as outras mediante a atração dos corpos. Você me fez pensar em química e física, e eu odeio ambas as disciplinas. Lembro de você levantando, vestindo sua blusa floral - na qual eu adorava e sempre me perguntava se um dia você me deixaria usar - e caminhando pra cozinha. Eu sabia o que você iria fazer, eu já havia me acostumado com aquela rotina. Adormeci por uns minutos até o aroma invadir o quarto e me despertar mais rápido do que qualquer despertador seria capaz. Vesti minha roupa de maneira desastrada enquanto corria pelo corredor a tempo de chegar na cozinha e ver você ali parado, cantarolando Belchior enquanto mexia as panelas como se o mundo fosse só seu. O mundo era só seu e meu naquele momento. Naquela época.
Eu te abracei pelas costas e senti sua pele tremer, como quem leva um pequeno susto. Você odiava que eu desse pitaco nas suas comidas e eu adorava ignorar completamente isso, ver sua cara de raiva me divertia e eu sabia que no fundo você gostava do fato de eu conhecer algumas coisas de culinária, mesmo ambos sabendo que na prática eu era capaz de por fogo na cozinha inteira. Aquele dia eu fiquei te observando fazendo o que você mais gostava e deixei que você percebesse minha presença ali, diferente das demais vezes em que te espiei em silêncio pela porta da cozinha onde inclusive tirei algumas fotos suas que guardo até hoje. Mas naquele dia eu queria que você soubesse que eu estava ali e sua timidez lhe fez implorar para que eu colocasse uma música, em uma tentativa de desviar meus olhos de você. Eu botei e o aleatório nos fez cair em Cícero, um dos seus artistas preferidos (confesso que depois de um tempo ele acabou virando o meu também).
Eu lembro exatamente de ouvir a introdução da música se iniciando e você virando para me olhar. Foi instantâneo, nós não planejamos isso. Seu olhar pairou sob meus olhos e foi descendo lentamente pelo meu corpo e eu, escrevendo isso, consigo sentir novamente a sensação que você me causou naquele breve segundo. Acordei do meu transe quando suas mãos tocaram as minhas como quem me chamava pra dançar, e eu aceitei o convite. Em instantes já estávamos rodopiando pela sua cozinha esquecendo completamente que a qualquer momento suas colegas de apartamento poderiam adentrar pela porta e verem aquela cena patética de filme clichê romântico. Mas você não ligou para isso e permanecemos ali até você lembrar da comida no fogo.
Na nossa breve história vivemos momentos em que eu sei que nenhum de nós dois seria capaz de explica-los para outra pessoa. Alguns nos viam juntos e juravam que seríamos um daqueles casais da faculdade que duram anos, outros nem cogitavam a hipótese de que tínhamos algo. E eu confesso que adorava isso. Ninguém além de nós dois entendia o que tínhamos, mesmo que não tivéssemos nada. Os motivos que levaram o nosso rompimento não entram em questão neste texto, pois eu sei que fomos importantes para o outro. Nenhuma outra pessoa naquele momento da minha vida conseguiria me fazer sentir todas as coisas que você fez, me proporcionar todo o conforto que você proporcionava em meio a suas piadas para tentar me fazer escapar de uma possível crise. Você tirou suas armaduras e permitiu que eu o conhecesse de verdade, me mostrou seu primeiro amor, seu último amor e até mesmo me contou as histórias dos seus longos vinte e três anos. E é por isso que eu sei que ninguém jamais será capaz de compreender o que tínhamos, porque sei que nem nós dois sabemos. Mas eu sei que depois daquele dia na sua casa aquela música nunca mais foi a mesma para mim, muito menos você.
- A menina da rua 3.




















